Charlie Wilsons War - Jogos de poder

Publicado em cinema por patricia em 4 jul 2008 | 4 comentários

Jogos Poder Guerra Tom Hanks Julia Roberts CIA filme

Charlie Wilson’s War” ou “Jogos de poder” (Mike Nichols, 2007) é um filme difícil de digerir mas que se revela muito curioso. Confesso que sou fã do realizador de “Closer” e “Anjos na América” e que me tinham dito maravilhas do filme quando este esteve em cartaz. Como não tive oportunidade de o ver na altura agora que saiu em DVD não perdi tempo em adquirir uma cópia. Ora, estranhamente tenho que admitir que comecei por não gostar de “Jogos de poder” mas depois de devidamente contextualizado acabei por considerar que este tem um “texto” bastante interessante. A narrativa passa-se durante a década de 80 quando a União Soviética invade o Afeganistão. O problema chama a atenção do senador Charlie Wilson (Tom Hanks) depois de uma advertência de Joanne Herring (Julia Roberts), uma mulher rica e conservadora, e de um agente da CIA, Gust Avrakotos (o sempre surpreendente Philip Seymour Hoffman). O senador Charlie Wilson, eleito seis vezes embora não tivesse qualquer relevância política, acaba a gerir uma trama complexa de acontecimentos que envolvem vários países e que culmina com o epílogo do conflito no Afeganistão, com o final da guerra-fria e com a respectiva condecoração pelos serviços prestados.

O que torna este filme surpreendente é que se nos centramos muito na questão dos acontecimentos reais podemos cair no erro de não “ler” a sátira que está presente no “texto” ali apresentado, nomeadamente as subtilezas dos diálogos. Confesso que precisei de ver o Making of do filme para perceber como este é subtil. O senador Wilson, um mulherengo, alcoólico e sem grande interesse, acaba por conseguir, em conjunto com Herring e Avrakotos, mudar a progressão dos acontecimentos da forma mais improvável possível. As pessoas ali representadas aparecem em entrevista nos extras e é delicioso perceber como de facto eram inacreditáveis. Desafiam a realidade e por isso só uma boa ficção pode operar no sentido de fazer perceber isso mesmo. Assim, Mike Nichols optou por uma representação parodiada pois realmente os eventos são tão pouco prováveis que qualquer tentativa de os passar de forma credível iria certamente sair gorada. As cenas de guerra no Afeganistão são de morrer a rir e a visita do senador ao campo de refugiados é em si tão ridícula que faz todo o sentido explorar esse mesmo factor de forma quase carnavalesca.

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Neste contexto, Mike Nichols de forma crua e fria transforma aquele non sense verídico numa paródia. Adiciona aos acontecimentos da história uma pitada do seu estilo teatral e sereno, cheio de humor e maldade, e oferece ao espectador um banquete recheado de jogos de bastidores. Basta recordar o esquema circular presente no enredo de “Closer”, impiedoso e cínico com todas as personagens, para nos apercebermos que estamos uma vez mais imersos numa trama complexa bem ao estilo do realizador. O próprio Charlie Wilson sempre afirmou que se estava nas tintas para a forma como o retratavam bêbado ou drogado pois o próprio tinha experimentado isso tudo. Com uma personagem tão hilariante é impossível não transformar um drama numa sátira mas esse movimento pode custar muitos bilhetes de cinema e foi o que aconteceu. O filme foi um insucesso de bilheteira. Uma pena… é talvez difícil de compreender mas mergulha-nos na teoria da complexidade provando que o que na realidade é acidente é, no caso concreto da ficção, amplamente planeado. Uma obra de génio.

Patrícia Gouveia Patrícia Gouveia é uma personagem do jogo Mouseland. Dedica-se a viajar no ciberespaço e em realidades alternativas reais que misturem realidade e ficção numa constante exploração e experimentação lúdica. Conheça mais desta autora na página de autor. Saiba como publicar um artigo no obvious.
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4 comentários

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Confesso que, mesmo após o visionamento do making off, não consigo descortinar nada que me faça ter uma opinião positiva sobre este filme. Os actores escolhidos são um autêntico erro de casting. Tom Hanks tenta dar um ar da sua graça mas é patético demais. Já a actriz fetiche de Nichols, Júlia Roberts, pelo menos é o que posso pensar após aquele ridículo filme working girl, está mal, mal... Safa-se apenas, no seu registo habitual, o Philip Seymour. Quanto ao filme em si já quase nada me lembro dele a não ser uma catrefada de diálogos patéticos e aquela presunção, bem americana, de classe média simplista e nada realista, de que se não fosse a intervenção do Congresso norte americano e dos seus magníficos dólares os russos nunca teriam sido humilhados no Afeganistão. A mensagem que o filme pretende “vender” de que o tal obscuro senador é o grande responsável pela vitória dos afegãos é ridícula. Mesmo agora quando os americanos continuam sem conseguir pacificar esse país contra um diminuto bando de pés descalços, e não contra toda uma nação como aconteceu no anterior conflito, é bem revelador do equívoco de Nichols.

migalha em 6 de julho de 2008

Caro Migalha,

Eu penso que o que o realizador acaba por fazer é também ridicularizar essa convicção americana de invencibilidade, tipo "Forrest Gump" ao contrário. O senador não é nenhum totó, como o outro, mas um mulherengo bêbado e acusado de consumir drogas. Um tipo sem nada de especial e que apenas sobressai porque as mulheres o acham bom falante e quem sabe que mais... um sujeito nada fora do comum, grandalhão e com alguma presença, que convence o eleitorado através de uma prática colaborativa e cooperativa ("eu dou-te isto e tu dás-me aquilo") que acaba a decidir um conflito internacional. Qualquer coisa de absolutamente improvável e em que se calhar só os americanos acreditam... sobre isso não tenho opinião. Depois, eu acho que a actriz fetiche do Nichols, Júlia Roberts, vai lindamente. Aquela cena da separação das pestanas é soberba. Xxx mouse

mouse em 6 de julho de 2008

Achei que o filme tinha do melhor e do pior do cinema americano. Como se fosse um mau filme de Hollywood, com todos os clichés que isso implica, feito por um tipo inteligente. A ideia de que gostei foi que uma coisa tão decisiva, com tanto impacto, pudesse acontecer por pura inércia e aproveitando as fraquezas de um sistema político. Conseguiu-se o dinheiro de forma (moralmente) corrupta, sem que ninguém soubesse bem o que se passava, nem se importasse. Pura manipulação das vontades, e da falta delas. Não sei se esta versão exagera o papel real do tal senador no desenrolar da guerra no Afeganistão. Acredito que haja grandes acontecimentos que tomam forma quase por acaso, e nos vazios que os sistemas criam, porque alguém um dia aproveita a onda.

Para mim é sempre fascinante que se consiga ver de forma tão cabal se os actores estão bem ou mal num filme. A não ser que estejam geniais, ou muito, muito maus (mas mesmo assim...), nunca sei dizer. Digamos que sou capaz de reconhecer que o Daniel Day-Lewis está brutal no último filme que fez, mas quase tudo o resto para mim é bastante cinzento, se não for falado na minha língua.

tajana em 9 de julho de 2008

Olá Tajana,

Acho que tens uma opinião bastante sensata sobre o filme ;-)) e partilho totalmente essa ideia que os acontecimentos tiraram partido do acaso e do vazio, que houve corrupção mas também inércia e, claro, que o Daniel Day-Lewis está excelente no último filme e em tantos outros, acrescento, acentuando que estes actores não estão assim tão mal como diz o migalha. Obrigada pelo comentário! xxx mouse

mouse em 10 de julho de 2008

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