As fontes

Waterman Kultur
Comecei a usá-las no fim do liceu e durante a universidade tornaram-se aliadas poderosas e um ritual.
Aliadas porque eram os únicos instrumentos de escrita que permitiam apontar, sem excepção, tudo o que era dito nas aulas teóricas, por mais alucinante que fosse a rapidez do discurso dos professores, sem perdas de tempo e sem um esforço extraordinário do pulso; com o aparo em posição convencional, permitiam uma escrita normal, com o aparo virado, uma escrita fina, e esta foi muitas vezes a minha salvação em respostas de exame com limite de linhas, por reduzir substancialmente o tamanho e a largura da letra, numa batota legal que me duplicava o espaço de resposta.
Ritual porque cedo dei por mim a estrear uma no início de cada época de exames. Uma vez estudado o que havia para estudar, dava-me ao tempo de escolher e comprar uma nova - assim que a tinha, quase desejava o começo da época infernal; de notar que estas canetas possibilitavam testes de aspecto esmerado na primeira metade do tempo e, na segunda, quando a fúria dos relógios começava a fazer tremer a espada sobre a cabeça, permitiam, como nas aulas, uma escrita veloz.
Então, como agora – com a subtil diferença de estarmos na era do comércio electrónico, que nos traz a casa as lojas e possibilidades que antes só poderíamos conhecer em viagem –, o desafio era conseguir objectos acessíveis e bonitos, entre os disponíveis nas papelarias, nas tabacarias e numa ou noutra loja especializada. Nas últimas, as canetas eram em regra caras, entre modelos pomposos e pesados e modelos mais decentes; nas primeiras, a oferta era barata, mas as canetas frequentemente feitas de plástico frágil e feio, com muito ruído estético à mistura – florzinhas, bonequinhos e laçarotes rosa choque, claramente a tentar adolescentes com diários perfumados – e aparos que dobravam e ou se abriam ao menor lapso de força; nas tabacarias, encontrava-se o melhor dos dois mundos.
Foi nestas que descobri, mais recentemente, as Waterman Kultur e as Rotring Surf, canetas à prova de dourado, leves, bonitas e suficientemente baratas para que pudesse por fim equipar-me com um batalhão delas: para tinta verde, verde água, lilás, rosa, castanha, preta, azul e cyan, entre muitas outras possibilidades, e usar umas nas mochilas, deixar outras no trabalho e espalhar mais umas quantas pela casa. Sem o estigma do objecto de luxo. As Kultur são um bocadinho mais caras que as Surf, e também escrevem ligeiramente melhor; as Surf são mais dadas ao micro-borrão e apresentam um traço mais grosso, o que é largamente compensado pelo facto de serem muito pequenas e custarem cinco euros, contra os quinze das Kultur.

Rotring Surf
Quer umas quer outras existem em diversas cores, em modelos opacos e transparentes. Prefiro as transparentes porque me parecem mais bonitas, além de me ser possível saber, em cada momento, a quantidade de tinta disponível no interior. Já na Internet, descobri a versão transparente da Lamy Safari, a Lamy Vista, que ainda não experimentei, apesar de andar muito tentada; anda à volta dos vinte euros e tem um design todo catita.

Lamy Vista
Como duram eternidades, as canetas de aparo têm todas em comum serem mais amigas do ambiente, o que, a longo prazo, também lhes reduz o custo. E actualmente podem ser adaptadas para o uso do êmbolo em substituição dos cartuchos. Quem se atrever a usá-las, contra os dias apressados e descartáveis deste tempo, descobrirá que a letra não é só uma aventura manuscrita – na fluidez da tinta permanente, a letra é uma coisa que se desenha.

São Reino é uma colaboradora multifcetada do
obvious, verdadeira malabarista que tanto escreve sobre arte como aparos de canetas. Conheça mais sobre esta autora na sua
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18 comentários
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Muito bom mas com um pequeno protesto: então e as Parker, as Waterman e as MontBlanc onde estão elas? Usei canetas de tinta permanente (como se dizia) durante a escola primária - sobretudo as Parker - e portanto sou um pouco suspeito para dizer isto, mas acho que um dos grandes prazeres da escrita é a caligrafia.
seven em 22 de maio de 2008 às 22h44
Então, eu apresentei as minhas amigas, agora espero conhecer as amigas dos outros meninos :) A Kultur é uma Waterman :P
sao em 23 de maio de 2008 às 00h49
Pois. Foi um lapsus calami ;)
Se escrevesses um post sobre a MontBlanc decerto muita tinta iria correr...
seven em 23 de maio de 2008 às 00h52
A minha parceria com a MontBlanc até agora fica-se pelo facto de ter a tinta castanha mais bonita que já experimentei; sempre que posso, uso o castanho deles.
sao em 23 de maio de 2008 às 00h58
Escrevo quando encontrar um modelo transparente que possa habitar o meu quotidiano desarrumado e que seja tão bonito e barato que se torne um vício. Sem dourados :D
sao em 23 de maio de 2008 às 01h01
Eu tenho algumas destas... XD...
Leno em 23 de maio de 2008 às 02h42
Osvaldo em 23 de maio de 2008 às 04h20
Pese embora a aparente aversão da autora pelos "dourados", tenho e uso uma Cross totalmente dourada. Uma companheira que me acompanha há mais de 20 anos. E concordo em pleno como o seven: "...um dos grandes prazeres da escrita é a caligrafia."
Zé Paulo em 23 de maio de 2008 às 07h24
Não é só aparente, Zé Paulo :) Em regra, não gosto de objectos dourados. Não posso dizer que amanhã não vejo uma caneta assim que me faz mudar completamente de ideias :) E se calhar pelo exagero é mais provável que isso aconteça: ser mais fácil eu gostar de uma completamente dourada do que de uma só com detalhes dourados.
Ficam muito personalizados os objectos que se usam durante muito tempo não é? É também por isso que prefiro estas canetas às esferográficas (embora adore bics). E a caligrafia, claro :)
sao em 23 de maio de 2008 às 14h33
São fixes, não são Leno?
Adoro a Kultur azul. Tudo nela é um clássico, até o facto de o azul ter uma tonalidade a lembrar o azul das bic.
sao em 23 de maio de 2008 às 14h35
pois eu sempre fui adepto das "anel vermelho" (Rotring). A fluidez do aparo no papel... O ritual de soprar para a folha, quando escrevemos algo à pressa e queremos fechar o caderno, sem borrar a "pintura". Alternei sempre entre a cor preta e azul. O que mais gostava era o intermédio... Ehehehehehheeh. Aqueles metros parcos de escritura em que a tinta fica única, individual! Mágico! e de doidos tb... mas saudavelmente doidos. :) Cumprimentos :)
Luis em 23 de maio de 2008 às 15h02
sao em 23 de maio de 2008 às 15h34
Tenho algumas de anel vermelho, Luís :) A minha preferida é de uma cor bonita que nem é azul nem é lilás.
sao em 23 de maio de 2008 às 17h17
E também gosto da fase da mudança entre cores diferentes :D Tento não o fazer mas eventualmente acontece.
sao em 23 de maio de 2008 às 17h20
Adoro escrever. Usando lápis, caneta, grafiti, bic(que hoje não presta mais) e esferográfica. Uma das minhas diversões foi variar de letra e depois continuar com a primeira. Estas canetas aqui no Brasil, chamam
canetas tinteiro. Nunca mais tive uma. Para quem gosta, é uma boa diversão.
Anny em 23 de maio de 2008 às 18h53
Pois eu pertenço ao clube das Waterman. Desculpem lá mas eram os meus aparos preferidos. E eu também fazia os testes todos a tinta permanente.
Fernando Vasconcelos em 23 de maio de 2008 às 19h30
Qual é o problema dos diários perfumados? As pessoas que têm diários perfumados também têm sentimentos...
tajana em 24 de maio de 2008 às 17h00
Não é problema nenhum, foi só um comentário de raspão. Claro que têm sentimentos. Tal como eu, que sou uma pessoa de bem.
são em 26 de maio de 2008 às 13h47