Bem me quer, mal me quer

Publicado em outros por sao em 29 mai 2008 06:26 PM | 8 comentários

 Direitos Flores Malmequer Plantas Vegetais

Em regra não leio PPS, e-mails de aviso – “Isto é SÉRIO, aconteceu com um amigo meu!” – ou pedidos de reenvio – “Lê! Não custa nada e vai transformar-te no Oliver Twist!”. Mas às vezes, segundo uma conjugação aleatória de factores decisivos, abro-os, leio-os, fico fascinada e acabo a fazer leituras higiénicas no Museum of Hoaxes. Foi assim que fiquei a saber de um estudo datado de Abril de 2008, do Federal Ethics Committee on Non-Human Biotechnology (ECNH), da Suiça, intitulado “The dignity of living beings with regard to plants”.

Este estudo não é uma fraude. As imagens da Society for the Protection of Plants, sim, fazem parte de uma falsa campanha visando a equiparação total entre os direitos humanos e os direitos das plantas e, reflexamente, a morte à míngua dos vegetarianos.

 Direitos Flores Malmequer Plantas Vegetais

O estudo da ECNH pretende ser o primeiro passo sério para um debate ético sobre a dignidade das plantas e sobre a forma como devemos tratá-las. O comité manifesta a consciência de que tal passo há-de parecer risível e defende-se antecipadamente com a bondade dos critérios a que possa chegar.

São sete as conclusões do estudo.

1. Não devemos fazer mal às plantas sem uma boa razão.
2. É inadmissível a defesa de uma completa instrumentalização das plantas, que devem defender-se também por possuírem um valor intrínseco, próprio, apenas seu.
3. É inconcebível a propriedade absoluta sobre as plantas – podem ser nossas, mas não as podemos tratar como bem entendemos; uma minoria dos membros do comité defende o contrário.
4. Nada obsta à modificação genética das plantas, desde que as suas capacidades de reprodução e de adaptação não sejam afectadas.
5. O comité tenta uma saída airosa – à Tribunal Constitucional, portanto – quanto ao registo de patentes sobre plantas, com uma maioria a dizer que, bem, essa é uma questão de ética social e a ética social não é objecto deste estudo. Uma minoria pronuncia-se pela incompatibilidade do registo com a dignidade das plantas.
6. A diversidade natural deve ser uma preocupação constante da modificação genética.
7. As acções que servem a preservação humana encontram-se moralmente justificadas, desde que proporcionais e adequadas.

Metade destas conclusões parecem-me coisas do bom senso traduzidas para a linguagem oficial dos comités. Como exemplo, na primeira, o relatório fala em decapitação de flores silvestres à beira da estrada. Para tanto, há que ter uma boa razão. Oferecer? Decorar? Jogar ao bem-me-quer?

A outra metade está no limbo entre a aparência de fraude e a razoabilidade de um debate que, num planeta feito de equilíbrios frágeis – muito frágeis, cada vez mais frágeis –, não é assim tão desprezível.

Transversal ao estudo, estranha surge a postura do comité – parece que à força de examinar à lupa os pós e os contras da defesa da dignidade das plantas, a visão de ecossistema desapareceu. Aliás, não consigo perceber se estava lá no começo. É como se as plantas interessassem muitíssimo, bem como conseguir uma postura humana de respeito, mas o comité deliberasse a partir do Olimpo. O facto de ser um comité suíço faz-me desconfiar um bocadinho e/ou não conseguir evitar algum preconceito na leitura: a Suiça é o país da grande ordem e eu ainda não percebi se a grande ordem é uma ambição pelo bem comum ou uma ambição em si. Mas deve ser pelo bem comum, visto tratar-se de uma democracia. Uma democracia a pedir ficções assépticas, mas uma democracia.

Há parágrafos inteiros do relatório que ainda me fazem pensar que daqui a uma semana o Museum of Hoaxes vai pedir desculpas ao público: “Afinal o estudo do ECNH era uma fraude.” Nem assim o assunto sairia do limbo.

Sao Reino São Reino é uma colaboradora multifcetada do obvious, verdadeira malabarista que tanto escreve sobre arte como aparos de canetas. Conheça mais sobre esta autora na sua página de perfil.Saiba como publicar um artigo no obvious.
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8 comentários

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Eu a mim pessoalmente importam-me mais as bactérias - o massacre das bactérias perpetrado todos os dias impunemente. Mas é a minha opiniao, pode haver outras. De qualquer maneira, vou fazer um comité.

tajana em 29 de maio de 2008 às 21h44

E as amebas? Vocês já pensaram nas amebas?!? É dramático...

Author Profile Page seven em 30 de maio de 2008 às 12h36

E os cadáveres das plantas de algodão que passeamos alegremente em cada t-shirt?

Vocês brincam, mas isto é muito sério.

são em 30 de maio de 2008 às 15h50

Eu cá sou contra isso: só uso roupa sintética.

Author Profile Page seven em 30 de maio de 2008 às 22h31

Ok
Entendi.
Muitos dizem oh só uso roupas sinteticas, claro isso é ótimo, derivados do petrólio, isso é bom?
Mas e ai derivados do petrólio, petprólio gerado a milhões de anos por matéria orgânica, é e matéria orgânica de animais mortos e vegetais, plantas mortas, nossa então quer dizer que mesmo usando uma roupa sintetica você esta usando cadaver de plantas, seja planta do algodão , arvore o que for.
Conclusão isto é um ciclo, sim lógico devemos respeitar as plantas assim como qualquer ser vivo, mas se precisarmos delas , das plantas arvores, e precisamos devemos usalas sim , mas demaneira conciente e sustentável.

Thiago em 17 de junho de 2008 às 01h57

Se machucamos o agodão, fazemso mal às bactérias e amebas e aos cadáveres de plantas e animais, estes através do petróleo, tenho uma solução. Alguém viu um filme de horror ruim mesmo "Texas Chainsaw Massacre"? São uns muito doidos que fazem suas mobílias com a pele dos humans que sequestram.
Nem fósseis de anmais ou plantas. Nem nada. E o ser humano não é mais um animal, é um animal racional que destrói o nosso planeta. Que tal?

tina oitcica harris em 17 de junho de 2008 às 16h12

Brincadeira, viu? Sou nascda nos EUA, sou um tantinho pirada, mas não faria uma coisa dessas.

tina oitcica harris em 17 de junho de 2008 às 16h15

.

Nossa, quanta doideira...
Nasça no Brasil ou fora dele, mas tenha
consigo o equilíbrio do siso, o ângulo
obtuso do juízo e deixe o resto que eu
equilibro no fio sem corte da neusose.

silvioafonso.

.

silvioafonso em 23 de julho de 2009 às 22h37

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