David Cerny: a arte da fraude, a fraude da arte

A notícia começou a correr anteontem, dia 13 de Janeiro: a obra encomendada ao escultor David Cerny para assinalar os seis meses de presidência da União Europeia pela República Checa, que agora começam, é uma fraude. Fraude, e de mau gosto, acrescentarão muitos, possivelmente satisfeitos por terem um motivo material para se desembaraçarem da polémica obra.
A fraude prende-se com o facto de o projecto, chamado Entropa, ser alegadamente concebido por 27 artistas de cada um dos países da UE. Mas na verdade ele é exclusivamente de Cerny, que inclusivamente forjou os currículos e identidades dos restantes 26 artistas (o que justificou depois com a impossibilidade de cumprir prazos e com as limitações financeiras).
Quanto ao escândalo, esse tem a ver com a forma como cada um dos países - peças de um puzzle - surge representado. Os estereótipos mais básicos e alguns preconceitos são usados. Assim, a Alemanha é composta por um emaranhado de auto-estradas que se assemelham a uma cruz nazi; Portugal é uma tábua com três bifes que têm a forma de três ex-colónias; a Itália é um campo de futebol; a Bélgica é uma caixa de bombons; a Suécia está sobre uma caixa que lembra as dos móveis da cadeia IKEA. E por aí fora...

Cerny é conhecido por outras obras polémicas (incluindo uma cabeça de Saddam Hussein conservada em formol). No seu site, justifica o projecto Entropa com a necessidade de brincar com os estereótipos e olhar criticamente para as diferenças; assume (suponho que apenas desde que foi descoberto?) a fraude, defendendo-se com uma tradição artística checa de mistificação e de grotesco, e com a criação de falsas identidades como uma estratégia da arte contemporânea. "Acreditamos que o meio de Bruxelas é capaz de fazer uma auto-reflexão irónica, acreditamos no sentido de humor das nações europeias e dos seus representantes". Ao que parece, enganou-se...
A Bélgica tinha já pedido para ser retirada da instalação. Desfeito o engano, a presidência checa diz que irá "tomar medidas".
Esta instalação tinha custado 50.000 euros. Mesmo que Cerny devolva o dinheiro, fica o resto. Deve ter-se divertido imenso, pelo menos até o céu lhe cair em cima da cabeça.
Pode ver-se aqui um documento com cada uma das peças do puzzle.

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31 comentários
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Muito embora seja prof. de Belas Artes, essa arte moderna, neo-moderna, pós-moderna, seja lá o nome que se dê, é uma arte "sem pé , nem cabeça"; não posso dizer, por uma questão de principios que isso é bom, é belo, mexe com nossos sentimentos mais nobres, toca a alma humana.
Precisamos ter CORAGEM de dizer que tal arte é uma porcaria.
A coisa anda de tal sorte que daqui há pouco, há de se confundir um desastre de automóveis, numa auto estrada, envolvendo muitos veiculos, com dezenas de vitimas , com um quadro de arte moderna.
joão m. santos em 15 de janeiro de 2009

O link para o site dele não está funcionando... e sobre "artistas": hj em dia todos chamam qualquer coisa de arte... burlam, mentem, copiam, colocam outra cor e dizem "fiz arte"... pfff... nao me convencem com essas "brincadeiras"
Anderson em 15 de janeiro de 2009
tajana em 15 de janeiro de 2009

João... concordo em parte com o que diz. Actualmente basta fazer uns rabiscos sem nexo, encontrar um bom agente com contactos e se tivermos a sorte de ter meia dúzia de destaques mediáticos, temos um artista contemporâneo. Ridículo. Acho que uma vez vi um programa qualquer de televisão que alguém expos numa galeria de arte, junto com obras de autores contemporâneos, desenhos feitos pelo ficho de 6 anos que foram "adorados" pelos críticos... enfim... obrigado pelo comentário.
bjr em 15 de janeiro de 2009

Anderson, o link do final da página já esta corrigido... experimente agora.
bjr em 15 de janeiro de 2009

Houve uns jornalistas que fizeram uma coisa dessas numa feira ARCO, em madrid. Mas isso, na verdade, não prova nada, a não ser que é possível enganar as pessoas e há quem se dê ao trabalho de fazê-lo. Acredito que a maior parte da arte (contemporânea ou outra) é, em termos de valor artístico ou histórico, bastante irrelavante. é natural que assim seja. A arte é uma coisa extraordinária, deve ser. Mas não creio que as 'fraudes' ou mediocridades actuais sejam piores do que as naturezas-mortas pirosas que surgem por aí a pontapé, desde há décadas e séculos. Imagino que desde sempre a maior parte dos objectos apresentados a público como arte foram má arte. Nós é que só conhecemos o que ficou nos museus, que em teoria é o melhor. Isso, e os meninos da lágrima da sala das nossas tias.
tajana em 15 de janeiro de 2009

bjr, se isso dos desenhos do filho de 6 anos tiver sido para amofinar os críticos, gosto.
a fonte do duchamp e o papa com costeletas de porco do grande bacon também podem ser arrumadas no grotesco.
sao em 15 de janeiro de 2009

de muito mal gosto, o obvious nem deveria exibir essa "arte" grosseira...
dehy coutinho em 15 de janeiro de 2009

Ah ok, e então o que é boa arte ou que é ARTE apenas?
Maria em 15 de janeiro de 2009

Desculpem lá mas é um tema que muita gostaria de ter feito.
o "Cubo" da ribeira também era grosseiro, e agora toda a gente tira fotos de familia.
Damião Vieira em 16 de janeiro de 2009

Dehy... este artigo não foi nenhuma exibição, mas a constatação de um facto...
bjr em 16 de janeiro de 2009

Maria... acho que é uma pergunta complexa e cheia de nuances...
bjr em 16 de janeiro de 2009

Interessante.Desrespeitoso, mas ainda assim interessante.
Não vou me atrever a falar se é ou não arte, e nem tentar responder a pergunta da Maria.
Mas a criatividade dele tem que ser admirada.E afinal, ignorando a falta total de senso do homem, ele retratou a opinião dele.
fletcher. em 16 de janeiro de 2009

A mim interessa-me muito pouco este trabalho do Cerny enquanto obra de arte - se é bom ou não. O que me interessou nisto foi a questão, eterna, da relação entre a arte e o poder. Neste caso, ao mais alto nível, porque a partida foi feita aos representantes máximos de 27 países.
Os políticos sempre gostaram de aproveitar a arte no que lhes é útil (porque dá prestígio associar-se à arte), mas sempre tentaram fugir ou evitar a parte da arte que lhes pode ser inconveniente: a que possa ser crítica, ou faça as pessoas questionar o poder. Uma relação assim, em que cada uma das partes no fundo despreza a outra, mas depende dela ou para sobreviver (artista), ou para legitimação moral e intelectual (poder), só pode ser perversa e dar azo a casos destes de quando em vez.
Que a presidência checa ache que um artista conhecido pelas suas obras polémicas e críticas é uma boa escolha para uma obra institucional como esta, é um mistério para mim. É como pedir ao Gabriel, o Pensador, ou ao Ricardo Araújo Pereira que façam a letra do hino nacional. Portugal teve o bom senso (ou o conservadorismo medroso) de recorrer às tapeçarias de Portalegre quando esteve na presidência da UE, vá lá...
O Cerny pode ter-se aproveitado indevidamente, mas acho que acima de tudo teve tomates, o que já não é pouco. Quanto aos 50 mil euros, parecem-me mais bem empregues aqui (sempre puseram a Europa a discutir) do que num carro oficial de algum presidente. Seriam ainda mais bem empregues noutras coisas, mas pronto.
tajana em 16 de janeiro de 2009

Fletcher... eu iria dizer que colocar uns bifes em cima de Portugal, com o formato das ex-colonias, como o Brasil era um pouco "estranho". Por outro lado vou evitar comentar o meu próprio gosto pela peça e simplesmente limitar-me à conduta ética do artista que, no mínimo, foi de um total desrespeito por todos.
bjr em 16 de janeiro de 2009

Tajana, faço minhas as tuas palavras :)
bjr em 16 de janeiro de 2009

Eh pá, eu fartei-me de rir com esta história, he he. Pode ter a sua parte de imoralidade, mas não vejo grande mal nisso. É uma grande ideia :)
tajana em 16 de janeiro de 2009

Me doem os olhos.
Que falta de bom gosto e criatividade, isto não é arte e sim lixo.
horrivel!!!
Ana em 16 de janeiro de 2009

Sendo apenas um leigo da matéria, ocorre-me as inúmeras vezes que no passado se declarou a "não arte" disto ou daquilo.
Quantas obras ou correntes artísticas foram consideradas lixo e hoje são obras-primas.
A definição de arte é cada vez mais ambígua, confusa, abrangente ou mesmo estratificada. A brincadeira da Arco que também vi, só demonstra até que ponto a noção de arte, está hoje em dia confusa.
Ser horrível e de mau gosto, não desqualifica uma obra como obra de arte.
Confesso que certas instalações me deixam muito perplexo, mas o facto de eu não a compreender não lhe retira por si só a característica de obra como obra de arte.
Parece-me que não há nada como o tempo, para separar o trigo do joio, daqui a 50 anos saberemos qualificar a obra deste artista, hoje parece ser apenas uma boutade.
Se perguntarem simplesmente se gostei ou não: Não. Mas quem sou eu..
Numa amostra na rua 9 em cada 10 pessoas diriam que não gostam da obra de Francis Bacon. E Francis Bacon é FRANCIS BACON com as letras todas, hoje e daqui a 50 anos.
Robick em 17 de janeiro de 2009

Quando se fala em arte todos assobiam para o lado e refugiam-se na "ambiguidade" do termo. Não há nada de ambíguo. Não confundam arte com estética nem boa com má arte e tudo será simples. Há muita coisa bonita que não é arte.
Esta obra é arte, pelo seu significado, pelo impacto e pelo facto de nos pôr a discutir isto. Não tem grandes características estéticas e talvez por isso não seja boa arte. Talvez, e apenas isto é subjectivo.
Mas como Robick disse aqui em cima "Ser horrível e de mau gosto, não desqualifica uma obra como obra de arte". Acaso já se esqueceram do mictório de Duchamp?
E, bjr, o desrespeito não é para aqui chamado. Se formos por aí, então Andy Warhol era um canastrão e o Michelangelo era uma grandessíssima besta!
Maria em 17 de janeiro de 2009

DADA knows everything. DADA spits everything out
ana em 17 de janeiro de 2009

Visitei o site.
Não vi nada horripilante por lá, nem a tal suástica nazista - mesmo que fosse um círculo diriam tratar-se da cruz gamada !!! -, mas fiquei sem entender o significado de uma ou outra coisa, e até posso concordar com os sentimentos lusos quanto a alusão ao colonialismo.
Mas não buscaram um polemizador ? Vejo que os 50.000 euros foram uma pechincha !!! Abriu-se uma discussão interessante, Arte.
Não posso opinar técnicamente pois tenho apenas um rápido curso de História da Arte, além de um conceito ou outro, sei apenas dizer se gosto ou não. Mas isto, oras, é subjetivo, cultural.
Então gosto de ficar com esta idéia, Arte não é para ser "vista", "ouvida" ou "sentida" - via tato - apenas deve ser provocadora de um sentimento, e isto será diferente em diferentes pessoas, de acordo com seu meio, vivência e cultura. Eu que nada entendo de Arte poderia pintar um quadro e ser considerado artista ? Para uns seria eu um charlatão, para outros um primitivo, natural, para outros ainda, um gênio, independente do que estivesse na tela.
Portanto, mais uma vez, a encomenda atingiu o seu mérito, pela dimensão das reações, e a um baixo custo.
Tudo isto é muito saudável, visto continuarem assustados com o nazismo de Hitler - que nem alemão era - ou o passado colonialista - que não é apenas de Portugal, e à época era considerado algo normal -.
Considerei a obra "estranha" e penso que isto é melhor do que ser "normal", senão Arte não seria.
Quanto aos currículos falsos.... Não opinarei, afinal ele é um polemizador.
Abraços a todos
Eduardo
Eduardo Zimermann em 17 de janeiro de 2009

Tal está a diferença entre artista e arteiro.Este último tem duas definições conf. Aurélio XXI:
-1. Que revela engenho, arte. Artificioso.Manhoso
-2. (Bras.) Que faz artes ou traquinices. Traquinas,
Travesso. [sin. bras.GO- custoso]
A arte, de ambos, está mais no pensamento do autor e no preconceito dos observadores.
Neanderthal em 17 de janeiro de 2009

Fui o primeiro a me manifestar nesta coluna e se a direção do Obvius me permitir gostaria de adicionar mais algumas observações sobre o assunto.
A Arte Ocidental se balizou há 3000 anos na cultura grega, a qual identificou principios básicos que compõe qualquer manifestação artistica.
Os gregos fizeram isso na filosofia, no teatro, na escultura, na arquitetura e vai por aí afora.
Felizmente o Império Romano quando dominou os gregos teve o bom senso de preservar a cultura grega.
Muito bem, a civilização ocidental cresceu, se desenvolveu com essa base grega.
Na pintura desde a idade média até o século 19, os artista estudavam artes, tinham professores e depois de muito tempo eram considerados artistas. Só para exemplificar, podemos citar:Renoir, começou a estudar aos 21 anos (1862) e sómente 14 anos, notem bem, 14 anos depois uma obra sua foi considerada como uma verdadeira obra de arte, quando ele tinha 35 anos(1876).
Citamos outro:Cézanne começou a estudar em 1861 com 21 anos e depois de 16 anos de estudo, em 1877, foi considerado um artista.
Ou seja, os artistas eram nivelados por cima.
A grandre tragédia da arte ocidental deu-se em 1905 com o fauvismo, movimento criado por grandes mestres,mas que não se deram conta que a partir daquele momento na história, QUALQUER UM, sem nenhum preparo academico,sem nenhuma experiencia na arte, sem ter "ralado" anos a fio; bastava espalhar tintas de cores primárias na tela e o cidadão se arvorava de ser um ARTISTA PLASTICO!!! Passou-se a nivelar por baixo. Hoje qualquer joão ninguém quando indagado o que faz? Sou ARTISTA PLÁSTICO!!!
Corretissimo estava um diretor da Bienal de Milão, quando há alguns anos atrás exigia de qualquer ARTISTA PLASTICO que quisesse expor na Bienal, que fizesse um teste muito simples; na frente dele, o A.P. deveria desenhar uma MÃO!
As recusas foram enormes, pois os ARTISTAS PLASTICOS sem formação academica não sabe desenhar uma mão, nem um pé.
Deve ter sido assassinado!
O ser humano é muito curioso; para se dar palpite em medicina, é necessário que o palpiteiro seja no minimo médico.
Em fisica quantica, que o cidadão seja formado em fisica com mestrado e umas 4 ou 5 pós graduações.
Em construção civil, que a figura seja ou engenheiro ou preferencialmente arquiteto.
E segue o andor.
Quando chega em Belas Artes, qualquer despreparado se julga habilitado e capaz de fazer e desfazer e palpitar a vontade, dando pitaco em tudo como se fosse o dono do pedaço.
É uma tragédia e a população não se dá conta disso.
Porque se vc faz alguma critica, imediatamente vc é taxado de ignorante. Aí as pessoas se calam ou concordam, assustadas com a forma agressiva como são tratadas.
Vivemos um momento historico em que a arte está nas mãos de pessoas que não são do ramo e isso vai durar muito tempo, pois há interesses economicos fabulosos envolvidos e esses despreparados é que ditam o que é bom e o que não é bom.
joão m. santos em 18 de janeiro de 2009

Joao.m.santos, percebo em parte os seus comentários. É verdade que dadas algumas características da arte contemporânea, é muito fácil criar fraudes. Mas não creio que a arte possa ser limitada a uma capacidade técnica e a uma série de preceitos da estética do belo. Muito se passou na cultura ocidental desde os gregos. Por exemplo - o Ocidente descobriu que existe o resto do mundo, e vive agora nesse mundo também. A própria fotografia não encaixa bem nessas noções de capacidade técnica. E muitos que dominam bem a técnica são maus artistas. Quem fica para a história são os escultores, não os cantoneiros.
Ao contrário da medicina ou da arquitectura, não há um conjunto mínimo de conhecimentos objectivos que sejam necessários para se ser artista. Ou se os há, desde há muito que muito boa arte se ocupa, não de cumpri-los, mas de, conhecendo-os melhor que ninguém, transgredi-los. Dos impressionistas também se dizia que não sabiam desenhar.
Eu não vou ver exposições nem compro arte de quem não gosto, ainda que me digam maravilhas. O tempo julgará a obra dos outros e as minhas opiniões.
Seja como for,não vejo como se pode julgar tão incisivamente como muitos têm feito esta obra de Cerny sem a terem visto.
tajana em 18 de janeiro de 2009

Desculpe-me, João M. Santos, mas ao lê-lo fiquei com a ideia de que estava a falar de provas a prestar ou jóia a pagar para se entrar num clube de decoração de interiores.
Concentrar toda a legitimidade da arte na formação académica é imensamente redutor. Há alimárias muitíssimo bem formadas.
sao em 19 de janeiro de 2009

Humm... Tb não acho que seja necessário ter talento para ser artista, entendendo talento como "jeito" ou destreza manual. É necessário ter formação estética, isso sim, mas tb não é condição suficiente.
Rufus em 19 de janeiro de 2009

A Arte eh o reflexo do tempo em que se vive...
de uma maneira ou de outra....
fatima em 21 de janeiro de 2009

A verdade bate sempre nos dentes,e nunca é agradavel!
lino dos santos em 29 de janeiro de 2009

Achei fantástico a obra do Cerny. Apesar de nao conhecer o trabalho de tal artista, vejo que ele se embaseia no enxadrista Duchamp; para que nós, público platônico, extremamente contemplativo entremos em seus jogos bem armados.ARMADILHAS heraclitiana! pantha rhei amigos de boa fé! caímos na roda de duchamp!!! justificamos a arte contemporânea com muito pouco e por pouco!
saudações!
esdras em 26 de março de 2009

tuo de mais td lido mesmo assim que podemos ver as coisas mais belas...
adriana em 16 de abril de 2009