Trabalho infantil: a América a preto e branco

Publicado em fotografia por seven em 4 mar 2008 12:26 PM | 19 comentários

 Criancas EUA Fotografias Hine Historia Infantil Lewis Trabalho

The american dream - o sonho americano. É impossível não evocar a imagem da Estátua da Liberdade à entrada do porto de Nova Iorque a acolher os emigrantes que deixaram os seus lares distantes à procura de uma vida melhor no Novo Mundo. Vinham de todas as idades. Muitos chegavam ainda crianças, ao colo dos seus pais, olhando à volta para o ambiente estranho e fantástico da grande cidade. Desde logo começavam a trabalhar e a procurar, no fundo, a sua oportunidade na terra de todas as oportunidades.

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Mais por necessidade do que por ambição, desde tenra idade os futuros americanos davam à sua nação o seu esforço e a sua juventude numa época em que as crianças eram adultos pequenos e em que o trabalho infantil era um privilégio. A América cresceu tanto à custa dos emigrantes como das suas crianças, adultos à força que não tiveram tempo de brincar.

Lembremo-nos das imagens cruas dos meninos de "Era uma vez na América", de Sergio Leone, das atribulações dos recém-chegados retratadas com ironia em "Os imigrantes", de Charles Chaplin, para falarmos apenas em termos de cinema; mas lembremo-nos também das fotografias de Alfred Stieglitz ou de Dorothea Lange, dois nomes consagrados. Menos conhecido foi Lewis Hine que dedicou grande parte da sua actividade de fotógrafo a documentar cenas de trabalho infantil nos EUA.

Entre 1908 e 1912 Hine registou com a sua câmara aquilo que chamou rostos da juventude perdida: crianças de todas as idades, algumas de apenas cinco anos, em trabalhos de gente crescida. E não se julgue que eram trabalhos leves - pelo contrário. Encontramos meninos e meninas nas fábricas, no comércio, nas pescas, nas minas, desde o amanhecer até ser noite cerrada, por vezes mais de doze horas... O fotógrafo conheceu-os todos: Michael, Manuel, Camille, Pierce. Conheceu as histórias de cada um. Posaram para ele, às vezes com o orgulho ingénuo de quem se julga gente grande, embora nos seus olhos estivesse toda a tristeza do mundo. As imagens são lancinantes; não se consegue fixá-las sem uma ponta de comoção.

Algumas destas crianças não passaram da sua meninice. Outras sobreviveram, cresceram e prosperaram, mergulhando fundo na embriaguez do grande sonho americano.


Tema de Era uma vez na América - Ennio Morricone (excerto)

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19 comentários

Seven,

Karl Marx entendeu a concepção da mais-valia. Da exploração e opressão do capital. Assim a América se constituiu. E assim hoje, no século XXI, o Brasil trata a mesma questão.
Crianças que se vêem obrigadas ao trabalho por uma deficiência do estado - e aqui não particularizo no governo Lula - é o aparelho do estado.
E exercemos aqui, levianamente, nossa cidadania. Ainda nos atemorizamos em cada sinal/farol quando as crianças nos abordam vendendo balas.
Elas deveriam ter medo de nós, pois a nós coube a tarefa de construir uma sociedade baseada no princípios de direito e inclusão social, jamais de exclusão. Assim contruímos uma nação com desigualdade de oportunidades. E assim caminha o processo de desumanização...
E ainda conseguimos julgá-las - sim, julgamos as crianças.
Elas teriam que estar na escola ou brincando. Mas não, seus sonhos já não cabem mais em bolas de gude, bicicletas ou bonecas.
A conta da luz chegou e alguém tem que pagar.
Dentre as muitas coisas que me envergonho no Brasil essa é uma delas - a exploração do trabalho infantil.
Lindíssima trilha sonora!

Sandra em 4 de março de 2008 às 13h17

Há uma imagem da Dorothea Lange (de uma mãe com os dois filhos) que creio ser uma das melhores representações da época...

Mário Nogueira em 4 de março de 2008 às 13h50

Esqueci de dizer...

Ainda não vi trabalho tão forte quanto as imagens do Sebastião Salgado...e me calo diante dele!

Sandra em 4 de março de 2008 às 15h18

É verdade, Sandra, é exactamente isso que escreveu. Uma nação que funda o seu futuro à custa das suas crianças, hipotecando o futuro delas, dificilmente terá futuro. A reprodução social e cultural são, infelizmente, factos cruelmente irrefutáveis.
Obrigado pelo comentário pertinente, como é aliás seu hábito.

seven em 4 de março de 2008 às 15h26

Mário: foi precisamente nessa imagem que pensei quando me referi a ela.
Um abraço e obrigado pelo comentário.

seven em 4 de março de 2008 às 15h27

Sim, o Sebastião Salgado é muito bom e, felizmente para todos, o seu trabalho é conhecido e reconhecido. Mas as fotografias de Lewis Hine não o são e retratam uma realidade de que nem todos têm consciência.

seven em 4 de março de 2008 às 15h31

Sandra: De acordo, o Sebastião Salgado é um mestre no retrato de situações de exclusão. Aliás, essa é uma crítica (injusta?) que muitas vezes lhe fazem...

Mário Nogueira em 4 de março de 2008 às 15h32

Mário: um fotojornalista brasileiro que também admiro bastante é Evandro Teixeira. Vale conferir o site dele www.evandroteixeira.net , especialmente as colunas Canudos e Brasil. Nessa, há duas imagens que sempre que olho, tento criar(entender) aquelas vidas:
A 1a é pai e filha (?) ,em uma bicicleta, e separados por um caixão.
É a presença da morte - tratada de maneira tão trivial - no sertão brasileiro.
A 2a, o sorriso de um menino, tipicamente brasileiro, no primeiro plano com um corpo estendido ao fundo. Foto tenebrosa.
É o reflexo da exclusão social onde o valor da vida (???)se foi.

Sandra em 4 de março de 2008 às 19h00

Sem dúvida imagens muito fortes... Gostei de conhecer!

Obrigado, Sandra! :)

Mário Nogueira em 4 de março de 2008 às 20h12

Calma gente.

Estamos avaliando um fato que aconteceu 100 anos atrás com a lente que usamos para os dias atuais. Hoje entendemos isso com clareza. Mas há um século atrás, a América abriu suas fronteiras para a esperança de milhares de europeus, principalmente, asiáticos e outros.

Eles ajudaram a construir a América. E não foram levados à força, como os africanos que por aqui no Brasil chegaram. Foram fugidos da fome, da miséria e muitas vezes das guerras e perseguições políticas em seus países de origem.

A História nos oferece o aprendizado pelos nossos erros do passado. Mas é um grande erro olhar esses erros pelas lentes que usamos hoje. O ser humano evoluiu, aprendeu, a cabeça do século XXI não estava pronta no século XIX, e a América é o que é hoje, porque errou menos que os outros.

Grande abraço,

Nelson em 5 de março de 2008 às 01h51

escelente seleção, seven. tanto que nem sei em que tipo de reflexões entrei aqui. o desenrolar dos pensamentos e os pontos, não vou me alongar e sintetizar: sou uma cínica.

priscilla em 5 de março de 2008 às 03h25

Nelson: Se a América é o que é hoje" porque errou menos", passo a temer AINDA MAIS pelo futuro da humanidade. Falo isso sem emitir nenhum juízo de valor, ok? :)
Não quero polemizar - você sabe que detesto discussões sem "finais felizes" e, nesse caso, teríamos uma :P

Sandra em 5 de março de 2008 às 13h55

Nelson,
perfeito.

priscilla em 5 de março de 2008 às 14h18

Entendo o seu ponto de visto, Nelson, e concordo parcialmente com ele. É difícil relativizar e nem sempre é justo avaliar o passado pelos olhos do presente. Para entender a História é necessário tentar analisá-la à luz do contexto e do pensamento da época. Note bem, eu disse entender. Mas, como indivíduo educado num ambiente culturalmente mais evoluído do que o início do século XX nos EUA, não posso deixar de censurar o trabalho infantil, porque objectivamente era uma prática desumana e cruel. Entendo, como disse, mas condeno.
Obrigado pelo seu comentário. A temática merece discussão.

seven em 5 de março de 2008 às 22h31

Certamente Seven, concordo com você. Não é porque hoje nosso nível de evolução é maior do que há séculos atrás que vamos deixar de censurar algumas atitudes do ser humano no passado. O trabalho infantil merecerá sempre a nossa repulsa, em qualquer época. Veja que nem precisaria ir tão longe no tempo, hoje mesmo, aqui no Brasil, o trabalho infantil ainda é grande, apesar de ter sofrido uma redução drástica há 10 anos atrás. Infelizmente isso não dá voto e não é preocupação dos que estão no poder.

O que me preocupa é que com o conhecimento e vivendo no mundo de hoje, a gente venha a estampar mais-valia e exploração e opressão do capital sem o devido cuidado com o filtro da época. Meu avô, ainda criança, aí no norte de Portugal, na região de Trás-os-Montes, em Vila Real, pegou muito no trabalho para ajudar o pai dele na pequena propriedade. Não era exploração não, era sobrevivência e necessidade.

Mas mesmo assim não foi possível continuar em Portugal, e meu avô veio tentar a sorte no Brasil, com mulher e dois filhos. Meu pai, o caçula e primeiro brasileiro, aos 14 anos já trabalhava. E nenhum Ianque o explorava. Era para ajudar no sustento da família. Bom, tô demais.

Abraço e obrigado pelo excelente blog.

Nelson em 6 de março de 2008 às 01h54

Obrigado, Nelson. Sabe, existe um provérbio antigo em Portugal: "O trabalho dos meninos é pouco mas quem o desdenha é louco". Curiosidade antropológica...

seven em 6 de março de 2008 às 10h56

Seven,
Esse seu provérbio soou aos meus ouvidos como uma das frases que meu querido avô me falava.
Só para encerrar, se alguém souber de um país, que ali na virada do século XIX para o século XX que tivesse leis e/ou combatesse o trabalho infantil, por favor, nos apresente para que possamos festejar esse povo especial e tão avançado.
Grande abraço

Nelson em 6 de março de 2008 às 21h48

Não me parece que nessa época houvesse tais preocupações em nenhum país do mundo, Nelson. As crianças eram vistas como adultos pequenos, pura e simplesmente. Quer para elas quer para os pais trabalhar era um privilégio...

seven em 7 de março de 2008 às 12h24

eu acho uma poca vergonha o que acontece no brasil,os puliticos não estão nem ai para a exploração infantil.espero que

juliara em 26 de março de 2008 às 20h17

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