The Dreamers: Bertolucci e as declarações de amor em mão-única

Publicado em cinema por prill em 9 jul 2008 06:23 PM | 8 comentários

 Amar Amor Bertolucci Cinema Dreamers Filmes Sonhadores Amantes

Paris mergulhou nas fumaças de gás lacrimogênio num processo que foi quase de surpresa. O isolado caso de protesto dos estudantes da Universidade de Nanterre, contra a proibição das visitas masculinas aos dormitórios femininos culminou, num curto mês, em combates urbanos entre população e policiais. Em maio de 1968, as prisões coletivas e as reivindicações sociais já haviam se tornado rotina junto com as bombas de gás lacrimogênio e as barricadas. Enquanto isso, atrás das janelas e das cortinas de uma casa, três jovens estão adormecidos em uma banheira, sob efeito de uma droga nepalense.

Bertolucci nos coloca com ele como voyeurs, e é como entramos no banho dos personagens de The Dreamers. Os cinéfilos Theo (Louis Garrel), Isabelle e Matthew, embora partilhem de muitas idéias daqueles que estão nas ruas, estão envolvidos demais em suas tensões próprias: o dois primeiros, irmãos gêmeos, vivem uma relação de proximidade afetiva que beira, ou extrapola, o sadismo erótico e Matthew (Michael Pitt) é apenas um estudante americano convidado pelos dois a ser hóspede da casa enquanto seus pais viajam para o litoral. Mas o estudante apaixona-se por Isabelle, por uma Eva Green que se tornaria então mítica. O filme de 2003 tem suas possibilidades de interpretação multiplicadas pela profusão de idéias chaves deixadas ao longo do seu caminho e que, sabemos, dizem respeito a muitas portas.

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Em um desses momentos-chave, Matthew proclama amar Isabelle, ao que ela responde amá-lo também. Nada demais nesse interstício, mas o americano retruca com pesar: mas eu amo você de verdade. A moça nega veementemente a afirmação de Matthew. É a porta de entrada de uma curiosa reflexão:

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Para Matthew, não é cabível que, em resposta à declaração de amor, haja uma que pretenda equivaler-se, principalmente porque a equivalência que há no “amar também” simplesmente não existe. Na verdade, quantas coisas mais práticas e e polidas há que dizer “eu te amo também”? Não que tudo seja cinismos, mas a frase costuma ter lá sua dose dele num movimento natural diante da pressão atmosférica que se forma na entrega dum amor – o que achamos tão grave. É justamente essa relação de pressão e peso que Bertolucci parece querer enfatizar.

Não há réguas capazes de medir abstrações sentimentais como a tristeza, a frustração ou a alegria; são todas coisas pessoais, egoístas e relativas. No Francês, a resposta para a declaração “je taime” não passa pela urgência de igualar seu sentimento ao outro num certo frenesi de que se dissipem logo as preocupações. À um “je taime", segue-se um “moi non plus”, ou seja “eu não mais”/“eu não te amo mais do que você a mim”. É um nivelamento bem diferente. Um que admite os fatos de se ter poder sobre alguém entregue.

Os franceses parecem ter compreendido, ao menos melhor que a América, que toda declaração de amor é uma entrega de mão única; nada faz possível que seja recíproca. O ser declarante diz dos seus sentimentos, teoricamente verdadeiros, e nada pode pedir em troca. Por sua vez, o que ouve a declaração nada pode fazer a respeito para defender-se da fraqueza do outro num argumento bastante parecido com o de um Cristo aniquilado em prol da salvação de seus queridos. Deve ser por isso que tentamos aplacar a questão com o rápido adendo-refrigério do “também”: nada pior que o poder dos humilhados.

Como a dádiva aparece na antropologia - onde todo “presente” entregue exige uma reposição de igual valor – a declaração de amor torna-se um presente impossível de ser reposto. Recebê-la aprisiona aquele que, indefeso, recebe. É assim que Bertolucci, pela voz de Matthew expõe o seu ponto de que a resposta de Isabelle, como tantas nossas, é uma máscara leviana que nega a dádiva exposta pelo outro. O amor correspondido é sempre outro, novo e inédito a nós. Amar é condição ímpar.

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8 comentários

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Bonito. Não vi o filme (está na lista dos 795 filmes que eu queria ter visto e não vi). O filme é tão cheio de espelhos quanto as imagens sugerem?
É curioso, eu pensava que o 'Moi non plus' queria dizer 'Eu também não', e que o célebre 'Je táime /Moi non plus' era uma brincadeira. Já aprendi um pouco mais de francês.

tajana em 9 de julho de 2008 às 20h36

e o site?? nossa!!!!!! quando eu descobri este filme/ link à uns 4/5 anos cheguei a adaptar toda uma apresentação de tendencias de consumo em cima do roteiro do filme... os conflitos externos, os conflitos internos, as fantasias, a realidade... é simplesmente maravilhoso
mas o tal link que começava em preto e branco com vozes em off n~~ao estou encontrando... se eu achar volto aqui ;))

patricia de miranda em 10 de julho de 2008 às 12h30

http://www.foxsearchlight.com/thedreamers/
achei o antigo link navegando em ... the experience.... sabe fantasiei muito mais no link na época do que foi ver o filme de fato... achei que a linguagem ia ser mais confusa como no link preto e branco... fragmentos como em magnólia
aliás na época existia na web varios links com mensagens bem intimistas que contavam estória bem exoticas e sempre existencialistas alias é pirante o link/roterio de http://www.postvisual.com/theuninvited/en/

vc conhece...
http://supersoniks.com/jacquelinel/
http://www.bluesuburbia.com/
http://www.perte-de-temps.com/
http://www.book-of-numbers.com/
http://www.nobodyhere.com/
os poemas em italiano em http://www.music4you.it/amiamo/adsl/startadsl.htm

coleciono links sabe?? rsrsrs

patricia de miranda em 10 de julho de 2008 às 12h57

Vivam!

Dêem uma olhadela à configuração do set de caracteres.

Os feeds chegam cheios de erro.

Caiano em 11 de julho de 2008 às 09h14

Assisti o filme. Muito bom.

A sua percepção a respeito do diálogo e das questões que envolvem uma declaração de amor merece aplausos. Muito bem elaborada. Gostei mesmo.

É difícil perceber esse ponto no filme, uma vez que ficamos extremamente curiosos a respeito da relação dos irmãos e o desfecho de tudo isso. Ficamos a espera de uma grande cena reveladora.

Vou assistir o filme novamente e ficarei atenta a mais detalhes.

Flávia em 14 de julho de 2008 às 23h18

Não suporto o "também".

carol. em 15 de agosto de 2008 às 06h28

Num momento em que confitos se passam três pessoas voltam-se para si e vivem momentos que nunca, no caso mathew, pensaria passar.

A colocação final sobre o filme que diz que somente um ama, é extremanete real, "O maor é condição ímpar"!
Quando um ama demais, o outro está amando de menos.
Pobre Matheuw, único que sofreu de amor demasiado.

em menos de uma semana o óbvious falou de dois filmes que adoro...

michelle em 21 de novembro de 2008 às 16h26

Acho o filme fraquinho, conservador em termos políticos e no trato com o Maio de 68, etc. Mas o ponto exposto aqui gerou uma reflexão interessante. "amar é condição ímpar". Concordo.

PArabéns pelo post. E esse site é ótimo.

TAIGUARA em 18 de março de 2009 às 16h39

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