Mayday: televisão para vegetais

Publicado em tv por sao em 17 jun 2008 | 11 comentários

 Voar Aviao Paisagem Viagens Televisao Tv Serie Voo
Alex MacLean

Tenho uma relação quase inexistente com a televisão que é por vezes interrompida por vícios fugazes. Foi assim com a série Mayday, em Outubro último. Sabia que era má ideia. Mesmo se não fosse má ideia, era feio: Mayday é programa doentio, cujo vício só pôde formar-se numa qualquer falha no meu pobre e indisciplinado cérebro.

A ideia era má, visto, mais cedo ou mais tarde, eu sempre ter de voar. E gosto, gosto muito, mesmo sem ser em férias, porque a sensação de descolagem é das melhores coisinhas que há na vida a seguir à montanha russa, e porque a vista das cidades e da terra pequeninas, seja dia ou noite, há-de colar-me o nariz às janelas de avião enquanto me restar um pingo de curiosidade pelo mundo, isto é, enquanto estiver viva e lúcida. Do que não gosto, depois, é do tédio. Depois da emoção física, bestial, da descolagem, voar é tédio. Conversar não posso, que lá em cima fico surda. Raros livros me salvam da medonha sensação. Depois, não gosto do cheiro da generalidade dos aviões, o perfume-average dos assistentes de bordo – ou a sua mistura – enjoa-me, a comida de plástico introduz uma distracção momentânea para logo de seguida me enjoar, por um lado, e me deixar cheia de verdadeira e voraz fome, por outro, uma fome que só pode ser resolvida em terra e que soma ao tédio uma grande impaciência. Sentir o avião começar a descer é excelente, apesar das dores horrendas nos ouvidos, porque me concentro naquilo que é a aproximação da minha libertação. Aterragem e imobilização do avião são momentos altos, seguidos de uma ligeira irritação-de-fim-de-tédio que só passa quando o aeroporto fica longe e começo seja o que for que me fez viajar.

Vem isto a propósito de eu ter voado agora pela primeira vez depois de ter consumido alguns episódios do Mayday. Claro que a culpa é minha e o televisor tem botão para alguma coisa e quem o pôs em casa até fui eu. Não obstante, ao constatar que a minha experiência de descolagem, antes intacta alegria, se fazia acompanhar de alguma apreensão, não pude deixar de me perguntar para que serve, afinal, um programa daqueles? Para os profissionais e pelos profissionais não pode ser - esses têm escolas, relatórios, congressos, livros, colegas, aulas, seminários, dissertações. Não me espantaria, aliás, se o programa tivesse incorrecções que o tornam impróprio para profissionais, visto ser o que acontece com a generalidade do entretenimento televisivo científico (um conceito bonito). Para passageiros, como?, só se for para os absolutamente não sugestionáveis e que, sobretudo, tenham péssima memória. Para quem não voa não pode ter utilidade, não é? Acresce que, hoje em dia, voar não é propriamente uma escolha ou uma opção, mas muitas vezes uma imposição da vida, mesmo que seja a imposição de nos querermos mover no mundo porque sim, o que, a par do trabalho – ou mais ainda, eu diria – também se impõe e dificilmente se recusa.

 Voar Aviao Paisagem Viagens Televisao Tv Serie Voo
Alex MacLean

Enfim, nada pode vir de bom, parece-me, de uma série que se alimenta da curiosidade mais doentia de que somos capazes e que ainda por cima nos torna conscientes de coisas que não nos servem para nada – só para ficarmos medrosos. Contra mim o concluo. E é bem feito. Ninguém me manda baixar a guarda ao inimigo. O facto do Outono, além de sistematicamente me envelhecer, me transformar num vegetal de sofá não é desculpa.

Sao Reino São Reino é uma colaboradora multifcetada do obvious, verdadeira malabarista que tanto escreve sobre arte como aparos de canetas. Conheça mais sobre esta autora na sua página de perfil.Saiba como publicar um artigo no obvious.
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11 comentários

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Olá,

Gostaria de um e-mail de contato de vc(s). Procuerei pelo site e não achei.
Se possivel entre em contato, o assunto é iPhone, ok?

Abraços e aguardo contato.

Sergio Phelipe

Sergio Phelipe em 17 de junho de 2008

O mail está na coluna da direita, onde diz "email do obvious"...

Author Profile Page seven em 17 de junho de 2008

Gosto muito de visitar o vosso blog. Fala de tudo o que é interessante, sempre com outro olhar. Para não variar as fotografias são fantásticas. Quanto ao Mayday, nem sabia que isso existia. E acho que prefiro continuar ignorante.

marialynce em 18 de junho de 2008

Sim, tentamos que seja interessante. Obrigado pelo elogio, Maria. Sobre o resto... dizem que na ignorância é que está a felicidade ;)

Author Profile Page seven em 18 de junho de 2008

Não nado, não vôo exceto em avião comercial. Quanto a descolar, ficou meio gozado. É gíria do Brasil para arrumar tóxicos, como em -- Subiu o morro pra descolar uma trouxinha.
E o pequeno traficante intermediário é o avião.
Prefro sofrer e saber que ser ignorante, Seven.

tina oitcica harris em 18 de junho de 2008

Neste caso é mesmo >:>
Obrigada Maria :)

são em 18 de junho de 2008

Para o desconforto do ouvido há uma manobra simples, que equilibra a pressão dentro e fora do ouvido: bocejar com a boca bem aberta. Ou a manobra de Valsalva (http://pt.wikipedia.org/wiki/Manobra_de_Valsalva )

Cesar em 18 de junho de 2008

Obrigada, César. Vou tentar. Eu sofro horrores com os ouvidos que por vezes, uns dias depois de chegar, ainda estão a virar aos poucos (para a posição normal).

O meu "neste caso é mesmo" era para o seven e o "na ignorância é que está a felicidade", quando respondi não se via o teu comentário, tina. A propósito de quase tudo eu concordo contigo. Mas saber que coisas podem causar desastres de avião é um conhecimento pesado e inútil na medida em que, por um lado, não me vai nunca salvaguardar, visto eu não deixar de viajar, e, por outro lado, me estraga o prazer das viagens, por me tornar consciente de coisas que não dependem de mim e relativamente às quais eu não posso fazer nada. Eh pá, se tiver de ser, é e pronto. O que eu mais quero é não pensar nisso. Em terra, pelo contrário, ter consciência da minha fragilidade e efemeridade, já me parece um conhecimento cheio de vantagens, porque me permite viver mais, melhor.

são em 18 de junho de 2008

Tina, se calhar o “descolar” da gíria brasileira vem do “to get high” do Inglês norte-americano? (não sei se no Inglês inglês existe a mesma expressão para “drogar-se”).

são em 18 de junho de 2008

Descolar é comprar.Achoque vem do des- colar, em que cola é grude, pega de por duas coisas coladas, saca? Ficar high é ficar muito louco, doidão e não sei quais as mais modernas.

Em inglês comprar é to cop some ____. To get high é to get spaced out também.(1951)

tina oitcica harris em 18 de junho de 2008

SIM OBRIGADA BEIJOSSSSSSSSSSSS!!!!!!!!!!!!!!!!!!

LILI em 28 de abril de 2009

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