Os Papas de Francis Bacon

Francis Bacon, Figure with Meat, 1954
A par dos quadros que as reproduções falham em mostrar, também há aqueles que só podem ser vistos em reproduções ou que não se querem ver excepto em reproduções. Aqui, a história da relação de Francis Bacon com o retrato do Papa Inocêncio X, de Velázquez.

Diego Velázquez, Pope Innocent X, 1650

Francis Bacon, Study after Velazquez I, 1950
O quadro de Velázquez está em Roma na Galeria Doria Pamphilj. Francis Bacon viu-o em reprodução e reuniu depois uma vasta colecção de reproduções através das quais veio a estudar e a conhecer profundamente o quadro. Teve o cuidado de nunca o ver ao vivo e quando esteve em Roma evitou a todo o custo o encontro.

Francis Bacon, Study after Velazquez's Portrait of Pope Innocent X, 1953
Entre 1951 e 1965 pintou 45 estudos, variações, reacções ao quadro de Velázquez. Diz-se que quando por fim parou o terá feito exercendo alguma violência sobre si mesmo, forçando-se a parar.

Francis Bacon, Study for Portrait VIII, 1953
As razões pelas quais Bacon nunca viu o quadro de Velázquez são incertas: não se sentia preparado, não se sentia merecedor, o quadro tinha assumido dentro de si uma vida própria que Bacon desejava preservar e que o encontro ao vivo poderia destruir ou tudo isto.
Lamenta-se a decisão de Bacon de não querer ver o original de Velázquez, quer porque poderia ter feito observações que teriam melhorado a sua técnica e em consequência a sua pintura, quer porque poderia ter feito mais variações.
Os papas de Bacon estão entre as minhas pinturas preferidas, pela consciência do quanto Bacon terá sido perseguido pelo quadro de Velázquez e especialmente pela capacidade expressiva das variações - são quadros com som e desespero intensos, quando em silêncio são quadros que incomodam; todos interrogam, interpelam. Gostava de ver ao vivo, pelo menos, este:

Francis Bacon, Study for the Head of a Screaming Pope, 1952

São Reino é uma colaboradora multifcetada do
obvious, verdadeira malabarista que tanto escreve sobre arte como aparos de canetas. Conheça mais sobre esta autora na sua
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14 comentários
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Bruno em 6 de junho de 2008 às 20h10
Sem dúvida, Bruno. Francis Bacon foi um dos grandes pintores contemporâneos e esta série uma das melhores coisas que fez.
Obrigado pelo comentário. Abraço
seven em 6 de junho de 2008 às 22h53
Otimo artigo, Sao. Impossivel ficar indiferente perante estes quadros.
isabella em 6 de junho de 2008 às 22h56
Silent Hill...
Assustador e genial.
Muito. Medo.
Halex em 7 de junho de 2008 às 00h02
Espetacular! Texto, imagens e idéias sobrepostas na mente.
O Artista consegue captar na singularidade de seus sentimentos e desejos uma universalidade incrível. Arte do espelho.
Sandra em 7 de junho de 2008 às 05h11
Já tenho medo de nazistas em filme de Indiana Jones, acabei de ver o primeiro, que dirá destas pinturas que ululam terror ao que as vê? Nunquinha. Há certas coisas que não posso ver. Admiro o arrojo do arista, do blogueiro, e tudo o mais. Quedo-me medrosa escondda n omeu cantinho.
tina oiticica harris em 7 de junho de 2008 às 08h24
Carlos Afonso em 7 de junho de 2008 às 19h05
Sem dúvida assustador, Tina. Suponho que, de resto, é essa a ideia...
Obrigado pela dica, Carlos. Muito interessante. Abraço.
seven em 7 de junho de 2008 às 23h24
Suponho que a idéia é de atrelar o terror que é e que foi a Igreja aos papas e seus desenhos. Minha família no Brasil é de "marranos". Minha avó americana era russa fugida de pogrom. Cada vez mais tomo medo de religião organizada. Acho que esta é a maneira mais diplomática de dizer isso é que prefiro não particpar de nenhuma religião, vide o vexame do Obama tendo que rejeitar sua igreja.
tina oiticica harris em 8 de junho de 2008 às 02h02
Sim, as figuras dos Papas são um tanto ou quanto... inquisitórias.
seven em 8 de junho de 2008 às 22h48
Obrigada a todos :)
Que interessante, Tina.
E quando li a expressão "religião organizada" o meu cérebro perverso fez imediatamente uma ponte para "crime organizado"... até agora, para exprimir a mesma ideia, eu dizia "religião institucionalizada", mas vou passar a dizer como tu :D
Não sei se a ideia está subjacente nos papas do Bacon, creio que sim, mas a força de alguns destes quadros é tal que eu até ao momento evitei sempre escarafunchar demasiado nas suas razões. Basta-me o frisson do terror e pensar o que penso sobre a igreja em geral.
De resto, digam o que disserem os quadros são fantásticos.
são em 15 de junho de 2008 às 16h18
Adoro os quadros do Francis. Tanto como a génio do Miles Davis.
Como tu escreves tão bem, desafio-te a escreveres algo sobre o MD.
Parabéns.
Podem visitar-me em afonsorochaescultura.blogspot.com e deixarem comentários s. a minha obra. Prometo que vou actualizar com novas obras.
Bjo para ti. Adorei o teu perfil...
afonso rocha em 24 de junho de 2008 às 16h38
São Reina
Obrigado pela resposta, São.
Sobre o Miles a Revista BLITZ Nº5 de Novembro 2oo6 traz um artigo fantástico intitulado "1971 No início era o CASCAIS JAZZ...".
Conheces? Sobre o Miles e o cabeleireiro dele...e o Vilas Boas...bom...é de partir a rir. Verídico. Faz parte da história Mundial.
Se não conseguires obter esse artigo,diz-me que assim que possa to envio.
Xau.
afonso rocha em 25 de junho de 2008 às 17h10
as obras foram muito útil para nossa pesquisa ....
obrigado
scheila em 15 de julho de 2008 às 02h26