Cole Porter: Night and Day

Publicado em musica por seven em 30 abr 2008 12:27 PM | 4 comentários

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No filme biográfico "Night and Day", realizado em 1946 por Michael Curtiz, o famoso compositor americano é retratado como um herói, um indivíduo rico e dotado com uma vida mundana invejável. Um filme cor-de-rosa destinado a fazer as pessoas sonhar e suspirar, bem à maneira de Hollywood. Mas diga-se em boa verdade que o personagem escolhido se prestava a isso. Se houve coisa que Cole Porter nunca conheceu foi dificuldades económicas. Playboy, filho de pais ricos, pôde desfrutar uma vida despreocupada em festas, viagens, esbanjamentos e excessos de toda a ordem, sem se preocupar grandemente com a sua subsistência. Para além disto compunha peças musicais para os espectáculos da Broadway. E fazia-o bem.

Estranhamente, não teve sucesso imediato e contou mesmo diversos fracassos de bilheteira. Em muitos casos só alguns anos depois viu as suas músicas reconhecidas. Tal como os espectáculos de que faziam parte, essas músicas eram frequentemente ligeiras, divertidas e sofisticadas - puro entretenimento. As letras versavam temas mundanos, às vezes fúteis, amor e romance bastas vezes. Mas, por trás da aparente ligeireza, havia uma grande complexidade de harmonia, composição e de articulação entre letra e música que o talento do compositor sabia fazer parecer simples.

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À conversa com a princesa Natasha Paley na festa da passagem de ano de 1952 (fotografia de Slim Aarons)

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Beijando a mão da actiz Mary Martin na celebração do 5º aniversário do espectáculo da Broadway "South Pacific", em 1954 (fotografia de Slim Aarons)

Enquanto que a música de Porter criava um mundo ideal de luxo, prazer e facilidade, o mundo real era bem diferente. Pelo meio houve duas guerras mundiais (Porter escapuliu-se habilmente à primeira) e uma enorme recessão económica, crime e miséria na grande nação americana. A fatalidade atingiu também o próprio músico, gravemente ferido num acidente a cavalo que lhe esmagou as duas pernas e o fez sofrer o resto da vida. Mas continuou a compor, sempre na mesma toada.

O conjunto de músicas que compôs ao longo da sua carreira é imenso. Quase todas redundaram em enormes sucessos, temas obrigatórios de qualquer big band, cantor ou grupo de jazz. Tornaram-se standards. Porter foi o compositor que mais contribuiu para o Great American Songbook. Qual o seu segredo?

É curiosa fixação e insistência no lado cor-de-rosa da vida, no prazer, no optimismo, no amor - são imensas as músicas que adoptam este tema: What Is This Thing Called Love?, Love for Sale, Every Time We Say Goodbye, So In Love, Ça C'est L'amour, etc. Porter situou-se acima de um mundo feio e brutal. Se o fez por desdém, arrogância de quem nasceu em berço de ouro ou por genuína convicção não o sabemos, mas certamente não foi por razões comerciais. Talvez por este motivo a sua música seja intemporal, porque nos permite fechar os olhos e sonhar com as coisas que são, ou deviam ser, afinal, as constantes da vida.


Night and Day - Frank Sinatra (excerto)

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4 comentários

Vi um show da talentosa cantora e atriz Andrea Marcovicci sobre a vida de Cole Porter. Ela é vidrada na era em que ele viveu. Segundo ela, ele era gay, se encantou quando descobriu Hollywood e seus rapazes bonitos. Sua esposa sabia de suas preferâncias sexuais mas amava seu talento. Ela achou Hollywood vulgar. (Reação comum aos de NYC.) Deixou-o. Quando soube do acidente voltou para convencê-lo a não cortar as pernas porque ela acreditava que ele jamais seria o mesmo. Ele passou o resto da vida usando paliativos contra a dor.

Além disso, há canções tristes de Cole Porter. Várias. Mas comentário longo, além de não ser lido pode parecer pedante.

tina oiticica harris em 1 de maio de 2008 às 07h41

É mais ou menos isso, Tina. Canções tristes? Como "Every Time We Say Goodbye"?

seven em 2 de maio de 2008 às 00h04

Ella Fitzgerald também gravou muita coisa do cole, inclusive nos songbooks.

Acho que o Jazz é a música classica contemporanea, não consigo ver de outra forma, Jelly Roll Mortom, Oscar Peterson, Joe Pass, Wes Montgomery, Miles Deavis, Grapelli e Django, Ella Fitzgerald, Bilie Holiday.... são incontáveis os nomes...

Cole foi um gênio, sua imortalidade é tão garantida quanto a de Debusy, Strauss, Wagner, Rakmaninoff e eu diria mesmo Schubert, liszt....

O blog está de parabens, é um dos mais inteligente´s e de gosto mais apurado que eu já encontrei.

Rafael Carazolli em 4 de maio de 2008 às 01h11

Muito obrigado, Rafael. Temos de tudo isso aqui ;)

seven em 5 de maio de 2008 às 00h40

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