John Buscema – O último mestre da Marvel

Publicado em bd / hq por henrique em 12 ago 2008 12:26 PM | 8 comentários

marvel John Buscema conan barbaro

De pequeno a minha paixão no desenho era sempre propensa a traço de cadência impaciente e acelerada. Os artistas nunca me chamaram particular atenção, mas antes situações de desenho. Meu primeiro louvor à arte foi sobre o logotipo de uma cimenteira, onde se destacava a traço simples e preciso uma figura musculada em pose hercúlea.

marvel John Buscema conan barbaro

Terá sido a partir dessa altura que a minha atenção se focou naturalmente em figuras inspiradoras como o Homem-aranha, Hulk e outros super-heróis germinados na pena dos artistas norte americanos.Na porta grande da adolescência o meu foco só encontrava nitidez no futebol e nas magníficas histórias em banda-desenhada da Marvel.

Lembro, nessa época, uma tarde escolar de absoluto tédio, como habitualmente, em que um colega e grande amigo se lembra de trazer de casa, entre os livros de estudo, uma revista de banda-desenhada com capa de aprumo artístico que me pareceu só tecnicamente comparável às famosas capas dos álbuns da Anita, do ímpar Marcel Marlier, (salvaguardando as diferenças no estilo e no conteúdo). Fiquei absolutamente fascínado com aquela pintura a acrílico da capa – da autoria de Earl Norem -, a pincelar uma situação de guerra onde sobressaía uma figura bronzeada que dava nome ao álbum: Conan, o Cimério.

O melhor, no entanto, estava para acontecer. Ao me dispor a jeito para a abertura da história uma onda fervilhante de pura mestria a tinta da china cortou-me a glote e bloqueou-me a engrenagem pulmonar. Tentei recompor-me do baque inicial e cumprir o ritual de leitor de BD, coordenando na mente - ainda púbere nestas andanças - o desenho com a história, mas a tarefa afigurava-se complicada; o traço desbravava caminhos que até então não imaginara desbravados. Li no rodapé os artistas: o desenhista era o John Buscema e o Alfredo Alcala trabalhava os acabamentos.

Atentei melhor a obra. O traço era imperial: descomplexado, desprendido, certeiro e rebelde; a desafiar todos os métodos, a fintar todos os conceitos, a elevar-se naturalmente. As sequências eram tão harmoniosas como as aparições da Marilyn Monroe – vista frame a frame, a actriz surge sublime em todos os frames. Quadrinho a quadrinho o traço surge sublime em todos os traços.

marvel John Buscema conan barbaro

A meio da história ainda não fazia a menor ideia do enredo. As minhas retinas pulavam de luz em contraste, de sombra em movimento, devoravam pormenores, cegavam de tanta informação. Para mais Alcala emprestava ao desenho acabamentos de muita dedicação e estudo; complementava a obra com uma fidelidade comovente ao traço original.

Desde então e durante anos todas as minhas economias e recursos de improvíso eram vasados nas obras do John Buscema. Eu que fora até então indiferente a nomes, que captava a arte avulso, numa miscelânia de vários artistas, foquei toda a minha sede de aprendizagem na arte desse homem de figura volumosa e formal, com barba impecavelmente aparada e olhar compenetrado.

Nascido no Brooklin em meados dos anos 20 do século passado, Buscema revelou interesse precoce nas grandes figuras clássicas como Michelangelo, Rubens e Davinci (onde, por certo, aprumou a respiração na sua arte e a compactou para formato BD). Fez-se homem do traço não só como banda-desenhista mas também na indústria menos apetecível da publicidade (onde, presumo, terá entendido a urgência na perfeição). Foi na Marvel, porém, que explanou todo o seu talento e provou ao mundo que a arte desenhada também encontra amplo espaço na ilustração e BD, espaço que também ele desbravou, ampliou e redimensionou.

A Marvel pós-Buscema hoje em dia é como é. Actualmente as tiras BD da editora brotam de entre um turbilhão de cores embutidas em figuras de musculação disforme e desproporcional e rostos distorcidos que surgem de cenários sombrios e claustrofóbicos, tudo regado com os mais sinistros e 'sobredoseados' recursos em photoshop. O desenho perdeu a respiração, as histórias a inspiração e o recheio causa colesterol: embutiram no papel uma espécie de fast-draw e empacotaram para venda. Os desenhistas fazem o que podem e muito mais do que deviam. Mas há que convir que não surgem duplas Buscema – Alcala ao virar da esquina. A herança é pesada.

No que me concerne, fica a arte e obra de John Buscema, figura genial que desafiou jovens e ingénuos desenhistas como eu a planar em ventos adversos. Que nos fez ver que a partir de um simples traço, um esboço primário podemos seguir caminho para um mundo de sensações muito para lá daquele a que nos propusemos no dia em que decidimos ser executantes de rabiscos para o resto das nossas vidas.

marvel John Buscema conan barbaro

Henrique Monteiro Henrique Monteiro adora ir às nêsperas, faceta que nunca conseguiu explicar muito bem até hoje. Tem aversão epidérmica ao tipo de sandálias que se usa para o efeito. Conheça mais deste autor na página de autor. Saiba como publicar um artigo no obvious.

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8 comentários

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Sempre adorei banda desenhada, sempre li todo o tipo de livros, da Marvel inclusive, a minha opinião quanto ao Conan é que, não será exactamente um livro para jovens adolescentes, a complexidade do desenho não permite a leitura rápida e fluída que os jovens adolescentes preferem. Considero esse tipo de desenho mais arte que BD, podemos considerar o autor de Conan um pintor aprisionado nas fantasias da juventude.

Parabéns pelo excelente blog

wonder em 12 de agosto de 2008 às 23h25

Fantástico! Voltei à infância e adolescência, onde as histórias do guerreiro cimério ajudaram a forjar uma referência do ideal masculino que eu queria ser no futuro: forte, irreverente, senso de justiça e honra. Ah, e é claro, sorte com as mulheres ;)
Grande John Buscema...e não esqueço do Roy Thomas, que era o argumentista e criava histórias fabulosas...Ai, ai...boa época!

Eduardo em 13 de agosto de 2008 às 12h32

A arte ficcio-fotográfica de Giovanni Buscema parece ter sido fonte de inspiração para jovens artistas que por todo o mundo desabrocharam em época de Guerra Fria e onde os USA criavam heróis do nada, mas causando alguma confusão nas hostes pré-Pikachus e pós-Flintstones: Porque é que o Surfista era prateado e não dourado, teria ficado em 2º nalguns Jogos Olimpicos de super-heróis? Porque é que o Capitão América precisa de um escudo?? Afinal ele era o protector do dolar! Porque é que o Super-Homem não conseguiu a nacionalidade americana? Enfim, um mundo de riscos harmoniosos, estórias movimentadas mas de caracter, enfim, pouco imparcial, no minimo, mas ainda assim consigo entender a admiração de um teen-ager por uma obra do tipo.

Por outro lado a fluidez harmónica dos traços europeus, claramente menos nacionalistas mas ainda assim igualmente parciais, consequencia das épocas vividas, conseguiam fazer sorrir milhões de crianças com a escola belga e os seus Tintins, Marsupilamis, Olivier Rameaus e muitos outros mais sérios, como Michel Vaillant, Cap. Blueberry e Tanguy e Laverdure.

Mais tarde outras estrelas foram postas a brilhar no firmamento do traço, quer pelo seu caracter poético quer pelo traço em si. Ainda hoje sonho com Corto Maltese e acredito que muitos amigos do sexo masculino continuam a comprar os clic´s de Milo Manara.

Enfim... longo comentário a uma inspiração de Henrique que inspirou as minhas lembranças que não me inspiraram a ser uma artista como ele é...

MG em 13 de agosto de 2008 às 13h30

Realmente ele foi um dos melhores desenhistas que eu ja vi,os desenhistas de hoje deveriam se inspirar nele.

wagner em 6 de novembro de 2008 às 15h28

Por acaso ninca vi traso tão bem feita, gostaria muito de poder aprender esse traso no desenho!

Mário em 22 de dezembro de 2008 às 20h44

Ele foi o melhor desenhista que vi nos quadrinhos. Valeu John. Continuo a admira-lo.

Frank Andre em 26 de julho de 2009 às 05h10

Época em que os quadrinhos eram originais, em que textos e artistas decidiam sobre vender ou não. Quadrinhos perderam identidade a partir dos traços de McFarlane e coloridos do photoshop.

Author Profile Page Roberto em 8 de setembro de 2009 às 16h46

Buscema, o melhor esboço. Alcala, o melhor arte-finalizador, espetacular. Foi assim que pensei quando vi a décima edição do Cimério nos idos dos anos 80. Pra chegar perto, somente o Rudy Nebres e seu traço surrealista (viking!?!) e inimitável.

Charles em 4 de outubro de 2009 às 23h17

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