O prodígio de Esperanza Spalding

Publicado em bd / hq por henrique em 9 ago 2008 | 7 comentários

caricaturas henrique monteiro Esperanza Spalding

Ilustrações de Henrique Monteiro, texto de Priscilla Santos

Em poucas palavras, poderíamos dizer que a biografia de Esperanza Spalding corresponde a uma geração de mulheres jazzistas castas: nunca foi presa por porte de drogas ou armas, não está envolvida com a máfia, não tem um amante que a espanca, não tem cinco filhos, não perdeu uma perna ou ficou cega nem, tampouco, passou qualquer temporada na Casa Correcional para Mulheres do Estado de Alderson. Segue assim uma dinastia que passa pelo piano de Diana Krall e pelo veludo na voz de Norah Jones - embora Madeleine Peyroux costume desaparecer meses e ser vista, maltrapilha, bêbada e sem rumo por algumas em ruas americanas.

Sua história não é, entretanto, pouco bizarra. Tomemos simples eventos: aos quatro anos de idade Esperanza começou a tocar o violino e aos cinco integrava a Sociedade de Música de Câmara de Oregon e aos dez era compositora do grupo, desfilando canções que versavam a respeito de brinquedos e pick-ups vermelhas, seu universo visto dali, sem os arrebatamentos do amor que só conheceria mais tarde.

A pequena Esperanza detestava estudar. Pior do que isso, na adolescência ganhara bolsa de estudos numa escola local bastante privilegiada: aquilo foi horrível! eu odiei, por isso nunca ia, ela conta. Sentava-se na cadeira para assistir a professora e a mente começava a vaguear sabe-se lá por onde. Foi num desses momentos vue d'esprit que entediou-se com um violino e saiu pela sala indo encontrar um baixo acústico que abraçou e imediatamente, a moldes Sidarta, começou uma série de improvisações. Só não cabulava as classes de música; a mãe teve de lhe ensinar coisas da escrita e da leitura em casa ou Esperanza não conseguiria acompanhar o ensino formal junto com os meninos e meninas da sua idade.

Não se sabe se é possível dizer que essa perseverante mãe teve sucesso, para Esperanza Spalding, aos quinze anos, o ensino formal já não fazia mais sentido; ela fora promovida concertista mestre daquela mesma sociedade de música da câmara e estreou num clube de blues como crooner numa banda formada por músicos dos anos 50. Ao final da apresentação, um dos veteranos chamou-a lá fora e perguntou se ela não queria seguir com eles para ver se “assim aprendia realmente tocar alguma coisa”. A senhora Spalding teve de se conformar quando a filha, no ano seguinte, resolveu largar a escola e quem ficou desesperado mesmo foi seu professor de baixo que insistia pra que Esperanza enviasse seu histórico para Berklee, o que fez quase a contra gosto.

Ela foi aprovada. Ela conseguiu uma bolsa de estudos integral. Ela não tinha dinheiro para manter-se em Boston.

Sugeriram –lhe que fizesse um concerto beneficente mas eu não tinha um ego suficiente isso... fiquei tipo não, não, não . Tudo bem, a essa altura, nossa personagem já mereceria uma título beatífico então, pelo mínimo, seus amigos e fãs angariaram secretamente mil dólares, uma boa quantia que já pagava uns aluguéis em Boston. Mas para os virtuosos nada é fácil e, na nova cidade, Esperanza Spalding agora tinha de andar duas milhas com o baixo às costas para chegar na estação de trem e, de lá na universidade; sorte que estava muito excitada com os acontecimentos, ou desistiria. Veio o inverno ela se viu afundada na neve com o instrumento, foi quando a excitação passou.

Voltaria para Portland? Estava em vias disso, ainda mais porque nunca mesmo gostara de colégio, principalmente daquele em que os alunos viviam competindo entre si: e então você descobre esses lugares dentro de si em que voce é vulnerável onde nunca havia sido antes, diz sobre aquele primeiro semestre. Todavia, ficava por teimosia incompreensível o que lhe rendeu frutos, como já podíamos esperar. A academia lhe trouxe conhecimentos e, como Esperanza era considerada a aluna mais talentosa de sua turma, ganhando consecutivas premiações institucionais e, três anos depois tornou-se a professora mais jovem na história da Universidade de Berkley; o prodígio confirmara-se.

Junjo, de 2006 é seu álbum de estréia, basicamente instrumental em que ousa em algumas composições. Esperanza também canta, canta ao baixo e com ele dança em expressões nada menos que sensuais. Seu último disco, e aponta para o impactante disco de 2008 “Esperanza” em que passeia por fusões do jazz contemporâneo que flerta com a MPB e a música latina – seus idiomas: inglês, castellano e português.

caricaturas henrique monteiro Esperanza Spalding

Henrique Monteiro Henrique Monteiro adora ir às nêsperas, faceta que nunca conseguiu explicar muito bem até hoje. Tem aversão epidérmica ao tipo de sandálias que se usa para o efeito. Conheça mais deste autor na página de autor. Saiba como publicar um artigo no obvious.

Prill AvatarPriscilla Santos é adoradora de cervejas e colabora com o obvious. Saiba como publicar um artigo no obvious.
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7 comentários

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Prill e Henrique,

Que dupla!

Conheci Esperanza há pouco, muito pouco tempo. Impressionei-me com a sensualidade e ritmo. Ela é Diva! E o que dizer de "Ponta de Areia"? É uma das músicas do Milton que mais gosto. Difícil! É para poucos. Esperanza é uma delas.
Excelente artigo, excelente. Texto e ilustração.

Cá estou babando :)

bjs

Sandra Leite em 9 de agosto de 2008

Adorei a caricatura.
Adoro a música.
:)

Pedro Marques em 9 de agosto de 2008

Mulheres ao poder

MAR ARAVEL em 10 de agosto de 2008

Gostei de vos ouvir falar e caricaturas :D
Vou procurar essa senhora!

Plasticina em 11 de agosto de 2008

Só uma coisa....ela também toca contra baixo, certo?

Plasticina em 12 de agosto de 2008

Gosto muito da Esperanza, mas nós cá em Portugal temos o Jazzafari que a cantar Jazz ao pé da voz da Esperanza é DEUS e também canta Jazz em Português, JAZZ EM PORTUGUÊS,vocalize e bebop, já o vi 2 vezes ao vivo( 1 Casino Lisboa e outra no Teatro Maria Matos) é FANTÁSTICO... vejam na net JAZZAFARI um nome que vem para ficar e subir muito alto, vê e diz-me a tua opinião
HT

Helena Torres em 1 de fevereiro de 2009

Não exageremos nos comentários sobre o talento da crioula americana. Primeiro: não tem estilo próprio, nem voz que chama a atenção, nada se sabe de sua veia de compositora, então, por que encher a bola da guria adornando-a com a falsa ilusão de uma carreira que poderá não decolar?
Vou torcer para que dê certo, mas, por enquanto vou pagar pra ver e ouvir, é claro.
Calma e canja de galinha nunca fez mal a ninguém.
ps: de tudo o que vi,li e ouvi, fico com a arte do caricaturista, por enquanto.
GREIS

glenio reis em 20 de junho de 2009

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