"A Vergonha" de Bergman

Publicado em cinema por sao em 11 jun 2008 06:28 PM | 5 comentários

 Bergman Cinema Filmes Guerra Vergonha

Há duas semanas a Cinemateca passou “A Vergonha” de Bergman, que mesmo na sua escala admirável é um filme extraordinário. Trata da guerra. Com muita nudez. E como não se sabe que guerra, onde, quando, porquê, que regimes e ou exércitos se enfrentam, “A Vergonha” é um filme sobre todas as guerras. Sendo de 1968, foi por vezes visto, na altura, como um filme sobre e contra todas as guerras, oposição, à época, muito focada na contestação contra a guerra do Vietname.

“A Vergonha” não é, porém, essencialmente um filme sobre a guerra ou não é só um filme sobre a guerra. Há um casal de músicos, Eva (Liv Ullmann) e Jan (Max von Sydow, que jogou xadrez com a Morte no “Sétimo Selo” e 16 anos depois foi o padre hollywoodesco do “Exorcista”), ela violoncelista e ele violinista, que vivem numa casa de campo numa ilha desde que a guerra obrigou ao desmantelamento da orquestra em que tocavam. São jovens. Cultivam frutas e legumes que vendem no mercado mais próximo, criam alguns animais, subsistem.

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A guerra dura há aproximadamente cinco ou seis anos quando o filme começa e afectou-os até aí na medida em que os obrigou a sair da cidade e a procurar outra forma de ganhar a vida. Para quem vive em paz parece muito mas é pouco, muito pouco em comparação com o que vem a seguir. Mesmo Eva e Jan vivem, no início do filme, numa vaga consciência da guerra: mudaram-se mas continuaram, pode até dizer-se que gostam da vida que levam e das suas rotinas de ritmos largos, e a influência maior que sentem liga-se com a impossibilidade de terem filhos enquanto as coisas não acalmarem.

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Bergman queixa-se, em “Imagens” (Martins Fontes, São Paulo, 1ª edição-1996, 2ª tiragem-2001 – pp. 296-301), porque a primeira parte do filme, a que nos diz de onde partimos com Eva e Jan, é demorada e péssima, “um prólogo que se prolonga indefinidamente”. Não comparei ainda os tempos dessa parte e daquela em que a guerra se mostra e tudo muda, mas esta última pareceu-me muitíssimo maior; num momento até, quando a lógica me fez adivinhar o que ainda teria de acontecer, senti que iria ver o filme durante séculos e que não conseguiria, que me custava demasiado.

O que começa com o filme, o que é novo, é pois a violência mais extrema da guerra, a violência directa contra Eva e Jan, e de seguida a corrupção e a decadência de ambos. Quer vejamos dois indivíduos, quer vejamos um casal, a destruição será presente e corrosiva a partir desse momento.

Não nos é dito muito sobre as razões pelas quais a guerra entra numa fase mais feroz – o rádio e o telefone de Eva e Jan estão avariados e as suas idas à localidade mais próxima, fora da ilha, para vender o que produzem são espaçadas e breves. Severos bombardeamentos matam a maioria da população e levam a uma série de prisões arbitrárias, com tortura, algumas mortes e, no final, uma reviravolta do mais politicamente manipulador que há: depois de convencer e montar um cenário em que tudo levava a crer que os prisioneiros – poucas dezenas de pessoas que são a totalidade do povo da ilha e da região adjacente após os ataques – seriam fuzilados, as autoridades fazem saber que, embora estivessem previstos os fuzilamentos, o governo, misericordioso, resolveu perdoar as ofensas – que ofensas, exactamente, não se sabe.

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Esta reviravolta surte os seus efeitos no casal e marca o princípio da derrocada moral de Eva e Jan. Presos nessa manhã, tinham primeiro sido interrogados sobre uma entrevista que Eva dera, coagida e assustada, após um bombardeamento, a um grupo de rebeldes. Na entrevista Eva afirmara de si e de Jan que eram apolíticos, mas as imagens haviam sido montadas com o som falso da voz de outra mulher a encorajar o inimigo, o que incriminava Eva como traidora. Tentara defender-se - "mas essa não é a minha voz"- e em resposta fora agredida e expulsa da sala, onde Jan ficara para ser espancado. À noite, famintos, assustadíssimos, foram perdoados.

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Jacobi (Gunnar Björnstrand) personifica o pequeno poderoso local que, em nome do governo clemente, liberta os prisioneiros e que nessa mesma noite ordena a um subalterno que Eva e Jan sejam levados imediatamente a casa. Passa a ser visita assídua do casal e torna-se amante de Eva, o que talvez nunca tivesse acontecido sem o fascínio exercido sobre eles na noite do perdão. O entendimento das razões pelas quais foram acusados e absolvidos no mesmo dia, pelas mesmas pessoas, é vedado a Eva e Jan; mas o esquema, o esquema do medo e do alívio – juntos e inexplicáveis – faz com que no momento em que são enviados para casa, fisicamente livres e íntegros, se sintam especiais, o que os coloca tacitamente ao lado do poder.

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Embora surja em Bergman nas pessoas de Eva e Jan, este falso sentimento de especialidade é universal nas guerras e nas ditaduras e é aquilo que explica que os homens fiquem ao lado do poder que esmaga, que mata, que oprime os seus vizinhos, os seus amigos, os seus irmãos. Sendo apolíticos, Eva e Jan eram mais fáceis de corromper, mas ainda que possuíssem apuradas consciências políticas não deixariam por isso de ser vulneráveis: o medo, no limite e aliado aos mais básicos instintos de preservação, opera revoluções interiores capazes de grandes e nem sempre bonitas revelações. É isto que a história desenvolve. Nesta perspectiva a guerra é um bom mote, mas não seria o único.

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5 comentários

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Não vi o filme, mas o que li despertou o interesse de o ver.
Por outro lado, o que li fez-me pensar imediatamente em três livros que me marcam a nível político, social e na dimensão da alianação dos instintos de preservação, escritos por diferentes autores, em diferentes anos, mas no século XX, conciderados pela critica literária como elementos de uma triologia negra. São eles: Nós, Admirável Mundo Novo, Mil Novecentos e Ointenta e Quatro.

Cristina Silva em 12 de junho de 2008 às 17h46

Ainda não assisti a esse filme, mas a leitura deste ensaio (uma carícia à linguagem e à sétima arte) fez-me sentir vontade de vê-lo.

Elton Cardoso em 14 de junho de 2008 às 15h41

Ainda bem que te despertou o interesse, Cristina :) E também li esses livros :) Considera-se aliás que o "Nós" terá inspirado os outros dois (e faz sentido se pensamos nas datas em que cada um surgiu). Na mesma onda tens ainda (pelo menos) do Bradbury o "Fahrenheit 451" - e o filme maravilha do Truffaut - e "A Ave do Arremedo" do Walter Travis. E parece-me que me esqueço de outro título óbvio de ficção política... bem, esquecer é isto, não é? Ah, La Jetée, do Chris Marker, mas trata-se de um filme. E o "Memórias do Eterno Presente", de Schuiten & Peeters, ilustração... suponho que se pensasse mais um bocado ainda me lembrava de mais (o mundo esta cheio deste tipo de ensaios, o tema é tão infeliz enquanto realidade histórica quanto fascinante.)
Mas o ambiente geral d' "A Vergonha" não me lembrou muito o desses livros, excepto nas cenas da entrevista à força pelo exército "inimigo" e do quase fuzilamento com perdão. Lembrou-me mais uma peça de teatro que fosse dedicada ao tema da decadência interior durante a guerra e ou a ditadura.

sao em 15 de junho de 2008 às 16h09

Obrigada, Elton. Vê, vê :)

sao em 15 de junho de 2008 às 16h10

São, obrigada pelas dicas.
Em relação à triologia eu sabia que o "Nós" ispirou os outros dois, o que até hoje me influência na minha compreensão das três obras.
Recorrendo ao título do filme aqui anunciado,"A Vergonha", utilizando o significado da palavra vergonha, vi recentemente em Braga, em filme de culto, o filme "Censurado", que considero muito bom na sua abordagem sem tabus há guerra no Iraque, sendo o caos e o poçop obscuro da identidade humana o principal tema. Saí da sala de cinema muito triste, revoltada e enojada mas, infelizmente, não surpreendida.

Cristina Silva em 25 de junho de 2008 às 11h35







 
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