A dança de Delft

São noventa e seis centímetros por um metro e quinze de quadro, por isso o que vemos é um quadrado imperfeito mas completo, sobriamente emoldurado. Na escala da obra de Vermeer, é o maior dos pequenos quadros. Um terço Delft, dois terços céu. Sim, é mais uma janela. Está aberta há 344 anos.
À sua frente, a confirmação da claridade é o primeiro impacto. As cores são o segundo. Mas é quando a leitura dos detalhes principia, e a memória começa a tarefa de identificar o que vê, que o mundo dança debaixo dos nossos pés: eis um quadro que as reproduções falham em mostrar, que tem de ser, só pode ser visto, um quadro em frente ao qual eu ficaria se pudesse muitas horas seguidas, a tentar compreender. O quadro não se confunde, e ainda bem, com uma fotografia: é pormenorizado, atencioso, exaustivo na descrição da realidade, sem jamais, porém, trair a percepção da maravilha. O seu detalhe mais realista não tem forma nem lugar em qualquer mapa de Delft.
Especula-se sobre se Vermeer terá usado a câmara escura na composição da imagem e diz que sim, que é muito provável. Mas a pergunta que sempre me fiz enquanto Vermeer não passou das minhas deambulações por livros e pela Internet (com as limitações que tal acarreta), como podiam os seus quadros ter tanta ou mais luz que os diapositivos, entrou no território comum da delícia e da angústia com "A Vista de Delft". Os diapositivos são objectos iluminados, de facto. São finos. São transparentes. São feitos para brilhar. Já fazer da superfície opaca de uma tela uma representação do ar e da luz, ao ponto de a luz que vem do quadro nos assentar na pele como a leveza e a amplitude da luz do dia, e nela ser possível respirar plenamente, é extraordinário. Gosto de pensar que, tal como entre os músicos existem alguns com ouvido absoluto, entre os pintores alguns há/houve que pintaram com o auxílio de uma memória fotossensível exemplar.

Aqui o museu feliz que o guarda e aqui a reprodução mais fiel que consegui encontrar, dentro do possível. Essencialmente, este quadro é um corpo vivo e, justamente, reclama-nos inteiros à sua frente.

São Reino é uma colaboradora multifcetada do
obvious, verdadeira malabarista que tanto escreve sobre arte como aparos de canetas. Conheça mais sobre esta autora na sua
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17 comentários
Tive a felicidade de ver alguns quadros de Vermeer no Met Museum de NYC e mais uns dois no Frick, a casa de um milionário que virou museu.
A observação sobre a luminosidade de sua pintura é perfeita. Nenhuma reprodução faz juz ao Vermeer ao vivo.
tina oiticica harris em 15 de maio de 2008 às 10h26
É completamente diferente ver uma obra ao vivo. A maior parte das vezes nem sabemos qual o seu tamanho real e isso faz parte do espanto.
seven em 15 de maio de 2008 às 11h10
Vermeer é impressionante, precisamente pela forma como a luz é trabalhada. Queria pegar no comentário da Tina... a minha maior desilusão foi quando vi os quadros da Frida Khalo ao vivo... Sempre tive uma outra noção quando via as representações em imagens... o quadros eram pouco luminosos, pequenos e, de todo, não faziam jus à imagem que ela tinha na minha cabeça.
Infelizmente nunca vi um Vermeer ao vivo... devo ter medo de me decepcionar?
BJr em 15 de maio de 2008 às 16h33
"Infelizmente nunca vi um Vermeer ao vivo... devo ter medo de me decepcionar?"
Nunca. O post sobre a luminosidade de trabalho de Vermeer é fiel à sua pintura. Naturalmente, uma reprodução deixa a desejar, como o Seven falou. Ao ver pela primeira vez um Renoir, chorei. Só conhecia essas coisas de fascículos da Editora Abril.
tina oiticica harris em 15 de maio de 2008 às 18h19
Sim, é verdade, Tina. E alguns quadros mais antigos possuem aquelas molduras cheias de arrebiques dourados, com um ar grave... Em tempos também tive uma experiência idêntica com um Rembrandt representando um velho. O quadro era enorme, todo preto, apenas se vendo as mãos e o rosto do retratado, e exalava um poder enorme. Percebi então o que significava "a grande pintura".
seven em 15 de maio de 2008 às 22h35
Eu tive essa sensação (isto parece terapia de grupo...) com um auto-retrato do Durer - aquele em que ele se pinta de frente, como um Cristo, a segurar o casaco sobre o peito. Faz-te perder o pé, é um assombro de intensidade.
tajana em 16 de maio de 2008 às 14h23
Terapia de grupo... :) Sim, já não como nada há mais de uma hora...
seven em 16 de maio de 2008 às 14h33
O Seven quer falar de comida mas tem vergonha...
sao em 16 de maio de 2008 às 15h35
A dada altura, apregoei o meu entusiasmo faceà pintura / fotografia e tudo o que a luz toca e um amigo meu sugeriu-me o fime "Dutch Light" - ainda não vi o filme, mas passo a palavra e cito:
'Dutch Light is a documentary about the light in Holland...It’s about the light celebrated in paintings – in landscapes by Jan van Goyen and Jacob van Ruisdael, and in interiors and still lifes by Johannes Vermeer, Pieter Saenredam and Willem Claesz Heda...What is Dutch light? Is it different from light anywhere else in the world?" ;) Mariline
Mariline em 16 de maio de 2008 às 16h01
Sec alhar os quadros da Khalo foram hiper coloridos nas reproduções. Já não é a primeira vez que ouço/leio tal.
Durante a busca de uma reprodução para este post fartei-me de penar >:> Ora lhe escurecem as nuvens, ora contrastam as casas, uns intensificam os azuis, outros os amarelos dourados, outros as cores todas… chega a ser violento se tens memória daquilo de que gostaste num quadro. Em geral escurecem-no imenso. É que nem no site do próprio museu o jpg é decente. Quando este começou a abrir (é um grande jpg, daqueles que demoram) e vi o detalhe das nuvens que depois recortei e acabei por usar no princípio do post, fiquei contentíssima. A tinta vê-se. O azul respira. A tonalidade branca da luz adivinha-se. “A Vista de Delft” é um quadro belíssimo mas não é “espectacular”. É delicado, elegante.
sao em 16 de maio de 2008 às 16h59
São nuvens que parecem... errm... algodão doce? :)
seven em 16 de maio de 2008 às 22h56
Não me parecem algodão doce mas claras de ovos com açúcar, as moreninhas com açúcar mascavo; moles, não duras como suspiros.
tina oiticica harris em 17 de maio de 2008 às 16h20
seven em 17 de maio de 2008 às 22h43
Pronto :D Tópico de comida desbloqueado.
Mariline, não vi esse filme mas hei-de procurar e ver ASAP, porque a temática me parece muito interessante; vivendo eu em Lisboa, que o sol mais tímido do Inverno torna esplendorosa, e sendo nativa de uma cidade com luz forte, a luz holandesa sabe-me sempre a Norte e a menos, admito, mas também admito que a meio do segundo dia no país já me é agradável na pele e fascina-me nela uma uniformidade curiosa, parece que o país está envolto numa névoa clarinha que torna os dias discretamente fluorescentes.
sao em 19 de maio de 2008 às 11h21
Olá São,
...nunca me tinha ocorrdo a expressão fluorescente para o tipo de luminosidade de Amstrdm, mas concordo (só não sei se a fluorescência é propriedade da luz ou do tom de pele, cabelo dos "nativos")...de qualquer modo e voltando à temática Vermeer:
Bom filme :) [acho que não é facil encontrar...]
mariline em 19 de maio de 2008 às 14h55
Tens razão, a amazon inglesa tem através dos users-vendedores, mas apenas um; estou com problemas de recepção de encomendas (sobretudo quando são caras, ficam pelo caminho :| ) por isso não posso deixar-me tentar pela encomenda repentina... há um ano atrás já teria encomendado, grrr.
sao em 19 de maio de 2008 às 18h13
A fluorescência pode vir do facto do país ser em parte rente ao mar e em parte "roubado ao mar" :)
sao em 19 de maio de 2008 às 18h18
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