As cartas de alforria no Rio de Janeiro Imperial #1

Publicado em outros por prill em 20 mai 2008 06:23 PM | 9 comentários

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Costuma-se dizer que um dos graves problemas no estudo histórico e sociológico da escravidão no Brasil colonial é a documentação rarefeita. Há aquela famosa passagem em que Rui Barbosa teria queimado quilos e quilos de papel referentes ao assunto onde, uns dizem, foi por motivo de impedir que certos fazendeiros contestassem o governo da época pedindo indemnizações, ressarcimentos pelos escravos perdidos. Outras versões dão conta de que o jurisconsulto queria simplesmente apagar da memória do Brasil um capítulo tão vergonhoso, algo como uma revolta pós-bebedeira que teria acometido toda a população nos finais do século XIX; veementemente a sociedade negava a escravidão e o Estado estava à postos para promover a amnésia.

Assim, diversos documentos importantes foram perdidos e, os que não foram, acabaram estocados em algum porão, alguma prateleira onde ninguém se interessaria em ir, sob magníficas camadas de poeira e insetos.

É de comemorarmos a sorte da ciência não ser um universo conformado porque, num movimento recente (por recente, leia-se trinta e poucos anos), os documentos existentes sobre a escravidão do Brasil, quaisquer papéis que se referissem ao regime, passaram a ser levantados e analisados sob as mais diversas óticas e teorias culturais, econômicas ou demográficas. Os resultados surpreendem tudo o que costumamos imaginar sobre a sociedade escravocrata do país.

Uma das fontes que vêm sendo exploradas por esses historiadores tem sido as cartas de alforria. Contrariando o desfiamento repetitivo do rosário, um enorme volume delas está por aí estocado em arquivos públicos de vários cantos, especialmente aqueles onde o número de ácaros supera esdruxulamente a população de um estado como São Paulo.

Por conta de uma série de fatores culturais, econômicos e religiosos, havia no Brasil um forte costume de entrega dessas cartas de liberdade que conferiam legalmente ao escravo o estatuto de poder reger-se por si, ir aonde quisesse e o mais. Elas podiam ser concedidas de duas formas: gratuitamente ou mediante um pagamento, que poderia ser em dinheiro ou em trabalhos pré-estabelecidos pelo proprietário. Transação impensável para as nossas sensibilidades, mas muito natural até as últimas décadas do regime, as cartas de alforria também se dividiam em outras duas categorias: podiam ter alguma condição estabelecida a ser cumprida pelo indivíduo escravizado ou ser entregue imediatamente sem que o cara precisasse fazer coisa alguma além de ser eternamente grato.

E é justamente nesse ponto, no ponto das condições, em que toda a complexidade das relações estabelecidas entre as pessoas envolvidas nessa sociedade vem à tona. Isso porque ficam evidentes em boa parte da documentação os diálogos e negociações envolvendo senhores e escravos. Mas é claro; trata-se de pessoas e, onde há pessoas, há conflitos, afetos, prazeres, ódios e toda gama de passionalidades que podem vir ao espírito humano. Coisas que o senso comum não imaginaria, de repente, saltam daquelas linhas como o caso de escravos que recebem salário.

São dados fascinantes sobre um tempo que se quis esquecido mas que, pelas marcas muito fundas que fez, diz demais sobre quem somos num Brasil de hoje. E de depois.

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9 comentários

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Prill,Prill, a historiadora :)

Acho um prazer absurdo ler teu textos e já disse isso a você algumas vezes. Sou fã do Obvious (novidade né?) e adoro teus posts também.!

"Mas é claro; trata-se de pessoas e, onde há pessoas, há conflitos, afetos, prazeres, ódios e toda gama de passionalidades que podem vir ao espírito humano."

Sabe o quanto eu me identifico com essa abordagem. O ser humano, apesar de tudo, é minha grande paixão. E também sabe disso. Aliás, sabe muito :)

E hoje é dia 20 de maio...

beijos

Sandra em 20 de maio de 2008 às 19h09

É comum ouvir dizer que a escravidão não acabou. Dizem que se uma pessoa hoja trabalha o tanto que trabalha e ganha o pouco que ganha ela é escrava. Muitos concordam com isso e eu também. O escravo do passado tinha uma carta de Alforria para ficar livre. Qual a carta de Alforria do escravo moderno? Ele é um escravo até o dia da morte?

Marcelo Dantas em 20 de maio de 2008 às 19h31

Somos escravos dos limites que impomos a nós próprios.

Author Profile Page seven em 20 de maio de 2008 às 20h35

Seven

Não acredito que seja apenas assim.

Se condições e oportunidades não forem democráticas, a escravidão moderna está camuflada pela desigualdade de oportunidades, onde a exceção só existe para confirmar a regra

Sandra em 20 de maio de 2008 às 20h45

Eu não disse que era apenas assim, em exclusivo. Claro que não. Mas é um dos grandes obstáculos à nossa liberdade.

Author Profile Page seven em 20 de maio de 2008 às 20h52

Portugal, meu avôzinho, segundo o jornalista David Nasser, pode ter feito algumas coisas boas pelo Brasil. Principalmente, é o espelho do "Fado Tropical" do Chico Buarque e de Ruy Guerra.
A miséria do povo brasileiro, seria esa consequência da colonização amorosa dAlém Mar? Hein, hein, hein?

tina oiticica harris em 21 de maio de 2008 às 07h27

o que vou dizer agora é real a escravidão em nosso pais ainda não acabou com estes governo qui aí esta só faz coisas que beneficiem a eles neum sabe fazer nada a não ser en ricar else e a familhia

elzo b santos em 22 de maio de 2008 às 01h05

Fiquei emocionada em ler este artigo pois descendo de Bisavô Italiano e Bisa Africana (escrava),ele apaixonu-se por ela e fugiram para o Amazonas para casar e viver, aqui não existia escravidão,e foram muito felizes.Tenho buscado por registros pelo nome dele que era Vitalice Vitaliane Paschoalini(imigrante),mas até agora tem sido infrutífera minha procura.Se voce puder me ajudar a desvendar o véu que cobre esse passado agradeço muito.Mande e-mail para r.anjos@hotmail.com.

Rosana Salgado dos Anjos em 15 de outubro de 2009 às 01h05

Oi Rosana!
Emocionada fiquei eu com o seu comentário :)
Pena que está tão tarde e os olhos não vão aguentar por muito tempo mas, em primeiro, obrigada pelo seu comentário e por repartir uma história tão bonita. Sobre encontrar o registro do seu avô, você sabe em qual cidade ele vivia antes da fuga? Mais ou menos o ano em que chegou? Sem esses dados a busca é quase impossível. Por coincidência, estagiei um tempo no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro justo no setor de imigração; eles estao fazendo um trabalho fantástico, informatizando o nome de todos os imigrantes que constam nos registros dos portos, mas até onde tô sabendo, são dados pra Rio e São Paulo.
Anyway, com a cidade e mais ou menos o ano da chegada do Sr. Vitaliane ao Brasil, você teria de ir ao Arquivo dessa cidade, ver se eles tem registros de chegada de navios praquele ano. Não é uma busca fácil, porém, também não é impossível. Dê mais alguns dados, fala mais sobre e a gente vai vendo.

Obrigada mais uma vez

Priu

priscilla em 16 de outubro de 2009 às 05h17

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