O Véu de Washington Heights

Publicado em cidades por isabella em 7 mar 2008 11:28 PM | 9 comentários

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Iorque Nova Romance

A esmo. Eu trazia Sonny's Blues comigo a esmo numa tentativa de reconhecer a essência do lugar. Se as casas continuavam pairando no ar denso. Se a tinta colorida das paredes descascavam a história e a cultura que reverteu todo o brilho, devagar. Em câmera lenta, no degrau das townhouses, moradores assistiam a vida em tempo real com o sol de Setembro que sabia ser quente e incidia sobre o olhar vago e distante de renúncia. O desamor. Na calçada, bem na minha frente, uma mão ligeira movia cautelosa na direção do bolso da bermuda de um rapaz. Quase dentro. Criei suspeitas e marquei encruzilhada com o que se atreveu. Então, num ímpeto, gritei "ei ei ei". O moço, alto e magro, recuou e fez crescer os olhos de seta. O instante em suspensão. Eu nunca imaginei que esse dia iria chegar, que eu fosse presenciar uma cena como esta. Momento insensato. Olhei rapidamente ao redor e não encontrei ninguém disposto a me ajudar ou que tivesse visto o que eu vi. O batedor de carteira, surpreso, seguiu o rumo oposto e eu respirei com dificuldade.

Eu não havia trazido o mapa com o pedaço de papel colado no meio. De certo ele descansava sobre a mesa da cozinha. No bem fazer. Também não havia trazido o endereço do museu, que dirá o telefone. A sorte em recesso. Parei na primeira banca de jornal que enfeitava a esquina sem êxito. O pequeno mapa que o jornaleiro me mostrou – o único modelo à venda - continha apenas os pontos turísticos mais visitados da cidade e eu não queria isso. Renegava. Lembrei-me das lojas de souvenir espalhadas por toda parte. Na entrada, mapas para todos os gostos, finalidades e encontros. Não foi no primeiro, nem no segundo que eu achei. Estava quase desistindo quando encontrei o nome do museu e as coordenadas em um mapa ilustrado, panorâmico. Sem nada para anotar tentei memorizar que o museu devia ficar na altura da rua 145 com a Broadway. Dissidente, o pássaro sussurrou: "lembre-se que este é um mapa panorâmico".

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Peguei o trem "A" e desci na estação 145. Fui na perguntacão e nada. Ninguém conhecia o lugar pois que não havia traços dele na região. Como um feitiço. E era estranho por causa da comunidade dominicana que se aproximava, e da língua. O castelhano. Avistei uma biblioteca no meio do quarteirão, na ladeira, e resolvi tentar. A água do bebedouro tinha gosto de torneira, mas trouxe ânimo e eu esperei no balcão da entrada impaciente. Os funcionários pareciam conversar sobre as pequenas coisas, sem senso e eu tive de esperar. No mural de cortiça, anúncios de eventos e atividades do bairro mesclados com fotografias de crianças, formaturas, e o horário de funcionamento da biblioteca. Telefones úteis. Nas mesas espaçosas, livros e jornais. Nos computadores, adolescentes compenetrados na beleza do mundo. Finalmente perguntei sobre a Hispanic Society, mas não souberam responder. Encaminharam-me para o supervisor que, atenciosamente, verificou o endereço na Internet. E lá o equivoco, a sociedade ficava na rua 155. A outra realidade.

Ainda que insegura e reticente decidi caminhar. Vesti a mochila na frente e atravessei a fronteira entre o Harlem e Washington Heights sem saber exatamente onde um termina e o outro começa. Reconheci o caminhar devagar, de batida leve e relaxada. As notas musicais que tocam o ar e ecoam triunfante no ouvido. O diálogo com o corpo que ocorre na total ausência de palavras. Apenas sensação. A antiga atmosfera de Sonny e Creolo. Procurei não olhar olho no olho e concentrei toda força motora na particularidade da paisagem. O supermercado cuja parede estava coberta de cartazes promocionais. A loja de esquina com a vendedora lixando as unhas ao som de bachata-merengue. A criança barrigudinha chupando picolé e a calçada larga da avenida. Uma inclinação no espaço breve onde a marginalidade e a alienação lembram a cidade de interior qualquer, em qualquer canto. O cemitério em pleno asfalto e a igreja quase ao lado para alento da alma aflita. De fato, menos inglês e muito mais castelhano.

O museu havia acabado de fechar como quem traz o azar na frente. Difícil acreditar que ninguém tinha ouvido falar dele. Uma mentira dessas que rodeia a cabeça da gente, pois que um prédio como este, fundado em 1904, não passa desavisado, transparente. Não pode. Foi preciso pedir autorização para entrar no prédio principal. Para na vista geral tecer o conhecimento. E no final deu tudo certo porque o pátio extenso de chão de pedra que conecta um prédio ao outro estava sendo preparado para um evento à noite com direito a fotógrafos, mesas e arranjos de flores. Canhões de luz à sombra do El Cid. E não pude me conter, haveria comes e bebes? Estava faminta. Ao entrar no prédio senti o cansaço percorrer o corpo, senti que eu devia ter saído de casa preparada, no seguro da situação. As paredes de madeira ornamentada, talhada; muita cerâmica e azulejos. Escadas estreitas, pouca iluminação. As pinturas da Era de Ouro e as esculturas medievais sufocando suspiros. Tanto que nem cabe na gente. E naquele momento único de cumplicidade entre homem e arte, o silêncio.

Fotos gentilmente cedidas pelo fotógrafo Mikko Stamm

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9 comentários

Os Estados Unidos são uma autentica manta de retalhos. Uma diversidade cultural que impressiona. Os seus fazem parte de uma só nação mas também são deveras intrincados com as suas culturas de origem. Interessante.

slim em 8 de março de 2008 às 12h43

Muito bom seu post. Parece que está distribindo pensamentos em cada palavra escrita.Pensamentos secretos sobre o mundo escondido entre as sombras da rua...

Anna em 8 de março de 2008 às 20h44

E americanos mesmo há poucos ;)

seven em 8 de março de 2008 às 22h49

Slim, muito obrigada pelo comentário. De fato essa manta de retalho eciste, uma bela imagem! Fez-me pensar na maneira como ocorre a diversidade no Brasil e EUA, por exemplo. Pelo o que vejo nas ruas e poucas viagens que fiz, a diversidade aqui em terras distantes é localizada e não ocorre na sua totalidade (o que eu quero dizer com totalidade é: não há de fato uma mistura, um cruzamento de gentes como houve no Brasil, as pessoas vivem mais nos seus grupos e
"guetos"); além disso ela predomina em cidades como NYC e LA.
Já no Brasil a coisa muda. A mistura vai na raíz, está tão lá atrás que na essência somos todos brasileiros salvo exceções, como no sul do país. (okay, estou longe e romantizando um pouco. se me permite ... saudade)

Anna, obrigada-obrigada pela gentileza e leitura. =)

Seven, de fato, mas principalmente nas cidades que mencionei acima.

isabella em 9 de março de 2008 às 01h24

existe* ;)

isabella em 9 de março de 2008 às 01h38

Isabella,

Há algum tempo quero comentar seus textos, mas sempre o relógio anda contra mim. Impressionante essa guerra que venho travando com o tempo:P
Seus textos são deliciosos. Envolventes na dose certa! Me dá até vontade de percorrer "seus lugares", mas você já o fez por mim :)
Vejo um pouco de SP também neles. É impressionante como as grandes cidades são parecidas e diferentes.
São muitos os "momentos insensatos", talvez um pouco diferentes, mas "insensatos" com certeza!
E sua saudade ...é a eterna saudade de quem nasceu "num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza",
É Saudade pra sempre!

beijos

Sandra Leite em 9 de março de 2008 às 15h29

Muito obrigada, Sandra pela mensagem! Fico feliz que tenha sobrado um tempinho para comentar. =)
Sem dúvida há São Paulo nessas andanças e saudade, muita saudade. Como se escrever sobre o agora e a cidade atual, restaurasse os momentos que ficaram para trás e que me ajudaram a me constituir como sou - apesar da gente ser mudança...
Cidades grandes são parecidas e diferentes, é verdade! Elas são capazes de nos acolher e "desgarrar". Um espanto.
Obrigada novamente. ;)
Beijos.

isabella em 9 de março de 2008 às 21h09

Isabella, obrigado eu.

Infelizmente, para mim, não conheço em profundidade ambas as situações de convivência e/ou "cruzamento de gentes" quer no Brazil ou EUA. No entanto, daquilo que sei, penso que o processo de integração entre grupos culturalmente divergentes são diferentes de um para o outro lugar. Até mesmo alguns dos postulados de ida quer para o Brazil, quer para os EUA foram diferentes em determinada altura.
A quantidade da diversidade é um factor que pode influenciar.
Mas penso que sim, que nos EUA há realmente essa 'convivência' mas não "cruzamento", integração cultural. Faz lembrar aquela ideia de ter um cantinho do país de origem no local onde as pessoas se refugiaram. Cantinhos ao lado de cantinhos, retalhos juntos.
Talvez seja por isso que se chama Estados UNIDOS.
No fundo tudo faz sentido: é uma mentalidade, uma forma de estar.

slim em 9 de março de 2008 às 21h33

Muito bem colocado, Slim. Eu tampouco conheço com profundidade (no geral são sempre obsevações e tentativas de entender), de qualquer forma é sempre muito bom poder dialogar e trocar idéias. Obrigada. ;)
Você tem toda razão quando diz: "Faz lembrar aquela ideia de
ter um cantinho do país de origem no local onde as pessoas se
refugiaram. Cantinhos ao lado de cantinhos, retalhos juntos."

isabella em 10 de março de 2008 às 03h37

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