Barcelona: bibliotecas, bicicletas, transportes públicos

Publicado em outros por tajana em 18 abr 2008 06:26 PM | 12 comentários

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Não faço a mínima ideia se é difícil vir para Barcelona de carro, se há problemas de estacionamento. Não me interessa, nem haverá grandes desculpas para isso ser a dor de cabeça que é em Lisboa, por exemplo (onde, como também ando de transportes, me incomoda sobretudo o barulho e o fumo).

A bicicleta é um meio de transporte mais que comum e, para além das bicicletas pessoais de cada um, a cidade tem desde há um ano o Bicing, um serviço público de bicicletas comunitárias que permite, mediante inscrição e pagamento anual, pegar numa bicicleta Bicing de um dos pontos de parqueamento e usá-la até ao ponto de parqueamento mais próximo do nosso destino. A rede de parqueamentos é suficientemente boa para que o serviço seja um sucesso estrondoso.

Em Lisboa dá-se sempre a desculpa de que a cidade sobe e desce, mas eu vejo como maior obstáculo a preguiça e o comodismo; eu não iria de bicicleta para Alfama ou Campolide, mas há zonas da cidade que são acessíveis. O lobby instalado dos automóveis é demasiado forte para que se considere, sequer, que andar de bicicleta seja uma coisa suficientemente importante para se prescindir por exemplo de uma faixa de rodagem para criar ciclovias. Porque com o trânsito já tão complicado, ainda ia ficar pior, não é? E claro, andar de bicicleta, sobretudo uma bicicleta velha que não suscite cobiças, também não é chique - suja-se a perna na corrente, parecemos pobrezinhos e sei lá mais o quê (já comprar uma bicicleta de montanha de dois ou três mil euros para usar ao Domingo, e deixá-la apanhar um bocado de lama para provar que somos uns valentes, está bem).

Em Barcelona não há tantas ciclovias assim - muitas vezes, as bicicletas partilham faixas de rodagem automóvel. Ou mesmo passeios. O caos é mais ou menos generalizado, mantém-se em lume brando, lembrando-me Marraquexe, em que veículos de todo o tipo e peões convivem milagrosamente. Andar de bicicleta em zonas como as Ramblas ou o Raval é uma fonte de stress permanente, porque os peões literalmente saltam para o meio da estrada sem olhar, as bicicletas entram e saem de passeios e ignoram semáforos como se seguissem uma estrada invisível. Ainda assim - imagino que apenas pela dificuldade natural devida às suas dimensões - são os carros quem mais respeita as regras.

As bicicletas são o complemento ideal de uma rede de transportes públicos (sobretudo o Metro) com uma cobertura, interligação e frequência de passagem excelentes. E onde o metro não chega, apanha-se o comboio, ou o tramvia, espécie de comboio subterrâneo.

Numa outra frequência, as bibliotecas. Quando entrei aqui na biblioteca ia preparada para todas as dificuldades. Pensava na minha tentativa, em Portugal, de inscrever-me numa biblioteca perto de casa: pediram-me um documento que comprovasse a minha residência na área. Escusado será dizer que não voltei lá. Curiosamente, quando doei a essa mesma biblioteca umas boas dezenas de livros, não tive de comprovar nada.

Pois aqui entrei na biblioteca de Poble Sec e a senhora pediu-me o BI, tomou nota dos meus dados e, à saída, entregou-me um cartão que me permite utilizar livremente todas as bibliotecas da cidade de Barcelona. Que são algumas dezenas, e boas, com livros, CDs, DVDs, todos disponíveis para empréstimo domiciliário. O difícil é saber por onde começar.

Para contrariar estes sinais de progresso, é quase impossível encontrar na cidade maçãs que não saibam apenas a água ou pão que não seja baguete, por mais feitios, cores e nomes que tenha. Felizmente, com a minha bicicleta posso procurar todas as padarias, frutarias e mercados da cidade.

Tajana Avatar Tajana é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz.
 
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12 comentários

Em Lisboa começa a nascer uma vontade de mudar a actual situação das deslocações urbanas...

Vários sites relacionados:

www.100diasdebicicletaemlisboa.blogspot.com

www.menos1carro.blogs.sapo.pt

www.massacriticapt.net

www.fpcub.pt

Abraços!

António Cruz em 18 de abril de 2008 às 20h13

B.U.G.A - Bicicleta de Utilização Gratuita de Aveiro !! ;)

framos em 18 de abril de 2008 às 22h49

... que assunto bi(cicl)udo! Lisboa, quer queiramos ou não, é uma cidade com muitos declives. Barcelona, que mal conheço, infelizmente, também os tem, mas nada que se compare... E no meu ponto de vista, o que impede uma maior entrada de binas na nossa capital é a distância dos locais de trabalho às residências dos funcionários. Sejamos sinceros; onde vive a maior parte das pessoas que trabalham em LX? Na baixa? Nas avenidas novas? Só acredita nisto quem lê as Vips, as Lux, as Caras e os XXXXX. Até muitas das pessoas que têm um nível de vida acima da média vivem na Caparica, Barreiro, Montijo, Loures... E como é que essas pessoas se hão-de deslocar?! Eu vivo em Almada e trabalhei durante uma década em Oeiras. Devo ter feito essa deslocação 9 anos em transportes públicos, 364 dias de automóvel e 1 dia de bicicleta. Desafio quem quer que seja a fazer melhor do que eu.

Paulo Ferreira em 18 de abril de 2008 às 23h49

Paulo, este é um tema que dá sempre muita discussão. Mas o que vejo normalmente é as pessoas usarem o relevo de Lisboa como desculpa para o seu próprio comodismo, colocando logo a questão de uma forma desonesta. Os subúrbios (é o meu caso) são uma situação diferente. Secalhar Lisboa tinha de ser, a vários níveis, uma cidade diferente, com gente a morar no centro e etc.. Mas conheço muito boa gente que vive no Campo Grande e vai de carro até ao Marquês. E muita gente que, como eu, tem acessos decentes por transporte público a partir do subúrbio mas leva o carro. Eu, para ir de carro, tinha de levantar-me uma hora mais cedo e só podia voltar, se não quisesse apanhar trânsito, uma ou duas horas mais tarde. É este tipo de irracionalidade que não se justifica com o relevo duma cidade. Obviamente, há muito quem não tenha transportes ou interligações decentes para ir para o trabalho. E há quem nem se dê ao trabalho de os descobrir.

tajana em 19 de abril de 2008 às 01h51

Pois bem, viva a bicicleta...e tudo que quero aqui na ilha de Santa Catarina (Florianópolis), mas é triste viver o que aqui acontece, pois até os pedestres não tem lugar para andar, imagine de bicicleta.
Aqui o previlégio é dos automóveis, e olhe lá, estes também tem seus percauços.
Mas imagine, vivemos numa ilha, apta para andar e pedalar, conviver com a natureza (que se conseguir-mos salvar dos modelos de facil cosumo), é um reduto de saude.
Tajana, obrigada pelo seu incentivo a uma convivencia urbana saldavél, é tudo que quero aqui para a terrinha, vou recomendar seu parecer.

jadna em 19 de abril de 2008 às 12h03

Paulo Ferreira,

O argumento dos arredores não faz qualquer sentido. Por essa lógica, as cidades de Copenhaga e Amesterdão (tão extensas como Lisboa) também não teriam bicicletas... E que diz Copenhaga e Amesterdão, diz Barcelona, Londres, Lyon, Berlim, etc..

Miguel em 19 de abril de 2008 às 22h40

Miguel

Provavelmente nessas e em outras cidades, há um maior "entrosamento" entre os transportes públicos (TP) e os utilizadores de bicicleta. Os TP que fazem parte do meu quotidiano limitam o transporte de bicicletas para duas, três unidades por carruagem/barco e ainda assim só fora da(s) hora de ponta(s). Já passando ao lado a questão do relevo do terreno, que é usado como desculpa por muita gente, há distâncias que se tornam pouco exequíveis sem a "ajuda" de um TP. Há muitos de nós que vive a 10 ou a 20 quilómetros de onde trabalha. Convenhamos que fazer esse caminho X 2 todos os dias é para atletas.
Claro que sou a favor de uma maior utilização da bicicleta, e isso começa cedo, desde a vida estudantil.
E quem está no poder, sobretudo autárquico, também tem influência. Há anos que se comemora o dia sem carros, mas esse dia foi desprovido de todo e qualquer significado quando o transferiram para o fim-de-semana.

Paulo Ferreira em 21 de abril de 2008 às 15h34

Paulo, a intermodalidade da bicicleta com os transportes públicos é sem dúvida importante, no entanto não penso que seja solução viável andar de bicicleta todos os dias para trás e para a frente dentro de comboios e barcos.

Nas cidades holandesas quem mora nos suburbio tem sim, onde deixar a sua bicicleta durante a noite... tanto na cidade de trabalho como na cidade de residência. Ou seja, imaginando que em Lisboa haveriam parques seguros nos grandes interfaces de transportes, isso ajudaria a mudar o actual paradigma. Campo grande, Terreiro do paço, Entrecampos, Sete Rios, Estação de Benfica, Parque das Nações são locais onde faz todo o sentido que seja possivel deixar a bicicleta durante a noite e chegar todos os dias perto da mesma de transporte publico.

A bicicleta sozinha, não é panaceia, é apenas parte da solução..

António Cruz em 22 de abril de 2008 às 09h40

Eu sou um gajo do Porto, mas vivo em Paris. Estive aqui até 2000, e agora tou cá outra vez. Ando sempre, mas sempre de bicla. Quando voltei para o Porto, tentei fazer igual... mas não dá ! 1ro; não há respeito nenhum por parte dos automobilistas, ZERO Respeito !!! 2do; Sobe e desce como o cara... e é mesmo muito dificil subir os clerigos todos os dias. E nem a velha expressão "a descer todos os santos ajudam" parece tar certa, pois um gajo só vê subidas. Quanto ao parecer um pobrezinho, é verdade que há uns atrazados que te olham assim, mas são largamente compensados pelas miudas que ficam loucas com o teu aspecto de esforço e te lançam "aquele" olhar... Apesar disso desisti num instante, não sou o hercules, não vou conseguir incutir respeito nos automobilistas, e ao segundo susto valente com um autocarro, encostei a bicla. No Porto a solução não passa pela bicla, mas sim pelos tp... e pela mudança de mentalidade em relação ao automovel. Já em cidades pequenas como Guimarães, Aveiro, Beja e etc... é só mesmo uma questão de mentalidade, de saber viver... Um abraço aos ciclistas da Covilhã !!!!

Tiago em 24 de abril de 2008 às 13h50

Tiago,
já se sabe que as miúdas ficam doidas quando vêm um rabinho de ciclista... :D

tajana em 25 de abril de 2008 às 00h32

Bicicleta é uma boa alternativa para esse tráfego intenso aqui em Curitiba e que piora a cada dia. O problema aqui é o frio e a chuva, muito comuns.

Suzana em 18 de maio de 2008 às 23h19

Pois eu vivo nos olivais (lisboa) e vou mtas vezes de bicicleta para entre campos onde trabalho. Demoro 25 minutos a fazer o percurso de bicla.

O meu objectivo é passar a ir todos os dias de bicla.

O problema é que tenho de andar grande parte do percurso pelo passeio pois tenho medo de ser passado a ferro por um carro.

Andre em 20 de junho de 2008 às 16h08

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