Destinos Literários

Paris
Sim, os livros são capazes de nos fazer viajar para muitos lugares, sejam eles existentes ou não; mas como seria extrapolar a ficção e conhecer os sentidos dos lugares onde se passaram as histórias imaginadas pelos escritores? O que era há pouco tempo atrás uma aventura confinada a intelectuais, amantes radicais da literatura ou passeantes, tem se tornado um novo ramo do turismo em todo o mundo, o turismo literário.
Ele consiste em visitar os lugares reais citados nas obras de ficção nos fazendo viver de uma nova forma a experiência que tivemos através da leitura e parece ter ficado mais evidente após o sucesso do livro “O Código da Vince” que arrastou milhares de turistas pelas ruas, igrejas e museus parisienses e londrinos que buscavam ver de perto os supostos mistérios descritos por Dan Brown. Em 2005, essa era a prioridade de 8 entre 10 turistas que visitaram as capitais da França e Inglaterra. Formou-se mesmo a tal “rota do Código da Vince” onde guias que sabiam de cor onde ficava o que tanto nas cidades como no livro, mostravam aos grupos todos os detalhes levantados pelo autor do best-seller.
O fenômeno não é novo. No Rio de Janeiro do século XIX, a pouco usada linha de barcas que ligava a Ilha de Paquetá ao continente tornou-se um dos locais mais freqüentados do Império a partir de 1844 quando Joaquim Manoel de Macedo lançou seu açucarado romance “A Moreninha”, era o “Código da Vince” da Corte brasileira. Ainda hoje estão lá os guias que mostram a Praia da Moreninha, o Morro da Moreninha e etc.

Transilvânia

Transilvânia
Mas um dos destinos mais fascinantes é o que nos leva à Transilvânia, na Europa Central: a Meca dos Vampiros. A região ambientou o romance “Drácula” de Bram Stoker, que a descreveu como dona de ambientes sombrios, recheado de castelos e palacetes, incríveis charretes e enigmáticos ciganos. Lá nasceu Vlad Tepes, o príncipe da Valáquia que, na versão de Stoker, teria renegado a fé cristã a tal ponto que, por castigo, fora transformado num ser imortal que se alimenta de sangue humano. Já na versão historicisada, Tepes teria matado dezenas de milhares de otomanos atravessando seus corpos com lanças de madeira, o que lhe rendeu o título de “O Empalador”. Dando corpo às lendas, podem ser vistos nessa região romena o Castelo de Bran (que inspirou Bram Stoker) e o castelo de Conde Tepes.

Ilheus
Versando sobre assuntos mais carnais, Ilhéus, na Bahia, abriga um bairro inteiro com o nome do autor que consagrou a cidade. No bairro Jorge Amado estão a antiga casa do escritor e as ruas onde pisaram os instigantes pés de Gabriela, Cravo e Canela. Através da visita guiada, o turista pode conhecer detalhes sobre a vida do escritor, de suas inspirações e seus personagens em um passeio que incluem cafés-teatro, praias estonteantes e plantações de cacau. Ilhéus é muitíssimo bem servido de hotéis para a maioria dos bolsos mas, se o caso é de luxo, há o Cana Brava Resort, onde se pode ver tudo isso e fazer intervalos para o jogo de tênis e o SPA.

Afeganistão

Afeganistão
Sonho dos amantes da cultura árabe, Kabul, no Afeganistão, pode ser vista e conhecida como cada vez mais abertura a cada dia. A reconstrução da cidade, embora lenta por conta da complexidade de sua situação política, já conseguiu pôr à todo funcionamento o Museu Nacional Afegão, orgulho do país em sua época de ouro. Lá pode ser vista a impressionante estátua de Surya, o Mausoléu do Imperador Babur e seus jardins além dos bazares, o Palácio de Darul Aman, mesquitas e montanhas congeladas descritas por Khaled Housini em “O caçador de Pipas”. O centro de Kabul é, neste roteiro, a grande pérola.

Portugal - Sintra

Portugal - Sintra
“O Mistério da Estrada de Sintra”, conjunto de cartas anônimas fictícias escritas por Eça de Queirós e Ramalho Ortigão para o Diário de Notícias em 1870, teve sua primeira edição em livro publicada há quase 25 anos atrás, mas a última, do ano passado, somando forças com o filme de Jorge Paixão da Costa, também de 2007, é forte candidato a novo ponto turístico-literário de Portugal. Das incríveis construções que recheiam esse Distrito de Lisboa, se destacam o Palácio Nacional de Sintra, o Palácio da Pena e o Torreão do Castelo dos Mouros, além dos monumentos naturais como a serra e a praia. Quem se preocupa com a ingestão de calorias é que deve fazer este roteiro com cuidado: se as queijadas de Sintra, sozinhas, podem arruinar qualquer dieta, não é bom imaginá-las aliadas a pasteis e cabrito assado.
Como se pode ver, são muitos os destinos a que podem nos levar nossos livros favoritos, mesmo além daquelas paisagens e ambientações que desenhamos com nossa imaginação. A experiência de conhecê-los ao vivo tem tudo para ser fascinante e muito rica em informações que nos permitem ver um pouco do que se passou na mente dos escritores ao fazer as descrições e rotas que nos levam à passear entre uma linha e outra do livro que temos em mãos.
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11 comentários
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Quando andei a ler Tennessee Williams sentia-me perseguida pela humidade de um grande rio. A sensação era viva ao ponto de eu ficar com a pele pegajosa. Tennessee Williams era uma grande viagem era era.
sao em 30 de janeiro de 2009 às 13h49

Um livro que me faz viajar pelas paisagens do Brasil é "Viva o Povo Brasileiro". O foco principal, na verdade, acaba sendo a Ilha de Itaparica, na Bahia, mas a longa história - longa mesmo, que passa por várias gerações de almas reencarnadas - não se limita ao estado nordestino. Além disso, nos faz pensar e repensar também a história do Brasil.
Leonardo Pastor em 30 de janeiro de 2009 às 23h21

Leonardo, pessoalmente, os livros que me fazem viajar são os de aventuras fantásticas e irreais como os de J.R.R. Tolkien.
bjr em 31 de janeiro de 2009 às 01h45

Meus destinos literários são todos para levar ao passado. O século XIX luso brasileiro sempre me fascinou por isso as paisagens do Machado de Assis e do Eça me tocam desde sempre, desde quando eu nem entendia quase nada d'Os Maias (mas fazia cara de "para os pais se orgulharem").
Sempre que tenho oportunidade, gosto de rodar pelo Rio do Machado; está quase tudo no mesmo lugar, a mesma miséria fascinante e a arte teimosa. Conhecer as praças, os teatros e os cafés que leio no Eça me tirariam o chão, sabem...
prill2 em 31 de janeiro de 2009 às 01h55

Caro Prill sou portugues e vivo mesmo ao lado da famosa Sintra do Eça. Devo dizer que as suas descrições da serra também sempre me fascinaram. Mas tenho consciência da grande mudança que os tempos trouxeram ao local.
A viagem de Lisboa a Sintra já não se faz de charrete por entre campos de cultura e bosques frondosos, mas por uma auto-estrada que é uma dor de cabeça para os habitantes locais.
Sintra não é mais um punhado de casas rurais no meio de uma mata longínqua, mas uma vila (diria quase uma cidade) apinhada de habitações de diversos estilos e tamanhos. Isto apesar das grandes limitações impostas à construção nesta área.
É bom lembrar que toda a zona de Sintra-Cascais é um Parque Natural, ou seja, uma área a preservar pelas suas características únicas a nível natural e cultural.
No entanto, se nos conseguirmos abstrair da enorme quantidade de turístas que deambula pelas ruas, se nos aventurarmos a pé pelas ladeiras que percorrem a vila, se soubermos apreciar a diversidade natural, então ainda poderemos encontrar (com alguma sorte) vislumbres da Sintra de Eça, mesmo dois séculos mais tarde.
David em 31 de janeiro de 2009 às 16h02

Quando li A insustentável leveza do ser (Kundera) fiquei fascinado por Praga, uma cidade mistoriosa e linda do Leste Europeu, que um dia pretendo muito conhecer.
Antonio S. Durigon em 2 de fevereiro de 2009 às 23h39

Li o Viva o Povo Brasileiro, mas creio que aquilo de que me lembro melhor é da opinião do canibal, que dizia que a carne dos holandeses era bem melhor e mais tenra que a dos jesuítas, he he.
Quase sempre as cidades que conheci primeiro em livros - as cidades europeias, pelo menos - desiludem-me. Isso aconteceu-me um pouco com Praga, quer pelo excesso de turistas, quer pela pouca simpatia dos nativos. Não me lembro de alguém, numa loja ou café, me ter sorrido em Praga, ter sido cordial, como mínimo.
Gostava de conhecer a Alexandria do Lawrence Durrell, mas duvido de que ela exista.
Acho que não sou grande viajante de destinos literários, não. Acho que o sítio deles é nos livros, não me apaixona conhecer a cidade real. Acho. Pelo menos, não de lugares - cidades, locais concretos. Embora tenha também os meus mitos de viajante: Istambul, Timbuktu, Sicília. Mas geralmente não tem muito a ver com livros.
tajana em 3 de fevereiro de 2009 às 00h15

Tajana, a parte do canibal é espetacular. Cabloco Capiroba (se não me engano).
Leonardo Pastor em 3 de fevereiro de 2009 às 03h38

São exemplos fantásticos.
Eu sou de Portugal e é de Portugal que posso falar pois não conheço mais nenhum país à excepção, por vezes a gente fala de locais longuinquos e bastante remotos quando muita das vezes a gente tem muito perto de nós lugares excepcionais, eu em especial sempre fui uma pessoa de dar mais valor ao que estava fora do alcance das minha possibilidades até que um feliz dia decidi dispensar uns bons fim de semana para ir explorar o norte de Portugal, fiquei extremamente impressionado com certos locais que conheci, locais que eu nunca imaginara existirem, locais que nem nos melhores sonhos a gente imagina.
Vendo isto a todos aqueles que quiserem perder uns fins de semana para ir conhecer o norte de Portugal aconselho vivamente especialmente os belíssimos vales do rio Douro.
Um abraço a todos os leitores
Marcio em 4 de fevereiro de 2009 às 22h06

Marcio... normalmente conhecemos melhor o que está longe... para ver o que está perto temos sempre a sensação que podemos ir a qualquer momento... e acabamos por nunca ir... tipico :) obrigado pelo comentario.
bjr em 4 de fevereiro de 2009 às 23h40

Esta viagem não só é forte para o leitor, mas ainda mais para o escritor. Fábio Marchioro, meu marido, publicou um romance entitulado Geena sobre uma catástrofe em Curitiba, cidade onde morávamos. Até hoje ele não consegue passar pelas ruas que descreveu sem "ver" tudo. Para poder escrever ele viveu as experiências do livro! Não tenha dúvida que seguir os passos do escritor é uma viagem inesquecível. Pude fazê-lo em primeira mão. Obrigada, Priscilla, pelo seu artigo!
Nancy Marchioro em 30 de abril de 2009 às 01h10