Resgates obsessivos não-fotografados: mito do nascimento do meu ver

Publicado em cidades por prill em 21 mar 2008 11:27 PM | 8 comentários

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Romance Rio Janeiro

Conheci a cidade duas vezes e, primeiro, ela foi lugar. Hoje é tempo suficiente para fazer uma lembrança indiferente. Ainda sim, não esqueço, não consigo esquecer das anteriores, quando as árvores eram muito maiores. Vi primeiro, pela primeira e incrível já esquecida vez, o Rio de Janeiro pela placenta da minha mãe, quando as barcas iam atracando e ela passava por cima das bóias feitas de pneu, das cordas do atracadouro, alheia aos atos de parir; levantou a mão recusando ajuda e - isso me lembro bem - foi por esforço que não caí no chão da Zona Portuária.

Nasci na Freguesia da Candelária na primeira e última manhã cedo em que acordaria sem dar a mínima pra chuva que caía lá fora. Meu pai trabalhava do lado da maternidade, na Marinha, e devo a isso o motivo dele ter saído naquele dia e entrado no primeiro botequim da Rua Visconde de Inhaúma, desses em que fica suspenso aquele audacioso fog de churrasquinho-de-espeto (dizem que é feito de gato). Estava tanto devidamente acompanhado pelos colegas do sindicato quanto devidamente bêbado. Batucou um samba acompanhado por caixas de fósforos, mesa de metal e o painel do rádio onde gravaram uma K7. A preta que me tomava conta quando eu era pequena ria demais quando ouvia fita. Ria de mim. Quero dizer, ela cantava o sambinha de cor e acabei por me enfurecer e desgravei; pus por cima João e Maria dum vinil 12" [arranhado] que adorávamos dançar espalhando pão no piso.

Foi nessa época que a vi por dezenas de vezes inéditas e a São Sebastião veio vindo pelas mãos arrastadoras da mãe que prosseguia recusando quaisquer ajudas tácteis. O que retive? Mais uma vez chovia pro chão quase preto refletir os lojas da Rua México onde tinham aquelas modelos dentro do vidro com lenços marrons no pescoço; peças incompreensíveis, paradas, inatingíveis e cheirosas, como hoje. Acho que já naqueles meses eu pensava que olho servia bem pra objetiva, pra obturador porque piscava capturas de lembranças. Elas foram se acumulando, misturando com contos, nelsons rodrigues, urina no meio-fio, medos, músicas, hálito de café com cigarro e cutias: penso que é por isso que tão poucas foram reveladas. Nesse tempo, pensava que nunca ia querer rever nada que não fosse novo, daí não levei a nenhuma câmara escura, não fiz quase nenhuma revelação, hoje tento e percebo filmes queimados que...

Me espanta que as cores, os formatos e os guardas municipais recordados com mais agudos apontem para o chafariz em frente ao prédio do Banco do Estado, o que foi comprado. Esse aqui, o verde coberto por grades. Verde, encimado por um gradeado verde e cavado em plena calçada feito uma piscina muito, mas muito funda, parecia, em que muita gente jogava moedas. As grades eram pra que os mendigos não nadassem lá, mas eles enfiavam os pés entre os vãos de qualquer maneira. Perguntei a ela se lembrava disso, hoje ela anda tão mais devagar (reticências). Lembra mãe? Esses dias passei por lá e estava vazio, seco, com um monte de papel da Kibon, de latas, de folhas, jornais e um monte de troço que não queremos saber. Ela continua indo em frente fazendo bater meu cotovelo na testa. Ela não lembrava. Por que estou tão apegada à essa piscina verde metida na calçada? Não sei. Depois daquela época da Rua México-lojas/manequins veio outra, depois ainda outra e houve uma especialmente em que vendíamos comida congelada nos prédios comerciais. Aí sim, somente olhos estroboscópicos capturariam a pressa, os postes, as pedras portuguesas, os vendedores de Biscoito Globo. O Rio de Janeiro parecia sempre tão absurdamente frio (reticências), acho que porque era sempre nas férias de Julho que estava eu por lá de um lado pro outro sem nunca, nunca conseguir ir na praia, meu maior desejo. Via as barcas jorrando água pelas laterais e, lá da varanda dela [ferry], o vento bate fortíssimo. Está logo lá à frente muitos pequenos dez passos de faixa de areia, eu achava que aquilo era praia e queria pular lá de cima da amurada. A praia, mãe! Não podia, ela não gostava e faltava tempo.

 Cidades Conto Ensaio Ficcao Romance Rio Janeiro

Mamãe chegou da Bahia em 1957 e não consegue se lembrar do que pensou, do que sentiu além do alívio de estar no chão novamente porque tinha passado mal a viagem inteira, porque o avião naquela época, ela diz, não andava reto como hoje - nesse mesmo ano o papai levantou a caixa de engraxate, colocou no ombro e começou a refazer o caminho da Uruguaiana à Rua do Rosário, prestar contas. Nunca gostou de praia, ela, por seus motivos tão fortes que estou aqui na soleira tentando não começar a chorar novamente. O frio apertou e fechei o casaco quase no queixo. Mamãe segurou a câmera e bateu uma foto do Morro Dois Irmãos: não saiu o flash...! É assim mesmo, tá claro ainda. Deixa eu tirar uma foto sua? Ela não queria porque estava velha. A praia do Leblon estava vazia já que choveu então bati uma dela de perfil olhando as ondas, isso sim, ela gosta de ver as ondas mas nunca entrou lá, só os pés, só molhar os pés. Pulei na areia, ela disparou, olhamos as conchinhas. Quantas fotos a gente tirou aquele dia? Eu nem sabia mexer na máquina direito. Saíram sem graça, mas paradas (!), era isso (!), pr'eu lembrar que ela não era o coelho da Alice. Saímos correndo pra pegar aquele ônibus que desce em altíssima velocidade toda a orla e ela se impressiona sempre - sempre - com o Pão de Açúcar visto pela beirinha do Aterro do Flamengo. Não houveram outras vezes em que fizemos esse passeio, até hoje não fomos ao Jardim Botânico, só ao Parque Lage porque, no dia, ela não tinha dinheiro e eu era comunista aos 13 anos. Vimos folhas sobrenaturalmente grandes. Quase quis ficar doente novamente só pra que ela fosse comigo. Mãe, você precisa entrar no Paço Imperial. Nunca entrei lá. Tem até cinema lá, mãe! Vamos, vamos, queria tanto que você visse o Rio de Janeiro que você não viu desde 1957! Sei que ela não vai, que não vamos.

A verdade é que nunca andei, ela sempre passou por mim, ela sempre me disse para ser disciplinada o que nunca fui, ela impôs horários mesmo quando o relógio da Central está apagado e, invariavelmente, eu me perdia nas ruas por não saber como fazia, como ir sem a tração das mãos dela. Minha mãe desde o início, concreta constituída, santificada pelas putas da Praça Tiradentes, enfeitada pelo Teatro, formulada pelos sebos, pela água aterrada, era mesmo outra. Abri o guia de ruas da banca de jornais, e depois fechei, e contei as moedas novamente, e olhei os classificados novamente, e preenchi uma ficha escrevendo "Ensino Médio Completo". A Igreja da Candelária está sempre lá no fundo da avenida e aquela beleza nunca, nunca é feliz. Entrei no Centro Cultural (Av. Presidente Vargas / Rua Primeiro de Março / Praça XV / Largo do Paço). Comi uma maçã fértil. Comeu? Comi, mãe, almocei bem. Ela fechou os olhos e a televisão a assistiu. Foi assim mesmo o nosso fim, hoje ela me adotou, o cinza me adotou, a pia batismal e eu me joguei na água desesperada por mais uma vez e bem depressa ser levada.

as cidades Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Diariamente as suas histórias, aqui no obvious. Todas as histórias na página das cidades
 
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8 comentários

Prill:
Então sua mãe é baiana ou isto é só ficção?

Anna em 22 de março de 2008 às 20h03

sim, Anna, ela é baiana... não há nada nessa ficção que não seja verdadeiro.

prill em 23 de março de 2008 às 15h55

A tuaminha cidade feita de memórias verdadeiras e ficções que gostariamos de ter vivido e talvez vivemos mesmo....Hoje fui as Barcas e queria não ter ido , perdido fiquei sem saber como me comportar. Onde estava aquela proa ? a Ré , a popa , a janelona do lado ????? Como podia resgatar uma visão tão remota e lúdica!!! Como ver lá pra fora, como olhar....Já é muito difícil o suicídio .
Saí e não havia rumo , ninguem corria , não havia trabalho .....
Estranho o que acontece comigo , á noite muitas vezes quando vou andando pelas ruas as luzes dos postes se apagam quando passo. Fico meio com medo será um aviso...Uma luz de carrocinha brilha na esquina , tomara que nunca se desligue....Queria que fosse o Angú do Gomes , mas não tem mais , virou ficção. A minhatua cidade não é pra amadores e não deve ser revisitada quando a gente quer . Esperemos que ela nos convide....
Cumprimentos
Luiz

Luiz em 24 de março de 2008 às 01h25

Eu gosto da primeira imagem...

isabella em 24 de março de 2008 às 02h52

Super texto, Pri.
"Não há nada nesta ficção que não seja verdadeiro", que bem dito :)
Também gosto da primeira imagem, Isabella.

sao em 26 de março de 2008 às 22h27

Que bonito, Pri.
Estava agora a lembrar-mde de que em pequena ia com a minha mãe a uma loja de brinquedos na Baixa de Lisboa. Eu e o meu irmão adorávamos a loja; a minha mãe nunca se lembrava bem de onde ficava e dávamos muitas voltas - lembro-me dessa ansiedade de nunca sabermos se íamos dar com o sítio. Durante anos, já crescida, passando pela Baixa perguntava-me onde seria a tal loja - não fazia ideia, e queria revê-la. E há semanas, por acaso, passei numa rua meio escondida, e quando olhei para o lado lá estava ela. Exactamente igual. Até faz mal.

chloe em 28 de março de 2008 às 14h19

Luiz, você começa levemente a me assustar. Sim! Aquelas luzes apagam e me sinto num corredor de presídio, não sei, tenho cisma de que aqueles porteiros me olham torto (?): "elemento de jeans e bolsa marrom". e você reparou nisso também, e no Panteão...puxa!

as barcas... ai, disso nem fala. realmente há a vantagem de burlar um cado a pressa, mas é que era tão lugar de não sentir pressa... tinha vento, tinha tudo isso. agora não tem mais, é claustro de ar condicionado sempre desligado. cadê a ré? cabou. cadê os homens se jogando no ancoradouro? salto à distância? fico sem reconhecer as coisas mais ainda, como lidar com isso? marcha do (pinguim) progresso, é compreensível. olha, mas as antigas circulam à noite, só não esquece o casaco.

não é para amadores, você está certo. sinto falta de quando deus cuidava e protegia... obrigada mais uma vez por comentar.


--
chloe, me diz uma coisa: como isso acontece? você não acredita que há um mistério? que há lojas móveis, digo, que migram? as ruas e as casas se embaralham em alguns lugares, fazem trocas, o que acha? e essa ansiedade tua de "será que vamos chegar?" é das melhores coisas que já voaram pra mim... fizeram mui boa viagem. um beijo sempre.

priscilla em 1 de abril de 2008 às 06h51

É bem possível que migrem de um lado para o outro, sim. Isso explicaria porque é que às vezes tenho a certeza de que uma loja ou café fica numa certa rua do lado direito - certeza absoluta - e quando chego lá afinal fica do lado esquerdo, e mais abaixo do que eu pensava.
Eu achava estranho que a minha mãe não se lembrasse de uma coisa tão importante. Mas ao mesmo tempo, ela sabia tantos caminhos, e até sabia que autocarros era preciso apanhar para ir daqui a não sei onde, portanto eu ficava a pensar que secalhar era mesmo a loja que era num lugar muito estranho, tão estranho que nem a minha mãe era capaz de ir lá ter.

Chloe em 1 de abril de 2008 às 21h41

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