
De pai cubano e mãe brasileira, Marina tem seduzido o Brasil com seu projeto musical que busca unir Rio de Janeiro y La Havana como pontos de um imaginário criativo das lembranças. Assim, extrai músicas onde as colagens e fusões transcendem a aparência do posto junto; reinventa antigas canções da ilha, do morro e do sertão dando a cada uma delas nuanças novas, bastante originais. Através de Marina, o centro inventivo, emergem seus ousados instrumentistas - de ambos os países - que não se furtam em explorar novas fontes de som numa espécie de busca épica pelas notícias e sentimentos de uma Revolução perdurada sobre estranhos concretos, anos que Marina de La Riva não viu, mas se lembra. Aliás, não é raro vê-la elevando a sua arte a alguma instância mística, se não, metafísica; se não; pura subjeção-intuitiva: colocava a voz e ficava ouvindo para ver se as músicas também me escolhiam, diz ela contado sobre a escolha do repertório.
Nem mesmo as presenças elegantes de Davi Moraes e Chico Buarque lhe tiram a concentração devota. A cantora costumeiramente apressa-se em dizer que, antes e depois do deslumbramento, está a música, a arte e o projeto tão bem sucedido que, a partir do disco independente, irá desdobrar-se em documentário e gravação de concerto(s). Tudo fruto de mais de três anos de trabalho e viagens "ponte-aérea" Brasil e República de Cuba: caminho, para ela, essencial.
Segundo Marina, a possibilidade de criar esses novos contornos baseados em matrizes musicais tão diferentes é possível por conta da sua infância, quando não percebia diferenças entre as músicas dos dois países: Para mim era tudo a mesma coisa, a música da minha casa. Trio Matamoros e João Gilberto era mesma coisa. Talvez seja realmente por isso que os hibridismos soam tão naturais; entre os batuques africanos e uma profusão de ruídos vindos sabe-se lá de onde, a tração dos instrumentos de metal rumbeiros penetra por todos os poros brasílicos e põe o "Marina de La Riva", seu primeiro disco, entre os mais envolventes do ano.
Para uma amostra, aí em baixo podemos ir de Tin tin deo/Xote das Meninas, colagem. A primeira canção é de 1940 composta pelos cubanos Gil Fuller e Chano Pozo (que trouxeram muitos ritmos latinos para o jazz) e, a segunda, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, gravada em 1953. É a primeira faixa do álbum e um excitante resumo do que vem a seguir.
Marina de La Riva - Tin tin deo/Xote das Meninas (excerto)
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