Barcelona: Hola, mami!

Publicado em outros por tajana em 1 abr 2008 06:26 PM | 7 comentários

 Viagens Barcelona Espanha Pessoas Sociedade Costumes Telefone

Os locutorios estão para o dia-a-dia dos imigrantes que vivem em Barcelona como a ONU está para os destinos das nações. Aí se encontram e tratam das suas vidas: falam com a família que ficou no país de origem, acedem à Internet, procuram casa e trabalho, ouvem música e lêem notícias da sua terra, imprimem e digitalizam documentos. Desde o primeiro dia cá aprendi a importância destes locais, que escasseiam quando entramos nos bairros mais abastados ou modernos, onde se supõe que toda a gente tem Internet em casa. E como nunca dei pela sua existência em Lisboa, pergunto-me também se existirão, ou se eu simplesmente lá não os vejo porque não preciso deles (o que me deixa preocupada quanto à minha provável cegueira para com inúmeras coisas que decorrem em paralelo à minha vida, mesmo ao meu lado).

De dentro das cabines de telefone chegam as vozes de todos os episódios da vida doméstica: palavras de amor, saudade, zangas, recomendações, lamentos, reprimendas. Esta língua sonora não é muito dada à discrição das conversas - e menos ainda quando uma matrona cubana desanca furiosamente não sei quem do outro lado, fazendo desintegrar as consoantes à passagem da sua ira e com uma linguagem gestual que ameaça deitar abaixo a cabina. Todos param a olhar, e logo se afundam de novo nos monitores do computador.

Os donos dos locutorios são quase todos paquistaneses, ou passíveis de serem confundidos com paquistaneses. Dia após dia, é sempre a mesma cara atrás do balcão, a receber e dar moedas, a explicar como as coisas funcionam. Estão lá às dez da noite, e estão lá às dez da manhã.

A rapariga do locutorio ao lado de minha casa, uma mulata de ar entediado que olha fixamente as novelas da TV sempre que lá vou, estava ontem empoleirada numa cadeira a acertar os relógios, pendurados na parede atrás dela com as horas de Caracas, Rio, Cidade do México, Quito, Buenos Aires, Manila. Uma tarefa de grande responsabilidade, esta de acertar o tempo de todas as cidades do mundo.

Tajana Avatar Tajana é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz.
 
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7 comentários

Duas ceguinhas então? Mas não, acho difícil alguma coisa te escapar.
Nunca vi nada parecido por aqui, digo, estas cabines, apenas os cartões de telefone que pode ligar de qualquer aparelho e cujas tarifas altas apenas servem para aumentar a saudade.

isabella em 2 de abril de 2008 às 00h37

E justamente a bandeira do Brasil está escrita de maneira errada....Terceiro Mundo é fogo....

david em 2 de abril de 2008 às 01h10

Isabella

"Puxando a sardinha" pro nosso lado, existe palavra tão bonita quanto saudade?

Sandra em 2 de abril de 2008 às 21h02

Ha ha, eu pensei logo que os leitores brasileiros iam reclamar! Mas repara, todos os países que estão na lista têm um grau de desenvolvimento próximo ao do Brasil, não? Vá, não é perseguição...

tajana em 2 de abril de 2008 às 21h40

Tajana,

Apesar das enormes desigualdades sociais - o que gera oportunidades díspares para os brasileiros - a economia brasileira está entre as 10 maiores do mundo. Estranho isso não? ;)
"O Brasil tem apresentado níveis de crescimento e taxa de inflação superiores ao Canadá e à Espanha", segundo o economista-chefe da Austin Asis Rating, Alex Agostini.
Por isso, tenho que discordar da sua opinião, com todo o respeito aos demais países :)


http://noticias.uol.com.br/economia/ultnot/2007/03/28/ult4294u432.jhtm

Sandra Leite em 3 de abril de 2008 às 01h13

Claro que existem locais semelhantes...

Em cascais o que se encontra no jumbo até tem preços mais em conta...

;)

vdias em 3 de abril de 2008 às 11h39

Claro que há em Lisboa. Lembro-me de um em pleno Rossio e outro ali na Praça José Fontana com direito a paquistanês e tudo(ou passivel de ser confundido com um).

Tomás P em 19 de abril de 2008 às 12h21

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