Pizza Palace, Central Park e Coisas Gerais

Publicado em cidades por isabella em 22 mar 2008 11:23 PM | 7 comentários

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Iorque Nova Romance

"Fiquei sabendo que o Steven Seagal já almoçou aqui." Apesar do nome Palace concluir imponência, o local é uma lanchonete de esquina dessas conforme à regra comum, onde pizzas e calzones com substância são servidos todos os dias. "Ah é? E parece que a Cindy Lauper passou a infância aqui no bairro, sabia?", comentei enquanto partia o calzone com uma faca cega - não ia conseguir comer tudo, quem sabe com os olhos. "É, sabia, sim. Mas então, ouvi dizer que ele esteve em Astoria para conhecer a segunda Grécia". Formei idéias, revisitei alguns filmes e os deixei ir sem apego. E assim, ele mordeu o seu gyro de frango porque o churrasco grego no pão pita ele preferia deixar para os mais viscerais. Na mesa da frente uma família com três crianças almoçava pratos da culinária italo-americana. O cheiro do molho de tomate exalava temperos e modos de preparo tão distintos de tudo o que eu já havia experimentado que até parecia bom. E não havia como ficar indiferente; ele olhou, e apenas ele. "São almôndegas, alguma massa e pizza", disse. Lembrei-me das almôndegas da Ikea e de que eu nunca mais havia voltado lá.

Isso acontece geralmente quando eu não consigo cozinhar e o tempo se mostra amável, nos convidando para uma volta ou quem sabe, duas consoantes. Mas também porque fazia tempo que nós não passávamos por aquelas quinas. E eles foram certeiros na escolha do ângulo, pois que o lugar tornou-se uma espécie de signo do bairro, distintivo mesmo, se pronunciando desembaraçado e aglomerando a todos. Isto é, a pizza e os aromas tinham índole. E eu só tinha uma reclamação e nem chegava a ser protesto de fato. Era coisa menor: a impaciência subalterna, pequena e imatura gerada pelo atendimento enrolado, no desfazer dos segundos, minutos, horas... como quem engana o compasso do tempo. Mas eles, os moços, pareciam não fazer caso nenhum dos nossos estômagos porque trabalhavam com júbilo na prosa faceira. O que eu sei desta história que corre solta atrás de balcão, dessa dinâmica? Sei nada. O cheiro da farinha crocante que vinha do forno à lenha e dos queijos derretendo abria o apetite. Os prazeres. Tomei um pouco da coca-cola dele e reparei.

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Uma criança chorava desconsolada no fundo. E o pulmãozinho não fazia cerimónia de nenhum tipo porque criança quando chora não mede os impulsos e as sociais. É pura lisura de flor - se não fosse pelo agudo da voz nascente. Da nossa mesa, o que deu para sentir foi que ela, a menina miúda, queria andar no carrossel de três cavalos que incrivelmente havia achado um lugar à sombra dentro da lanchonete; mas a mãe não queria deixá-la. Ela era só o pedir para a menina se sentar e terminar a pizza. Eu tinha na bolsa um saquinho cheio de quaters que eu carregava por causa da lavanderia. Pensei em oferecer, acabar com aquele desassossego, porém resolvi não me intrometer. Quando estávamos saindo a quietude fez que fez e a música da rádio também. Até o choro emudeceu. Um senhor beirando os oitenta anos, de boina e suspensório, segurando o jornal italiano da comunidade, entregou uma moeda à criança que subiu sem jeito, sorrindo e soluçando lágrimas. Não deu tempo de conferir o semblante da mãe. O vento bateu a porta com força e só conseguimos escutar o começo da canção do brinquedo que tocou com solavanco e voz automatizada: "Old MacDonald had a farm...".

O trem não demorou para andar e em Astoria Boulevard fomos avisados de que ele iria expresso até a Queensboro Plaza. Isso não acontece sempre, e quando ocorre tem a bondade. Sentamos de frente para a janela com a paisagem resvalando, montada e machada, pois que para cada estação havia um pedaço da cidade que ficava para trás de súbito. Na última estação ele entrou, era Mr. Smile. E eu fiquei foi só alívio porque fazia tempo que não o via, e contente porque a sua aparência era forte e reluzente, de quem se cuida. Salvo! Chegámos no parque em menos de 20 minutos e entrámos pelo corredor de pintores-retratistas e caricaturistas a postos. Um coreano me chamou com a mão e em seguida mostrou o número dez com os dedos. Eu agradeci e ele insistiu: "just 10 dollars", assim, fácil e sorridente. Havia retratos variados e caricaturas efêmeras. A Princesa Diana estava em todas ao lado de Angelina Jolie e Brad Pitt. Contra-surpresa, um rapaz comprava a caricatura de Bush, enquanto um casal levava a de Al Pacino, concluindo.

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Andamos um pouco e também em círculos. Passamos em frente ao carrossel fiel à vida incessante e paramos por um instante. O cavalo piscou e sorriu surreal como se realizasse porventura uma jornada inesquecível e desmedida. Não havia sinal de chuva e o vento era ideal, perfeito para crinas e galopadas. Daí que de repente um cheiro de pipoca sobressaiu dos arbustos e a gente começou a andar de novo, atravessando calçadas e ciclovias com um verde claro desses que só mesmo nesta estação. De longe os noivos posavam para fotos enquanto os barcos, um a um, faziam namoros comportados, dispondo os seus remos em abraços que atenuavam o afastamento, qualquer que seja. As mães, lado a lado, cuidavam para que tudo estivesse impecável, murmurando ternuras e lamentos maternais que imaginávamos pelo contorno dos lábios pintados, delicadas cerejeiras. Não tinha um que não parava para olhar, inclusive as pombas e os cães. E fomos ficando - não no banco ou na grama - sem ter que se despedir de ninguém, esperando o sol inteiro transbordar para trás.

as cidades Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Todas as histórias na página das cidades
 
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7 comentários

Isabella, adoro seu escrever. Engraçado é que de vez em quando, pedaço dos textos me vem à cabeça. São pedaços de dias. Narrados de forma espacial. Para não serem mesmo esquecidos...

Anna em 23 de março de 2008 às 20h11

Tua história está em ritmo de domingo; em ritmo de carrousel.

tina oiticica em 23 de março de 2008 às 20h49

Anna, muito obrigada. Que comentário mais querido. =)

Sabe, Tina, eu tive a mesma sensação quando vi o post publicado no final de semana. Que engraçado...
Muito obrigada pela leitura. ;)

isabella em 24 de março de 2008 às 02h51

Impressionante ..

Me senti no lugar descrito, degustando uma maravilhosa pizza, acompanhado do ritmo estridente do choro da criança ..

Não pare de escrever Iza, sinto q estou levemente viciado em seus textos ..

bjo

Leandro Carrasco em 24 de março de 2008 às 16h05

Leandro, que maravilha!
Muito obrigada. =)

isabella em 25 de março de 2008 às 14h27

Parabens, Isa
Teus textos tem sabor e aroma! Nao vejo a hora de ler o proximo.
Beijos suburbanos..

Ale em 27 de março de 2008 às 14h52

Alê, que surpresa! Muito obrigada.
Adorei isso dos beijos suburbanos. ;)

isabella em 27 de março de 2008 às 20h36

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