mortos vivos e o vale de elah

Publicado em cinema por patricia em 19 jul 2008 12:27 PM | 4 comentários

vale sombras guerra soldados vietname

No Vale das Sombras” ou “In the Valley of Elah” (Paul Haggis, 2007), é um filme bastante forte na forma como mostra de maneira impiedosa como a guerra queima os neurónios dos soldados destacados em combate. Um ex-veterano do Vietname procura o filho, dado como desertor, depois deste ter regressado à América no seguimento de uma comissão de dezoito meses no Iraque. Este segundo filho de um casamento duradouro, que já viu morrer o primogénito, desapareceu sem deixar rasto e o pai não acredita que o rapaz tenha decidido abandonar o exército, iniciando um processo de procura de pistas. Este percurso à procura de vestígios que o podem eventualmente levar até ao filho é representado pelo sempre irrepreensível Tommy Lee Jones no papel principal de Hank Deerfield. Tommy Lee Jones é acompanhado por Susan Sarandon, actriz que representa a mãe do indivíduo desaparecido.

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O enredo do filme acaba por nos transportar para o centro de uma investigação policial e militar acompanhada pelo veterano de guerra que encontra no seu trajecto a detective Emily Sanders (Charlize Theron). Ambos vão mapear os passos do desaparecido e tentar reconstruir a história. O que terá acontecido ao “especialista” militar? Terá sucumbido à droga e foi brutalmente assassinado? O que é voltar a casa depois de meses infernais a lidar diariamente com a destruição e com a falta de valor da vida humana? Como suportar o mesmo cenário na América quando toda uma transformação se operou na cabeça e no corpo daqueles homens? Como abandonar os estereótipos motores adquiridos no espaço de conflito onde de todo o lado pode vir uma surpresa em forma de destruição?

Atirados à força para um cenário de guerra, os filhos de um rico e abastado país do primeiro mundo, ainda jovens adultos por formar, lutam com o monstro Golias no Vale de Elah. Golias, um gigante de três metros, personagem do Antigo Testamento, que participou na batalha entre os Filisteus e o povo de Israel. Golias, o monstro que enfrentou o pequeno David, um rapaz mal preparado para o que o esperava mas que acabou por aniquilar o seu adversário com uma simples fisga.

Tal como David, o rapaz que ousou desafiar e enfrentar o monstro Golias, também os soldados representados no filme “No Vale das Sombras” quando foram parar ao Iraque não sabiam o que os esperava por lá e muitos, passado pouco tempo, podem ter pedido para regressar. Não regressavam facilmente… muito menos se tivessem um pai veterano de outras guerras. Foi o caso desta história verídica retratada neste texto cinematográfico e de Mike Deerfield que, depois de pedir ao pai para o fazer regressar e da negação deste, se adaptou. Adaptou-se a ver o mal dos outros com um cinismo demasiado cruel para infringir maldade. Adaptou-se da mesma forma que os amigos a fazer o pior, sem rasto, porque aquilo por lá era “f…..” Adaptou-se por uma questão de sobrevivência, com a ajuda de químicos, a ver atrocidades e a manter a arma na mão. O corpo sempre alerta. Ficou por ali… esvaziado e de olhos baços, sem pensar muito e com a vergonha de não poder fugir daquilo. Adaptou-se como todos aqueles que tiveram a sorte de regressar a casa, cada um mais queimado dos neurónios do que o outro. Stress Pós Traumático, mortos vivos sem rumo. Porque aquilo por lá era “f…..” e ninguém, por mais que tente imaginar, sabe o que é presenciar aquele inferno… “No Vale das Sombras”.

Patrícia Gouveia Patrícia Gouveia é uma personagem do jogo Mouseland. Dedica-se a viajar no ciberespaço e em realidades alternativas reais que misturem realidade e ficção numa constante exploração e experimentação lúdica. Conheça mais desta autora na página de perfil.
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4 comentários

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Brilhante post. Quando se tem no mesmo trabalho tommy lee e susan sarandon, q mais se pode pedir?

M4Jor em 21 de julho de 2008 às 12h34

Ah e não são só os actores... e o realizador? Paul Haggis já me tinha surpreendido em 2004 com o "Crash" ou "Colisão". Um filme bastante interessante também. xxx mouse

mouse em 22 de julho de 2008 às 14h12

Gostei bastante do filme, principalmente sabendo que é baseado numa história verídica. Um palco de guerra anárquico como aquele que se vive no Iraque, ou mesmo numa guerra mais tradicional e "estruturada", deve de facto causar muitas disfunções de cariz neurológica... Agora é preciso que se saiba que estas tropas americanas são profissionalizadas, ou seja, só para lá vai quem quer! Assim, “atirados à força para um cenário de guerra”, caro mouse, não reflecte bem aquilo que se passa por terras do tio Sam. Estes miúdos, como tantos outros com os quais me cruzei quando fiz o serviço militar obrigatório, talvez influenciados pelas proezas heróicas imaginárias tipo Hollywood, sonham com estes conflitos onde podem finalmente mostrar a sua virilidade. A direcção de actores é irrepreensível.

migalha em 29 de julho de 2008 às 13h36

Pois Migalha, por um lado tens razão por outro talvez não... não deixa de existir sempre uma enorme pressão social que "atira" as pessoas para estes cenários, lembra-te da pressão que aquele pai fazia ao filho... A dada altura a personagem de Susan Sarandon diz ao marido que o filho não tinha outra alternativa senão alistar-se, pelo menos enquanto vivesse naquela casa, com aquela família, com aquele pai... para a mãe do rapaz é evidente que sem aquela pressão ele tinha escolhido outra alternativa.

No Making of também se fala um bocado na forma como aquela via é uma alternativa económica muito aceitável e como as pessoas na altura em que se vão alistar não se apercebem do preço a pagar. Apesar de tudo há pessoas que tem mais opções de escolha do que outras, parece-me. O próprio Tommy Lee Jones também no making of diz que não simpatiza nada com a personagem que representa o que não deixa de ser curioso. xxx mouse

mouse em 30 de julho de 2008 às 12h25







 
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