garry winogrand: uma fotografia

Pelos padrões da estética pop da era virtual, esta fotografia não teria salvação nem direito a claque: embora esteja quase lá, não tem máxima profundidade de campo; não tem nem deixa de ter algo a que se possa chamar uma definição impecável; é muito escura; do céu podia dizer-se que está rebentado; as pessoas estão em contraluz; e, last but not least, está torta.
Mas tem, pelo menos, dez histórias, além daquela do sol longo e da outra das estrelas que desaparecem no chão sombrio. Um homem, três mulheres e uma criança, aquilo que pode ou não ser uma família, um casal no reflexo da montra, um táxi, um autocarro. Los Angeles para sempre no fim de um dia de Verão, e tanta gente, tantas situações, que bem pode conter mais do que uma cidade, mais do que um tempo.
Quando primeiro a vi, aquilo de que mais gostei foi caber nela tanta coisa. Como já estava ligada à internet, amei-a também por poder tanto contra o tédio do irrepreensível e do vazio.

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20 comentários
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Sou um fanático por fotos... Gosto de fotos e imagens dos mais diversos tipos não ligo muito para as criticas... Quanto a esta, realmente ela pode até não ter direito a salvação, mas me agradou de uma forma bem legal. Gostei pakas^^
Rafael R em 19 de janeiro de 2009

Eu pergunto-me se a fotografia fosse tirada por um zé ninguém, se ela estaria aqui. Irrita-me apreciarmos "boas" fotografias somente depois de saber se o fotógrafo é conhecido ou não. Acho até um pouco cínico por parte de todos nós (eu coloco-me no lote de cínicos, claro).
bjr em 19 de janeiro de 2009

Talvez não estivesse aqui porque um zé ninguém não conseguiria fazê-la chegar até nós. Não iria entrar num livro de uma editora, por exemplo, daqueles que nós podemos comprar. Portanto, seria mais uma limitação 'material' que propriamente de reconhecimento. Hoje em dia, talvez o flickr conseguisse contornar essa questão. Agora, mesmo numa foto com 'erros técnicos' como esta, a verdade é que quando a olho percebo que o fotógrafo viu alguma coisa. Um zé ninguém pode ter sorte e VER alguma coisa, e disparar no momento certo. Não deixa de ser uma boa foto. Um dia invento um fotógrafo macedónio e venho para colocar boas fotos de amigos meus :)
tajana em 19 de janeiro de 2009

Em tempos tive uma “rubrica” num site só com fotos de zés ninguéns :) Não é fácil nem difícil, é um exercício giro.
Nas galerias do fórum rangefinders (descobertas mais recentemente) não faltam zés ninguéns com fotos interessantíssimas, bem longe do tédio da macro borboleta e do céu espectacular, que enchem até à náusea a maioria das galerias de pessoas normais. E bem vistas, nem são galerias exclusivas de rangefinders, há fotos de todo o tipo de máquina.
Aquilo que me agrada no Winogrand, especialmente nesta foto – que na net surge sistematicamente mais clara do que é, não sei porquê, suponho que pela mesma razão das cores saturadas das reproduções da Frida Kahlo –, é ele ser tão pessoa normal a fotografar (ao mesmo tempo, era um doente, um viciado, e nem dava vazão aos rolos por revelar).
sao em 19 de janeiro de 2009
sao em 19 de janeiro de 2009

Bom, lá voltamos nós à questão do que é arte e do que não é. Isto não é arte.
Maria em 19 de janeiro de 2009

Provavelmente, nunca quis ser arte. Mas deve haver quem sinta a necessidade de legitimar o facto de gostar desta foto dizendo que ela é arte. 'Ser arte' não é, felizmente, o critério de valorização ou de fruição de todas as coisas.
tajana em 19 de janeiro de 2009

Também não é um tapete de Arraiolos. Nem um avião. Mas também não é o Super Homem.
Fotografia não tem de ser arte. Tem de ser fotografia.
sao em 19 de janeiro de 2009

Nem mais: "fotografia tem de ser fotografia". Mas essa aí, por alguns dos vários critérios que posso aceitar para definir "o que é arte", passa pelo filtro dos mais óbvios: É feita por um artista (o artista constrói a sua história artística), terá sido feita como tal (a intenção e vontade de arte, não o acaso do amador) e é aceite como tal por uma comunidade especializada (é legitimada, goste-se ou não deste facto). Não é uma foto de família, não é uma foto científica, não é uma foto jornalistica, etc. E além do mais, tem um conteudo muito denso, como é evidente pela prória foto e pelo texto que a acompanha aqui. Gostei muito!
Luis em 20 de janeiro de 2009

Maybe :) Tanto quanto li sobre o Winogrand, a intenção da arte passava-lhe um bocado ao lado. Ele fotografava porque se entusiasmava (e é por isso que é um dos meus heróis :D).
Um dos rótulos que lhe colaram foi o da "estética snapshot": a malta que precisa justificar tudo a querer dizer que o Winogrand (e outros) faziam umas coisas só aparentemente banais que, na verdade, no fundo, eram arte... Ou uma forma de dizer "todos podemos disparar à vontade, mas só sw alguns se dirá que fazem arte". Argh.
O Winogrand estava-se nas tintas.
Luís, eu faria esse mesmo raciocínio ("Não é uma foto de família, não é uma foto científica, não é uma foto jornalistica") mas depois concluiria, se tivesse mesmo de ser, que se trata de documentalismo.
sao em 20 de janeiro de 2009

Luis: pelas razões que aponta esta fotografia não pode ser considerada arte pese embora se lhe reconheçam alguns dos seus atributos que tão bem enumera mas que não estão presentes.
Não esqueçamos que a poética e a excelência técnica são muitas vezes confundidos como condição suficiente para ser arte. Nada a ver, não são.
E, sim, a fotografia é bonita mas podemos frui-la só por isso - ou só podemos fruir o que é Arte?!?
Maria em 20 de janeiro de 2009

sao: Percebo o que diz, mas acho que se a "intenção da arte" lhe passasse mesmo ao lado ele não teria participado em exposições e mostrado o seu trabalho em locais onde a fotografia é apreciada como arte. Acho que independentemente de a Winogrand não lhe interessar nada filosofar sobre arte, a sua atitude é a atitude genuína de um artista: obcecadamente criando a sua arte e movendo-se nos círculos artísticos onde lhe podem disponibilizar um palco.
Maria: Concordo que todos devemos fruir as coisas independentemente de haver um rótulo ou um certificado de ser ou não ser "arte". Aquilo que queria dizer é que a arte é um sistema que engloba obras de arte, artistas, público, críticos, etc, etc e o mais importante de tudo isto é que há um tipo que decide levar a vida a fazer obras (fotos, pinturas, esculturas, instalações...) e não as faz nos tempos livres ou de vez em quando por acaso. Por isso - e aí estou em desacordo consigo - acho que esta foto, para além de ter mais ou menos qualidade, é uma obra de um artista empenhado na sua actividade criativa e que para além do valor da foto em si esta tem o valor de ser um episódio no percurso do artista... Bom, mas nada disto tem importância, o importante mesmo são "as dez histórias além daquela do sol longo" que estão na fotografia.
Luis em 21 de janeiro de 2009

Não parece uma foto, parece mais uma fotomontagem, uma composição feita com outras fotos. A iluminação cruzada faz pensar nisto, e aquelas moças no meio da foto parece que estão flutuando. Eu olhei a foto e tive vertigens...
Cesar em 21 de janeiro de 2009

Adorei o comentário à foto, fez-me viajar por uns breves segundos, obrigado!
maisfotografia em 21 de janeiro de 2009

Maria:
Quer queiramos quer não, quer nos permitamos fruir fora e/ou dentro da arte, a foto do Winogrand é considerada arte e é considerada um clássico da fotografia de rua. Mesmo Winogrand, avesso aos rótulos, admitiu que se calhar era um artista :D:D
Eu gosto muito da foto ou não teria feito este post. Nunca perdi muito tempo a pensar se a considero arte. Gosto dela em primeiro lugar pelo prazer visual, básico, instintivo, que sinto ao olhar para ela, como gosto de cores ou de formas ou de texturas. Depois disso, considero-a riquíssima do ponto de vista da narrativa. É cheia de gente, cheia de conflitos que só a fotografia aparentemente suspendeu por um segundo, cheia de contradições. Por fim, esteticamente, acho-a redentora. Pelas razões que disse, não é?, e que a Maria parece conhecer, porque as coisas feitas com poética e excelência técnica, em regra, me enfadam de tão repetidas, de tanta preocupação em serem certinhas. Não gosto de coisas certinhas. E em vez de “é arte?” eu pergunto se fala e se me diz alguma coisa; se sim, ainda pergunto se me interpela; se sim, então gosto muito.
Luís:
Concordo com a ideia do tipo obstinado que vai criando coisas
César:
A iluminação cruzada é do sol reflectido na montra. O pé de uma das moças está no ar. É a que está a olhar para o tipo na cadeira de rodas. As vertigens são uma coisa boa. Das melhores coisas a sentir nesta fotografia, eu diria :D
Maisfotografia:
De nada Obrigada
sao em 27 de janeiro de 2009

Essa foto é antes de mais nada extremamente sensorial. Me passou uma vertigem tão grande por ser torta. Um desequilbrio, coisa interessante. Gostei muito da sensação.
www.palavraderedator.blogspot.com/
Pedro Garcia Tatim Neto em 2 de fevereiro de 2009

Pois é, Pedro. É o que eu peço primeiro às fotografias. Que sejam extremamente sensoriais, antes de mais. Que eu tenha de me recompor a seguir. :D
sao em 3 de fevereiro de 2009

A foto é excelente, é inclinada de propósito, como muitas do Winogrand, a inclinação serve para dar movimento e tensão à foto, e o fato de estar em contra-luz cria as sombras no chão que levam a um ponto de fuga que não poderia existir de outra forma.
Pode-se ter qualquer opinião, mas achar que a foto é ruim porque não tem um máximo de resolução e uma enorme profundidade de campo, coisa que aliás muitas vezes só serve para desviar o foco de atenção do objeto principal da foto, é opinião de quem não entende de fotografia. Por esses quesitos poderíamos descartar fotos geniais, de grandes fotógrafos ou não, mas que apesar de não se encaixarem nesse padrão, são fantásticas, porque fotografia, é, antes de tudo, enquadramento (que não precisa ser estático) e noção de momento.
www.cidadesinexistentes.blogspot.com/
Raphael em 23 de maio de 2009

melhor comentário neste post, Raphael, obrigada, soube bem ler. concordo inteiramente.
pois, mas essa ruindade atribuída às fotos sem essas características é a coisa mais comum hoje em dia.
lembrei-me deste post e da foto do winogrand numa altura em que andava pela internet à procura de uma lente para uma máquina minha e, num fórum, um tipo estava a vender uma lente dessas, deixava uma foto (digital) da lente e pedia desculpas pela falta de profundidade de campo... e eu pensei "se o que ele quer mostrar é bem visível, por que raio é que a fotografia teria de ter profundidade de campo?" e comecei a ler, li imenso e descobri estes clichés da estética digital :D
já a fotografia ter de estar muito direita (e o enquadramento estático de que fala) são clichés mais antigos que a era digital, temo. há uns dez anos, ainda a maior parte das galerias na net era analógica/digitalizada, já havia a caça à fotografia torta :D:D:D
sao em 25 de maio de 2009

Você tem toda razão, sao, alguns desses clichês são mais antigos, talvez eles nasçam da confusão entre a fotografia como veículo de informação (onde se espera clareza e objetividade) e forma de arte (onde a liberdade visual é maior).
Raphael em 25 de maio de 2009