Barcelona: o mar ali atrás

Publicado em outros por tajana em 9 abr 2008 12:24 PM | 8 comentários

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E no entanto, tirando essa faixa litoral, quem está na cidade não dá por ele - pelo mar. Barcelona é quase toda plana. Portanto, excepto nos bairros encostados aos montes que a cercam, as vistas não vão dar à água. A estrada marginal que corre entre o passeio marítimo e o centro, embora facilmente atravessável, talvez justifique também esta sensação de que o mar está longe, assim como o facto de a zona mais central das ramblas ir dar a uma marina e a um centro comercial, com esculturas públicas e outras urbanidades pelo caminho a desviar-nos a atenção, e não à matéria bruta da praia, onde possamos enterrar os pés. Dificilmente somos surpreendidos ao atravessar uma rua - olha, o mar ali ao fundo! Nada disso. O mar, quando se vê, já está inteiro, fabricado. Não se dá ao trabalho de ir semeando pistas pelos nossos sentidos.

Pior do que tudo: não cheira a mar, não há as cores de uma cidade à beira-mar (as cores que na minha história pessoal são as de uma cidade à beira-mar). Os cinzas, castanhos e ocres da maior parte da cidade são quase centro-europeus. O vento, de onde vem ele? Não faço ideia, mas sopra forte; há a famosa tramontana, esse vento que serve de justificação aos actos de loucura dos habitantes, mas não vem do mar. O ar que chega até nós não tem cheiro, a não ser o dos carros. É preciso entrar num mercado ou numa peixaria para recuperarmos o elo perdido.

Não é assim em toda a parte. Poblenou, o antigo bairro operário cheio de armazéns e fábricas agora ociosas - o bairro em 'reconversão', um dos sítios da moda para onde muita gente quer ir viver - é uma dessas excepções. Poblenou tornou-se uma curiosa mistura de ruas que são puro mediterrâneo, ruas do sul, e de avenidas de edifícios de habitação e 'equipamentos' modernos. A cada três ruas, uma obra, um buraco a esventrar o chão. Se seguirmos as artérias principais, há algo de sofisticado no ambiente em redor. Mas se por um momento fugirmos e nos enfiarmos por qualquer pequena rua lateral, caímos noutro mundo, no terceiro mundo, onde as paredes são brancas, as casas pequenas e desiguais, a tinta gasta, as laranjeiras não chegam para fazer sombra, as tascas servem comidas pobres, e o cheiro do mar anda às voltas pelos cantos das praças - como a belíssima e modesta Plaça de Prim, com as suas três árvores retorcidas. Não é preciso olhar: pelo cheiro, sabemos onde está o mar, e viramo-nos para lá quase involuntariamente.

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Curioso que esta parte da cidade vá subindo ligeiramente, como uma suave pala, mesmo até à beira-mar, de tal forma que é preciso atravessar a marginal e avançar até ao passeio marítimo para vê-lo (seguindo a maresia, sempre) - e aí temos a segunda surpresa: este mar, que coisa é ele? Um lago azul e imenso, sem ondas nem marés, sem desvarios. Um mexicano contava-me há dias, desolado e incrédulo, que isto não podia ser o mar. Eu, até dar o meu primeiro mergulho, mantenho o meu voto de confiança no Mediterrâneo.

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8 comentários

O mar não pertence às cidades, pertence às dunas, não é animal doméstico.
O mar, mar, é o Atlântico Norte, Inverno, batido a vento, com vagas de pelo menos 3 metros e água gelada mesmo no Verão.
O Mediterrâneo é um charco tépido, um caldo, não é mar.

Tânia em 9 de abril de 2008 às 16h41

É Barcelona, mas poderia ser BarcelÚNICA... Linda demais!

Um abraço:

Morandini, designer
www.morandini.com.br

Morandini em 9 de abril de 2008 às 21h35

Sim, Tânia, é verdade, mas e o azul? Não digo este azul do mar de Barcelona, mas o azul que vemos às vezes nos filmes com o Mediterrãneo. Será que estão a enganar-nos? É isso que quero descobrir, mas provavelmente não será aqui. Se o encontrar, então o Mediterâneo volta a ser um mar a sério.

tajana em 9 de abril de 2008 às 23h22

O azul é mesmo assim como o dos filmes e das fotografias - é mesmo verdadeiro esse azul,isso eu posso confirmar, mas não é mar, é luz pura. Do mar mar, não se vê o fundo à transparência, mas no Mediterrâneo, há sítios onde se consegue ver. Esse azul deslumbrante, é céu sem ponta de nuvens, ou com uns farrapos de branco, a reflectir-se no espelho do Mediterrâneo.

Tânia em 10 de abril de 2008 às 10h23

Quando visitei Barza me leveram a Sitges para ver o mar. Era uma praia muito bonita. Creio que deve estar no Atlântico. Sitges fica perto, umas duas horas de Barcelona.

tina oiticica harris em 10 de abril de 2008 às 16h20

Sitges também é Mediterrâneo (toda a costa da Catalunha é Mediterrâneo). Já me falaram, mas ainda não fui. É a 'cidade gay' aqui da zona, ao que parece.

Tânia, hei-de ver essse mar para ver se na minha cabeça é mar.

tajana em 10 de abril de 2008 às 20h31

O misto de sofisticação e informalidade, o clima, as pessoas, a veia internacional, o empreendedorismo catalão, a natureza tornam Barcelona uma das melhores cidades do mundo onde Gaudí é um detalhe.

Lorenzetti em 10 de abril de 2008 às 23h49

Eu morei em 1995 em Sitges estudei na Bryton, foi um ano mais importante da minha vida. Amei o país as pessoas, onde encontrei meu grande amor......apesar de não estar mais neste plano eu vou sempre amá-lo

julia Cavalcante em 20 de maio de 2008 às 15h58

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