O verão possível entre a andança e o meio

Publicado em cidades por isabella em 12 mar 2008 11:26 PM | 15 comentários

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Iorque Nova Romance

Havia chovido de forma fina e contumaz e as luzes abriam clareiras para o dia que se aproximava do final muito lentamente. O passo controlado só porque eu não queria escorregar e o guarda-chuva na sacola de papelão. Entrei no café mais próximo e pedi um chá gelado com madeleines amanteigadas e úmidas. Do outro lado da rua, embaixo da marquise de um banco, um músico compunha uma melodia melancólica enquanto olhava fixo para os carros constantes como se estivesse revivendo na memória afetiva o momento especial que antecede a estréia e que paira no ar, entre a platéia e o palco. E por causa dos óculos eu podia observar tudo e todos sem me abster de nada. Como a vista delicada do casal de idade ainda de mãos dadas que deixou um troco na maleta musical. Os de bota de chuva e os sem bota como eu. Um ou outro com uma fatia de pizza robusta no prato descartável, e por fim, aqueles que não iam dar nada ao músico, mas se sentindo constrangidos retornaram deixando um trocado. O meu eu de ontem.

O pequeno café tornou-se cheio de engravatados e moças de salto alto gradualmente, e eu me vi obrigada a sair do local mais cedo do que o esperado. Pedi um pouco de guardanapo e caminhei até o Bryant Park com a brisa tímida, etérea. Escolhi uma entre as inúmeras cadeiras verdes e dobráveis de ferro e passei o papel para tirar o excesso de água. Sentei-me virada para a parte que dá para a lateral do prédio da biblioteca pública, que é tão magnifico quanto o busto de Gertrude Stein logo ali. Abri o guarda-chuva para me proteger dos raios de sol e como não havia onde colocá-lo resolvi que o melhor ia ser segurá-lo enquanto houvesse sol ou até quando a minha mão suportasse. Acomodei o livro no colo e abri na página da crônica da cidade de Nova Iorque. Em meio à música e o barulho da sirene da viatura, li o relato instantâneo da vida de um taxista. A vida breve e frágil corrida no trânsito devorador de asfalto, de gentes e de silêncios. Porque aqui ninguém pára de dirigir quando alguém coloca o pé na faixa como dizem. Isso é fato e o resto, contos.

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Entrepensando senti a mão do guarda-chuva adormecida entre o estágio de dor e formigamento e determinei que era hora de levantar. E que fosse logo, antes que a multidão de pessoas saindo do trabalho e vindas de todas as direções transformasse a calçada em mar. O músico também deve ter tido a mesma idéia porque guardou o violão na mala de couro, as notas na carteira e as moedas no bolso do paletó. Meticulosamente. O que será que ele vai jantar? Foi o que pensei num sopro, puro instinto. Quando a luz do sinal fechou para os carros e eu comecei a cruzar a faixa de pedestre reconheci o rosto de uma senhora de idade que atravessava a rua com leveza. Insisti com o olhar e ela retribuiu de volta com uma expressão agradável. Havíamos feito um curso desses de primavera juntas e desde então nunca mais nos vimos. Ela precisava retirar um livro na biblioteca e eu voltar para casa. Combinamos um café qualquer dia desses na livraria japonesa da rua 49, mas já sabendo que a gente só ia se encontrar assim de novo, de modo são nunca.

Lembrei-me das minhas avós com a cabeça ainda no encontro e senti uma saudade sutil e morna tocar as bochechas. Imaginei como seria bom revê-las assim tão fácil, cruzando a rua, refazendo lembranças e sorrisos. Que seria, seria. As promessas. O sol ensaiava partir e eu imaginava as estrelas descortinando o céu. Na vitrine da papelaria uma fotografia do Empire State Building ao lado de outra da ponte do Brooklyn. Então era isso, como se a mente ordenasse, prescrevesse. Precisava atravessar a ponte novamente sem saber como seria uma vez do outro lado. A caminhada longa e silenciosa até o trem, o cansaço e as obrigações tantas. Na imensidão da paisagem, o ar espontâneo. Mas ficava tarde e a temperatura fazia o movimento amplo, de pêndulo. E eu queria o desistir, deixar para outro dia, quem sabe esperar o sol ameno de Setembro ou Outubro, nascer.

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No vão da metrópole o olhar abismado e inquieto. Letreiros, cartazes e propagandas cobrindo edifícios, lojas e ônibus de dois andares como se fossem carros alegóricos. Um verdadeiro vitral néon. Do outro lado da rua, entrando na desordem da Times Square, um homem vestindo uma capa marrom e uma mulher de óculos ray-ban gritavam e prometiam o reino de Deus. Um pequeno altar e uma mesa repleta de livros e imagens da Bíblia entre frascos de vidro contendo o desespero de Eva e panfletos que agouram mal. Apocalípticos. Nessas horas a respiração vai fundo e para se proteger a gente se imagina como parte da filmagem de alguma produção B só que no futuro. Uma triste versão de Blade Runner produzida por Golam-Globus.

O mais aconteceu sem muita ciência, ainda envolta na situação passei a catraca, desci dois lances de escadas e peguei o metrô errado. A ponte que não foi, mas havia de ter sido a escolha acertada.

as cidades Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Todas as histórias na página das cidades
 
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15 comentários

Isabella!, que fotos tão porreiras, sobretudo as duas primeiras. Lembram aquelas iniciais (e a das chaminés). Adoro adoro. Aquele verde no centro da primeira.
E belo belo texto :))

sao em 12 de março de 2008 às 23h43

Que lindo texto , Isabela. Um toque de Proust, não? Gostei mesmo.

tina oiticica em 13 de março de 2008 às 07h47

O par de óculos e a mão que segura o guarda-chuva dizem que vc está a caminho sem se importar com a estação do ano. grato

jad em 13 de março de 2008 às 11h35

" O meu eu de ontem."

perfeito, tanto o texto, quanto as fotos ..

muito bom Isabella, seu texto alegrou minha manhã ..

Leandro Carrasco em 13 de março de 2008 às 13h31

Isabella, você acredita que o seu texto me envolveu tanto que esqueci das fotos? Adorei. Muito bom mesmo.

Anna em 13 de março de 2008 às 13h34

Amiga,

que bonito! Tão visual que consegui enxergar toda a paisagem externa e interna... :)

Você está cada vez melhor.

Beijoca,

Cris.

Cris Vale em 13 de março de 2008 às 19h29

São, que olho você tem! =) Essa coleçao de fotografias + as primeiras foram tiradas pela mesma pessoa, não me estranha que tenha gostado. ;)
Muito obrigada.

*

Obrigada, obrigada mesmo, Tina!

*

Acho que perdi o par de óculos, Jad.

*

Leandro, coisa boa saber que alegrei a sua manhã.
Muito obrigada. =)

*

Anna, isso porque as imagens são "robustas"... rss
Encantada e agradecida.

*

Amiga, que delícia uma mensagem sua!
Obrigada, viu?
Beijos.

isabella em 14 de março de 2008 às 22h20

Das cidades que visitei, Nova Iorque foi a que mais decepcionou, confesso. Não dá para explicar em algumas linhas, mas achei que a cidade vive do impacto da escala (que é apenas uma questão de tamanho, quantidade, não é nada qualitativo) e de um marketing muito eficaz. Ao mesmo tempo, pensei sempre que talvez pudesse vir a gostar dela se estivesse lá, não como turista de uma semana, mas vivendo nela uns meses, para poder aproveitar o que quer que ela tem para oferecer que não vem nos roteiros, e que tem de ser muita coisa. E é essa visão que encontro também aqui, e que me torna a visita à cidade mais interessante nestes textos do que na minha viagem real.

Isa, que bonito isso de estar com o chapéu aberto para fazer sombra! No sul de Portugal (pelo menos no Algarve) as pessoas não dizem chapéu-de-chuva - dizem sombrinha, porque é no Verão que o usam mais, para se protegerem do sol. Ou melhor, usavam, antigamente. Ainda por vezes se vêem caminhar ao longo das estradas mulheres já mais velhas com a sombrinha aberta.

Chloe em 15 de março de 2008 às 13h06

Um português que visitou Nova Iorque disse-me: "é o Minho todo numa cidade". Achei bastante expressivo.

seven em 15 de março de 2008 às 22h23

Chloe, acho que consigo visualizar a sua decepção pois até pouco tempo ainda me sentia turista nesta cidade. Também concordo que a metrópole vive desse impacto de que fala, dessa coisa do turismo direcionado e exagerado, porém gostaria de esclarecer que a Nova Iorque "off the beaten path" é muito mais interessante e menos eficaz que essa encomendada e fantasiada dos guias e pacotes...são trens que não funcionam no final de semana, pequenas galerias e restaurantes escondidos e camuflados...o dia-a-dia da cidade que somente com mais tempo somos capaz de apreciar e conhecer melhor.

Pois sabe, eu queria ter usado a palavra sombrinha, mas fiquei com receio de que se tratava de um termo exclusivo do português brasileiro. Vivendo e aprendendo... =)
Obrigada pelo comentário!

isabella em 16 de março de 2008 às 02h46

somos capazes*

isabella em 16 de março de 2008 às 02h48

Isa, amei as fotos muito lindas!!!!!!. Mas e claro que o texto tambem e maravilhoso..........
Zulma.

Zulma em 16 de março de 2008 às 14h45

Muito obrigada, Zulma! =)

isabella em 17 de março de 2008 às 14h14

As fotos estao um xpetaculo adurei!!!
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Anonimo em 11 de abril de 2008 às 20h48

Isabella, onde está vc?
Estou com saudade dos seus textos.
Bjos

Anny em 11 de abril de 2008 às 21h15

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