Na imensidão da cidade, o mar

Eu não consigo sentir os meus pés. Nem a passarela que é vasta e anuncia a imensidão de água adiante. Você já viu neve na praia? Assim, neve cobrindo toda a areia? E não derrete quando toca o chão, digo, não derrete rápido quando toca a onda? Minhas mãos estão tremendo, mas eu não estou resfriada ou com frio. Meu poncho move com o vento e eu não consigo dançar como se a minha mente, em paralisia de encontro, estivesse perdida naquele mar de água. Queria emprestado a sua voz. Não as suas palavras, mas o som que foi levado para longe de você dentro das conchas que as crianças carregaram nos baldes e sacolas de plástico. O beijo entremolhado. Reminiscências do verão de 42.
Agachada abri um pequeno vão na areia com um pedaço de madeira que encontrei entre algas, pedras e corpos de oceano. Cavei, cavei, cavei e tentei imitar o pai que ansioso constrói a piscina para o filho, antecipando a tristeza da maré que é forte e impiedosa e que leva a brincadeira descompromissada para longe. O ideal, quando possível, devia ser abrir o buraco afastado da beira para alongar o momento afável. Então, preparei-me para a ida à praia da cidade, mas não para o que ela iria significar em termos de lembranças, tristes e suaves. Uma certa alegria acanhada e serena. No que há de simbólico, a espuma da infância e o cheiro de peixe - maresia. E cheguei bem cedo antes da praia abrir, para não correr risco. Mas porque fazia frio não precisei pagar, não havia isso do satisfazer-o-que-se-deve.
A ausência tanto de grades e portões imaginários, quanto de pessoas e ingressos fez com que eu recordasse que ainda faltava para o verão chegar; que a água provavelmente devia de estar gelada e que eu não ia presenciar a areia sendo amaciada e afofada pelo pequeno trator. Num vai e vem barulhento. Encontrei alguns cacos de vidro no chão e porque eram verdes refletiam cintilantes na areia. Recolhi o que pude da superfície e depositei na lata de lixo vazada feito rede de pescador. Um ou outro a ver o mar e o dia nascer. Caminhei até a beira longa e plana com a grande massa de água aberta, exposta e solitária diante dos meus olhos. Sombras e manchas salgadas. Chega a ser um abismo, um tormento de espírito tanto excesso.

O parque de diversão entre a areia e a linha suspensa do metrô. O parque como qualquer outro, como os do litoral da infância com suas barracas coloridas e nuvens de algodão-doce. Férias e bilhetes e abraços. A roda gigante desenhando o vento como se fosse um carrossel vertical e a montanha-russa que eu não quis visitar depois daquela vez. O aquário ao lado, na beira do passeio, mas que é sempre melhor em abril com a primavera. E devagar, bem devagar, Coney Island - a praia da cidade para os residentes locais do ano inteiro. Para os prédios ao redor e para o subterfúgio diário. Evoquei imagens e planos de ação. Elaborei como a vida seria com o mar aportando a gente, um derramamento constante; e fechei os olhos por um momento para tentar gravar na memória estável aquela fotografia. Se houvesse música ambiente seria assim: primeiro as ondas e pássaros, depois as vozes dos adultos e as gargalhadas das crianças, e por último o som do altofalante do parque intercalado com o motor dos brinquedos. Feito a viva cores.
Acontece sempre da bateria da máquina acabar ou da gente ter que apagar alguma representação em detrimento de outra. Havia a imagem do casal de casaco, botas e cachecol com a criança na beirinha. A do céu e do mar em comunhão, outras tantas fora de foco, com frio. Fui apagando até abrir espaço para o horizonte que não cabe em um quadro, mas que nos resgata de uma só vez. Como o azul adiante: êxtase insuportável.

Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Todas as histórias na página das
cidades
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6 comentários
Coney Island é uma das últimas lembranças da minha infância. Lembro-me bem do calçadão de madeira, da casa de horrores, com seus espelhos, do algodão de açúcar rosa. Não me lembro do mar.
No Rio de Janeiro, para onde fui aos cinco anos, fiquei de cara para o Pão de Açúcar. Nunca havia visto um morro! Era minha paisagem favorita.
A água do Pacífico é gelada o ano inteiro aqui na California. O Pacífico foi mais uma dessas coisas que não se entende. É um oceano de borrascas, isso sim.
Meus parabéns pelo post e fotos. Em Santa Monica também temos uma roda-gigante, um carrossel, jogos, mas Coney Island é o refúgio das classes trabalhadoras, creio.
tina oiticica em 18 de março de 2008 às 05h34
perfeito como tudo q vc escreve ..
Leandro Carrasco em 18 de março de 2008 às 19h35
Na minha imaginação todos os meus problemas 'praianos' estariam resolvidos na California, Tina. =) Talvez por causa do clima se mais ameno? Não sabia que o seu oceano era tão impetuoso e contrariado. Por aqui, apesar da água ser gelada inclusive no verão, noto uma certa calmaria.
Como as imagens que guardamos da infância são vivas, não? "Nunca havia visto um morro! Era minha paisagem favorita"
Coney Island sempre atraiu muitas pessoas, teve sua época de esplendor com resorts e tudo o que cabe na palavra entretenimento, porém com o advento dos trens e depois metrôs a praia se transformou nesse refúgio de que fala, uma lugar de fácil acesso...e é assim até hoje. Gosto muito de ir lá.
Muito obrigada pelo comentário!
Leandro, que lisonjeiro. Muito obrigada. =)
isabella em 19 de março de 2008 às 12h58
e novamente ... não é lento, é cedo, abre assim um pedaço de espaço na minha cabeça que são essas visitações de lembranças que só você conhece, nunca me contou, como me lembro e como vi? olha lá, é que eu estava lá quando ela olhou pra mim, é que depois que ela apareceu com os relatos daquele 42 de tantas partes que queríamos apagar, quando chegou com as caixas, as crianças, com a vespa, com os telefonemas nervosos (com nosso bebê eterno), eu me perdi e passei a só conhecer Nova Iorque de metrô, com aquele cara tentando ler o que cê lia no colo.
e novamente descubro que te amo.
priscilla em 20 de março de 2008 às 01h18
É cedo e estamos longe de casa. De carona em direção ao mar. Descompromissadamente.
Estendo a toalha no chão. Convite. Estela vem e não vem. Quer e não quer areia, indecisão pura - e só tem dois anos.
Praia vazia, brisa morna. Um ou outro chega para saudar o mar. Gelado. Dizem que a culpa é do inverno, nas alturas, da economia. Outros dizem que é a corrente de ar frio do norte. Possível?!
"Daqui a pouco vou até a beira", digo.
Estela corre, segue o pai e volta para mim. O sol é quente. Chapéu. Água.
Contamos conchinhas, corremos das ondas e sorrimos.
É verão e estamos longe de casa.
(Isabella Kantek at 5:49 PM)
http://isabellakantek.blogspot.com/2006/05/crnica-de-vero.html
priscilla em 20 de março de 2008 às 01h32
Descobri que as visitações ou vivências não cabem no espaço da janela do gtalk ou naquela meia hora corrida no telefone. Ontem um par de sapatos balançava no cabo de todas as casas fazendo graça para as pombas bem alimentadas pela deli da esquina. Pensei em você e que a foto ficaria bem na sua página de imagens. Ainda bem que não sou só eu que estou com a sensação de desbravamento atrasado pois quando passeio pelo seu Rio sinto como se tivesse colocado um encantamento no meu ouvido e o efeito é tão forte que desço do trem pensando que havia descido de um ônibus ou da garupa de uma bicicleta. Um caso de amor e admiracão.
Muito muito obrigada, Prill.
isabella em 21 de março de 2008 às 04h29
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