Barcelona: a história que se conta

Publicado em outros por tajana em 23 abr 2008 06:27 PM | 7 comentários

 Barcelona Viagens Espanha Historia Catalunha

Há dias trouxe da biblioteca uma antologia da poesia catalã. O livro foi concebido com propósitos didácticos, e portanto inclui uma introdução que passa em revista a história cultural e literária da Catalunha e um longo quadro cronológico com os principais acontecimentos históricos do século XII à actualidade - quer nacionais (ou melhor, catalães e espanhóis), quer alguns marcos da cultura internacional.

O livro, à parte a poesia em si, permitiu-me duas coisas interessantes. A primeira, ver quais os acontecimentos da história portuguesa que cabem na visão (nesta visão) da história da Catalunha - não só quais são eles, mas como são descritos. A conclusão é que são muito poucos. Duas ou três coisas dos Descobrimentos (a passagem do Bojador, a chegada à Índia por via marítima - mas não a descoberta do Brasil); a perda da independência em 1580, descrita como 'integração em Espanha', e a sua recuperação em 1640, no 'motim de Lisboa'. A publicação de Os Lusíadas também tem direito a uma nota. Mais uma ou outra coisa, e acabou.

Não me causa desconforto esta perspectiva histórica dos nossos camaradas peninsulares que quase não dá por nós; da mesma forma um pouco autista - se não mais - é contada a história de Portugal nas escolas, é contada qualquer história, pessoal ou nacional. O mundo da Catalunha é o Mediterrâneo, Castela, França, Itália. E, precisamente, gosto de ver de que forma as coisas de que falamos com tanta pompa são reduzidas a manchas no horizonte, e vice-versa.

Pouco antes das eleições que deram nova vitória a Zapatero, um catalão comentava comigo, rindo-se, que no fundo o que eles queriam era uma autonomia 'do mesmo tipo que a vossa'. E acrescentava, apontando-me o dedo, que em 1640 Portugal só tinha conseguido a independência porque as tropas espanholas estavam na Catalunha ocupadas com uma grande revolta local. O que este livro refere, aliás - e coisa que não me recordo daquilo que aprendi na escola. Da restauração de 1640 fala-se sempre de forma bastante desajeitada, sem saber de que forma preencher esse vazio morno no qual não há lendas heróicas, elaboradas estratégias militares, figuras inspiradoras, e tudo parece culminar palacianamente no apunhalamento e defenestração de Miguel de Vasconcelos. (Na verdade, tenho um fraquinho por este episódio por incluir uma defenestração - a ideia de se ter criado uma palavra para o acto de matar alguém atirando-o de uma janela sempre me pareceu extraordinária.) É saudável ser lembrado de que a história é em grande parte isto: a forma como se escolhe falar das coisas, e as coisas de que se escolhe falar.

Por outro lado, neste livro vão surgindo inúmeras personalidades e acontecimentos da cultura catalã que eu já conhecia dos nomes das ruas, e que agora ganham corpo. A cidade enche-se de poetas, políticos, episódios, onde até agora só havia nomes nas esquinas dos quarteirões. Uma cidade, como um livro, escreve a sua toponímia com um discurso pessoal, uma visão do mundo e de si mesma; instala os seus mortos célebres e as suas datas em locais públicos de maneira a compor um quadro - generais e políticos nas grandes praças, revoluções em avenidas imensas, poetas em largos modestos com árvores, santos em ruas e bairros antigos, e uma multidão de gente que fica no limbo da história nos bairros periféricos, memórias frágeis a quem desajeitadamente se acrescenta ao nome a descrição do que fizeram: (político), (professor universitário), (benfeitor), (aviador).

Daqui a semanas ou meses hei-de esquecer quem foram Jacint Verdaguer, Rafael Casanova, Ramon Muntaner, o que foi o cerco de 1714 (que dá nome à rua onde estou), a que propósito há uma estátua de Colombo no porto de Barcelona. O que não vou esquecer, provavelmente, é que as famosas Demoiselles d'Avignon, de Picasso, devem o seu nome, não à cidade francesa de Avignon, mas ao carrer d'Avinyó barcelonês. Hei-de procurá-las quando voltar a passar por lá.

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7 comentários

Durante anos cobri jornalísticamente a ditadura do general pinochet (me recuso a escrever este nome com maiúsculas)e quando a democ racia por fim venceu, lembro-me da imagem de uma multidão avançando pelo meio da rua entoando seus hinos de triunfo e levantando uma grande faixa onde se lia: "pinochet, ninguna calle llevara tu nombre"
(pinochet, nenhuma rua terá teu nome). Legal, não é?

Guido em 23 de abril de 2008 às 19h53

Portugal é mesmo insignificante
Até para os nossos vizinhos espanhóis

troca letra em 24 de abril de 2008 às 00h18

Isto lembrou-me a piada que define o (super)ego como o espanhol que vive dentro de nós. Enfim, o que nos falta, aos portugueses, em auto-estima, os restantes povos têm-na em demasia.
Como costumo privar ocasionalmente com espanhóis, e sem querer cair em generalizações, já ouvi esta e outras histórias sobre a História, desde a derrota da armada invencível, passando pelos descobrimentos. Pessoalmente, não me abala o pífaro. A História narrada em Portugal sabe a "morango", em Espanha preferem "baunilha", em Inglaterra é "chocolate"...

Paulo Ferreira em 24 de abril de 2008 às 10h14

a já antiga inveja espanhola pelos portugueses nao é desconhecida. deixem-nos ficar com as calles, nós ficamos com as coisas bonitas.

PIPA em 24 de abril de 2008 às 19h11

Nunca dei por os espanhóis terem inveja de nós. Acho que nós é que queremos que eles nos dêem essa importância - que seja quem for nos dê alguma importância. Ficamos histéricos com qualquer noticiazeca sobre Portugal no estrangeiro. Temos o complexo dos injustiçados, porque só conseguimos ver-nos e avaliar-nos pelo olhar dos outros.

Acho também que eles têm muitos motivos para ter orgulho histórico, embora me cause comichão por vezes a forma como o mostram. Pá, o Quixote é deles. Entre muitas outras coisas fantásticas. Nada disto tira valor (deste ou doutro tipo de valor) ao que outros povos tenham feito, mas a eles dá-lhes motivos mais que sólidos para reivindicarem o seu lugar ao sol.

Mas!: a fruta deles não presta. O pão é horrível. E isso é indesculpável.

tajana em 25 de abril de 2008 às 00h30

Nem mais... sem falar que o café é um terro e a tortilha não é assim tão boa como dizem...;)

pulseezar em 25 de abril de 2008 às 11h42

De qualquer forma, esta versão da história que eu li não é espanhola, é catalã. Creio que as nossas histórias dizem zero da história da Catalunha.

tajana em 25 de abril de 2008 às 14h23

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