Os arquitectos judeus na Alemanha nazi

Alfons Anker - Casas em banda, Berlin 1929-30
A investigação levada a cabo por Myra Warhaftig, recentemente falecida, traz um contributo importante para a história do século XX, em geral, e para a arquitectura em particular. No seu trabalho revela a existência de quase meio milhar de arquitectos judeus na Alemanha, na sua maioria descendentes de famílias há muito estabelecidas no país. Estes profissionais viveram e trabalharam nas grandes cidades, especialmente em Berlim, e foram praticantes convictos da nova arquitectura moderna, funcionalista ou expressionista. A perseguição de que foram alvo, tal como todos os judeus nesta época, quase apagou o seu rasto e permaneceram injustamente esquecidos. O presente trabalho resgata-os para a História e identifica muitos dos seus projectos e obras, muitas ainda de pé, sobreviventes miraculosas da guerra para onde o regime nazi empurrou a Alemanha.
De acordo com os estudos efectuados por Warhaftig data de Novembro de 1933 (poucos meses antes do governo nazi ser empossado) a publicação de um decreto que bania os arquitectos judeus da Reichskulturkammer für bildende Künste, uma associação onde deviam estar inscritos para poderem exercer a sua profissão. Dois anos depois também os arquitectos que tinham um cônjuge de origem judaica se viram impedidos por sua vez de praticar arquitectura. Pouco depois o cerco fechava-se e os judeus ou emigraram ou ficaram, acabando os seus dias num campo de concentração, fossem arquitectos, médicos, escritores ou cientistas.
Arquitectos desconhecidos ou esquecidos como Bruno Ahrends, Georg Falck, Ernst Ludwig Freud (filho de Sigmund Freud), Harry Rosenthal, Martin Albrecht Punitzer ou Hans Sigmund Jaretzki são apenas alguns dos resgatados, uma pequena lista de 43 nomes que Warhaftig estudou e documentou, uma ponta do icebergue que pode ser consultada aqui. O seu trabalho completo pode ser encontrado no livro Deutsche jüdische Architekten vor und nach 1933 - Das Lexikon. 500 Biographien (Arquitectos judeus alemães antes e depois de 1933 - O léxico. 500 biografias).

Hans Sigmund Jaretzki - Cinema Park-Lichtspiele, Berlin

Martin Albrecht Punitzer - Fábrica Herbert Lindner, Berlin 1932

Harry Rosenthal - Casa Eisner, Berlin 1927

Bruno Ahrends - Urbanização Weiße Stadt, Berlin 1928-31

Alexander Beer - Enfermaria Judaica, Berlin 1930

Georg Falck - Armazéns Tietz, Solingen 1930
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11 comentários
Algo que impressiona são os planos arquitectónicos que nunca chegaram a ser construídos.
Durante o último ano, a viver em Nuremberga, tive oportunidade de ver o início de um complexo que seria o centro da propaganda Nazi, este já por si imponente. Mas coisas como o Volkshalle (http://www.nyc-architecture.com/ARCH/ger-Welthauptstadt_Germania.jpg) imaginado por Speer para Berlim são realmente estonteantes.
Pedro em 16 de abril de 2008 às 12h19
Sim, ainda bem que não foram construídos. De um modo geral as arquitecturas fantásticas e megalómanas promovidas por regimes totalitários não interessam a ninguém. Prefiro claramente estas obras comuns dos arquitectos judeus. Afinal de contas a arquitectura deve ter algo de banal...
seven em 16 de abril de 2008 às 12h50
Seven, sempre venho pra ver seus posts maravilhosos e copio alguns, com devidos créditos, para o meu. Este foi um deles.
Obrigado amigo.
Lula em 20 de abril de 2008 às 23h09
Muito obrigado pela preferência, Lula.
Um abraço.
seven em 20 de abril de 2008 às 23h11
o que se devia avaliar é a arquitectura e nao o regime politico, o facto do regime politico em vigor num pais ser totalitario ou democratico ou comunista em nada deve influenciar a maneira como vemos a arquitectura, a arquitectura é uma linguagem universal que nao devia sofrer censura!
Joel em 28 de abril de 2008 às 16h06
gostei do vosso modelo de edificio, peco que me enviem planta completa duma vivenda com um piso.
andre em 29 de abril de 2008 às 16h02
Permitam-me entrar no vosso diálogo.
Faz algum tempo que venho observando as matérias aqui expostas.
Em primeiro lugar pretendo presenteá-lo com uns parabéns pela iniciativa.
Faz falta no nosso país iniciativas deste género.
Uma crítica e atitude interpretativa acompanham diversos artigos aqui expostos.
Vou passar a redundância e comentar os comentários;a arquitectura de Speer não deve ser classificada como estonteante, senão como classificaria-mos todo o conjunto de Retail's Park que proliferam pelo nosso país_Portugal(senão pelo mundo)? Repare onde pretendo chegar: se ter um país, como era o caso da Alemanha Nazi, com um Reichtag com dimensões fora do normal, aproximadas da "megalomania",(e já passo a explicar porque coloquei megalomania sob aspas)e uma avenidas e praças "estonteantes"de exibição militar, se isso era megalómano e estonteante, então ter um grande conjunto de Reteil's Park, de Hipermercados e shoppings-center, estádios de futebol, ou de torres que cada vez mais crescem em direcção aos ceús, como se se estivesse a ver qual delas chegaria primeiro à lua, não será também isto megalómano e estonteante...?!
Eu penso que devemos analisar o enquadramento histórico/politico das arquitecturas para elas não perderem o seu sentido enquanto tal...,
ou seja, o regime Nazi necessitava, face ao que estava a viver como realidade, das grandes auto-estradas que criou, das grandes praças e da grande exibição que pretendia construir. Sim para mim tratava-se não de uma arquitectura megalómana ou estonteante mas exibicionista; pois já que toda a arquitectura exibicionista pode ser, e com certeza que é megalómana e o inverso não se verifica. Contudo existe muita arquitectura megalómana que incapaz de ser exibicionista é no entanto estonteante.
Não estou aqui a defender todo o Neoclassicismo de Albert Speer, mas a apoiar a ajuda financeira que a Alemanha de então atribuiu à Escola da BAUHAUS, e que fez com que ela sobrevivesse até 1933.
Posto isto, é claro que as arquitecturas fantásticas, promovidas por regimes totalitários interessam, pois de que é que viveu o mundo até aqui, desde a antiga Caldeia, Suméria, Assiria, Babilónia, os povos do Mar Egeu, Egipto, Roma, Constantinopla, Renascimento,o Barroco, os Incas , os Maias, os Chineses, os Nipónicos, Angkor Vat, etc... etc...todas estas civilizações TOTALITÁRIAS e todas estas formas de arquitectura FANTÁSTICAS foram necessárias para a evolução da ciência e do mundo.
Aconselho para o efeito a lerem um artigo de Alvaro Siza Vieira, intitulado "Arquitectura Banal não é Polémica!...".
E para finalizar, tecnicamente falando Arquitectura e politica são indissociáveis, pois a forma de realização destas é uma interpretação politica, senão ao que chamaria-mos aglomerar um elevado número de pessoas e serviços num só edifício, como se vem fazendo, e como fez Corbusier, nos Cité Refuges em Marselha e outros.Não é isso o controle das massas, não é isso o comunismo...,
vou deixar-vos pensar.......
Pedro de Jesus em 1 de maio de 2008 às 14h03
Há uma coisa no seu comentário de que discordo profundamente, Pedro, que é a referência à "ajuda financeira que a Alemanha de então atribuiu à Escola da BAUHAUS, e que fez com que ela sobrevivesse até 1933", nas suas palavras.
Foi precisamente o contrário. A Administração alemã fez tudo e mais alguma coisa para fechar a Bauhaus, politica e financeiramente. A escola sobrevivia através de financiamento próprio, de encomendas da indústria, como de Sommerfeld. Mais: a Bauhaus foi ENCERRADA pelos nazis, que antes a escorraçaram das suas instalações em Dessau para uns armazéns decrépitos em Berlim. Isto é sintomático.
Não confundamos a atitude de um regime como o nazi com as pirâmides do Egipto. As coisas não são tão directas.
Isto não quer dizer quer eu goste de centros comerciais megalómanos...
seven em 2 de maio de 2008 às 00h16
Se estudar a biografia de Gropius, verificará o seguinte: que ao terminar o ano de 1918, Gropius, Behne e TAut fundam em Berlim o Arbeitsrat fur Kunst. Posteriormente com a mudança radical das condições socioculturias, Gropius que mantém invariável o seu propósito inicial- uma nova síntese entre a arte e a técnica - translada-se para Weimar juntamente com Meyer_ em Março de 1919_ para dirigir a escola ESTATAL, nascida da fusão do Instituto de Van de Velde com a academia local:a BAUHAUS DE WEIMAR(1919/1925).Depois de fechar a BAUHAUS DE WEIMAR por decisão do novo governo conservador de Turingia, a cidade de DESSAU por iniciativa do burgomestre Hesse acolhe Gropius e os Professores e favorece a refundação da escola.O MUNICÍPIO APROVA E FINANCIA UM PROGRAMA DE RELANÇAMENTO DA ESCOLA, QUE SE CONVERTE NUM INSTITUTO ESTATAL.Em 1932 num contexto de menor afirmação interna e da grave crise política e social que dominava a Alemanha de que resultaria o Social Nacionalismo de Adolf Hitler, transferiu-se a escola para Berlim funcionando nas instalações de uma velha fábrica até ao seu encerramento pelo regime Nazi em 1933.
Posto isto pode confirmar que eu nunca escrevi que foram os Nazis que financiaram a Bauhaus mas a Alemanha, o munícipio de Dessau representa a Alemanha a que eu me dirigo.
Outra coisa Eu não estou a defender nenhum regime, mas os arquitectos que com ele trabalharam, ou diga-me se aparecer ai um ditador a oferecer trabalho o Sr. não aceitaria?? Se um Ramsés, Hitler, Salazar, Franco, Napoleão, Ceaser, Louis XV, Papa Leão X, George Bush, lhe propusesse trabalho, o Sr. recusaria???!!!...
Há quem diga que prefere comer batatas fritas todos os dias, mas a última pessoa que me disse isso, e que eu muito prezo, tinha a barriga cheia à várias dezenas de anos, ele próprio era o primeiro a confirmar isso e dizia sempre: " O meu problema é que eu falo de barriga cheia...".
Se estudar com cuidado a história vai verificar que o regime administrativo que Hitler criou, tem em muito a ver com o Egipto antigo, repare nas bandeiras, por exemplo....
Se o regime de Hitler teve influência no encerramento da Bauhaus, foi nos dois últimos anos de vida da mesma, até lá contribuiram para o mau clima crises administrativas que levaram a que sucessivamente se trocasse de directores.
A propósito, eu até acho piada a centros comerciais_arquitectonicamente bem elaborados, claro!!_, não acho piada é à proliferação desenfreada de centros comerciais...
Pedro de Jesus em 3 de maio de 2008 às 16h23
Pedro e Seven... gostei muito dos vossos comentários... é curioso o quando se pode aprender em conjunto. obrigado :)
bjr em 3 de maio de 2008 às 20h30
Ok, Pedro, tudo perfeitamente esclarecido. Eu conheço a história da Bauhaus... Também não disse que estava a defender nenhum regime, muito menos o nazi!
De facto o regime nazi e a administração de Dessau eram coisas diferentes mas recordo que, a partir de certa altura, o governo central se imiscuiu nos assuntos da escola sob a alegação de que era um antro de comunistas (não era um antro mas havia por lá alguns agitadores). A partir daí sofreu inúmeras pressões, com alunos e professores a serem expulsos, etc. O próprio Meyer, comunista assumido, foi demitido e substituído por Ludwig Mies, com o objectivo de pôr ordem na casa. A menor afirmação interna de que fala corresponde na prática a esse estrangulamento que resultava na falta de encomendas de que dependia.
Quanto à semelhança de regimes políticos totalitários ela existe e na arquitectura também. Apesar de tudo acho a arquitectura dos regimes ditatoriais do século XX (Hitler, Estaline e outros) ridícula quando comparada com outros. Os ditadores estão a perder a mão... ;)
seven em 3 de maio de 2008 às 23h37
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