A república de Platão: uma alternativa para a organização social grega em IV a.C.

Publicado em artes e letras por bjr em 8 fev 2009 | 23 comentários

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Este artigo é contributo de uma leitora do obvious. Patrícia Posch é natural e residente no Brasil e escreve no seu recentemente criado diaphanes. Saiba como publicar um artigo.

Platão, famoso filósofo da era socrática, não elaborou apenas teorias sobre a moral e a ética humana, mas também sobre as diversas relações entre os membros de uma sociedade. De fato, sua filosofia genuína começa quando escreve o diálogo "Apologia de Sócrates". Nele, torna-se público o discurso que Sócrates usou no dia do seu julgamento, quando teve que beber a famosa taça de cicuta - na época, esta era a forma de punir os condenados em Atenas. Do que se sabe hoje em dia, Sócrates foi o primeiro filósofo que focou seus pensamentos e teorias em contextos humano, social e moral. Antes dele, a filosofia limitava-se a sugerir hipóteses e buscar pela verdade sobre a criação do universo e de tudo o que nele existe, a exemplo da teoria atômica de Demócrito, usada até hoje em estudos científicos.

Ainda sobre Platão, quem nunca ouviu a história da alegoria da caverna, onde os homens estão acorrentados e tudo o que enxergam são sombras, projeções do mundo real? Essa é uma das (se não a) histórias mais famosas de Platão, em que se explica sua teoria do mundo das idéias.

No entanto, poucas pessoas sabem que a alegoria é apenas uma parte de um trabalho muito maior, que gerou diversas controvérsias na Grécia antiga. Ela é uma passagem citada em "A República", marco na obra filosófica e política de Platão. Nessa obra, são expostos uma metodologia de governo e modo de vida que, segundo o filósofo, seriam o ideal para a Grécia. E ideal não apenas por colocar filósofos e pensadores como os governantes principais do Estado, e sim por criar toda uma metodologia de vida que prepara os indivíduos para ocuparem posições sociais na comunidade.

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Tudo começa já no início da vida. Para que fosse evitada a influência de maus hábitos, os filhos seriam tirados de suas mães já no momento do nascimento. Até os 10 anos, as crianças praticariam atividades físicas e estudariam música - essa como uma maneira de moldar seus sentimentos e caráter. Dos dezasseis aos vinte anos, o lado religioso seria trabalhado a partir do entendimento de que Deus está presente em tudo e é o principal fator de progresso de uma nação, uma vez que dá coragem e calma aos seres humanos. É importante lembrar que, para Platão, não é possível provar a existência de Deus, mas que sua suposição só vem para o bem.

Conscientes de que o bem é, na verdade, o conhecimento do mal, os jovens estariam preparados para a primeira Grande Eliminação. Esse é o grande começo da real divisão na República platônica, onde os que não obtiverem bons resultados em testes práticos e teóricos estariam fadados a trabalhos econômicos e operacionais, sendo designados como a classe de "guardiões" (ou "soldados"). Para os bem-sucedidos, mais dez anos de estudos e outro grande teste; desta vez, os que passassem poderiam finalmente unir-se à classe dos filósofos, dedicando-se integralmente ao estudo da filosofia e do mundo das idéias.

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Até esse ponto, toda a metodologia social de Platão não parece muito diferente do que se conhecia na época. Não em termos de etapas do processo, mas sim na questão da divisão da sociedade, ficando tal separação ainda mais evidente pela divisão das funções de acordo com o desempenho de cada um. O que realmente a difere, portanto, é um outro teste ao qual os indivíduos classificados como aptos a se dedicarem ao mundo da filosofia teriam que se submeter. Antes de se tornarem governantes do Estado - isso deveria acontecer por volta dos cinqüenta anos de idade - os indivíduos deveriam "provar" como é ser mais um no meio da multidão, tendo que experimentar e observar tudo o que acontece na sociedade e lutar para conseguir comida e moradia.

A conclusão sobre a sociedade perfeita de Platão é simples: todos teriam oportunidades iguais, porém ocupando cargos diferentes na sociedade. Aos dirigentes do Estado, não seriam concedidas regalias. Muito pelo contrário: dormiriam todos em um mesmo local, alimentando-se de culinária vegetariana e possuindo apenas aquilo que fosse necessário para sua sobrevivência. Aos demais, a renúncia de certas virtudes em prol de uma comunidade era bastante clara: sexo, apenas dos trinta aos quarenta anos (homens) e dos vinte aos quarenta anos (mulheres).

Como justificativa para sua teoria, Platão dizia que a justiça, naquela época, era nada mais do que um jogo de interesse, cujas regras eram criadas pelos governantes e fundamentadas em seus próprios interesses. Sendo assim, o que Platão fez foi criar um sistema que julgou ser justo e adequado à necessidade da sociedade naquela época, norteado pelas teorias que havia desenvolvido em seus estudos sobre a moral humana.

(Baseado no diálogo “Politeia", escrito por Platão entre 380 e 370 a.c.)

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23 comentários

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Excelente artigo!
Muito bem escrito e fundado.
Você mostrou bem a divisão das classes e frisou bem o caráter de igualdade que Platão pregava, em que todos tinham reais possibilidades de se tornarem Magistrados.

Está de parabéns, Patrícia.

André Luís em 8 de fevereiro de 2009

Muito Bom mesmo. Sempre bom ver o interesse pela filosofia, ainda mais hoje em dia em que parece que para muitos pensar e falar sobre pensamentos e conhecimentos nao parece estar muito ''na moda ''. Com certeza discordo de muitas ideias de Platao, mesmo pensando que ele as fez baseadas para aquela epoca, mas a ideia sobre o estado perfeito que ele publica em '' A Republica'' realmente parece, a meu ponto de vista completamente radical. Porem, creio que o mais importante que se pode aprender da era socratica eh a importancia do pensar. Nao aceitar doutrinas de forma cega, mas sim pensar e quem sabe chegar a conclusoes mesmo diferentes de nossos mestres, assim como fez Aristo.
Enfim, valeu pela materia, Patricia, me colocastes a pensar um pouco mais antes de dormir :)

Marcel em 8 de fevereiro de 2009

Excelente! Parabens pela argumentação, Platão continua atualíssimo.

Hugo em 9 de fevereiro de 2009

Se bem me lembro do que aprendi na escola, os poetas estavam excluídos da sociedade que Platão defendia - creio que eram considerados perigosos.

taja em 9 de fevereiro de 2009

Gosto muito do "Obvious". Tenho lido artigos com muito interesse. Pena os da m/ geração (anos 60) estarem pouco virados para estas "notícias"!!!
Parabéns por este artigo. Acho que precisavamos, agora, de um Platão a iluminar os nossos políticos.
Margarida

Margarida Pinheiro em 9 de fevereiro de 2009

Adorei, Patricia nos mande mais desses artigos, bom
ler coisas que nos deixam com uma sensação de quero mais.

Nery em 10 de fevereiro de 2009

Mas é importante lembrar que a República não é metonímia para Platão e que, se por um lado na República a discussão em torno do Bem em si mostra um certo otimismo dizendo que é possível ao homem atingir o conhecimento do pleno; por outro, não é bem assim em todos os diálogos, como o Teeteto ou mesmo o Banquete, de acordo com algumas passagens.

Flora em 11 de fevereiro de 2009

Platão é clássico, o que falta para a juventude atual, que vem aceitando as opiniões e as manias coletivas sem cogitar para que serve.

Francisco Amado em 17 de fevereiro de 2009

Acho que faltou dizer que as artes tinham papel secundário no modelo pensado por Platão, que aliás quando colocado em prática levou Platão a ser preso e banido da sociedade que ele mesmo planejou.

Ricardo Meier em 23 de fevereiro de 2009

Patrícia, a leitura que Marcel Detienne faz de "A República" e das "Leis" não corrobara essa versão que você apresenta. Depois de os mitoplastas, orientados pelo governante, produziram os mitos (mitoi e logoi) que serão murmurados em toda e por todos da Cidade Bela, mitos cujo objetivo é enfeitiçar, encantar e convencer, para que apenas a voz do governante permaneça audível intramuros, os poetas perambulantes devem ser enxotados da cidade, pela mesma razão. O efeito encantador seria prudozido pela música (três coros, por idade). Os velhos, imprestáveis para o canto, tornar-si-iam pedagogos dos ainda muito pequenos para o mesmo fim - e o ciclo se fecha, o grande oroboros da instrumentalização política do mito. Assim, que beleza, trata-se de um "Admirável Mundo Novo" pré-huxleyano, mas onde as doses administradas nos fetos são substituídas por mitoi, logoi e "canções" mitoplasmáticas.

A certa altura, perguntam a Sócrates se o povo acreditará nos mitos assim engendrados. Resposta: "essa" geração talvez não, mas seus filhos e netos, batata!

Maquieavel que nada!

(Cf. Marcel DETIENNE, A Invenção da Mitologia).

Osvaldo Luiz Ribeiro em 9 de abril de 2009

Foi bem colocado o ponto do Osvaldo.
Mas um detalhe muito importante que precisa ser lembrado em qualquer interpretação de platão, é o fato de que olhamos para esse sistema com as lembranças de um passado histórico ditatorial e tirano que não tem a relação conceitual que o texto evoca.

Na Bela Cidade, o filósofo (ou ainda, os filósofos, o texto não deixa clara a quantidade de líderes) é o governante não por ganância ou por ego, mas porque é o único que pode governar.

O filósofo passa décadas na busca -e a obtenção- do bem em si.
E, uma vez que o alcança, é o seu dever (e não o seu objetivo) voltar ao âmbito político e liderar os cidadãos que não têm a experiência do Bem em si.

Então, essa administração que parece ditatorial e exclusivista é, na verdade, a tentativa de uma liderança pelo conhecimento do bem e, se temos essa sensação de tirania pelas regras tão rígidas isso deve se dar ao nosso passado histórico.

Flora em 9 de abril de 2009

Olá, Flora

Permita-me tornar a questão mais crítica. É compreensível que seja testada a hipótese de um Platão bem-intencionado. Decerto, contudo, não é essa a leitura que Marcel Detienne faz, mas sempre se pode estar enganado. Até ler "A Invenção da Mitologia", eu recorria, aqui e ali, a Marx, para a compreensão de certos processos da História Antiga (relativos à Pérsia e a Judá). Depois de Detienne, não preciso mais. Além disso, vale lembrar a Tese 3 de "As Teses sobre Feuebach", de Marx: "(...) as circunstâncias são mudadas pelos homens e (...) o próprio educador deve ser educado". Ora, a mitologia de Platão, contudo, faz dele um-sem-necessidade-de-ser-educado, um auto-esclarecido: a rigor, um "sacerdote" da verdade. Os demais homens - todos - são reduzidos à condição de não-auto-determináveis, submetidos à ideologia do "Mito da Caverna", que esconde a figura do filósofo/sacerdote: se as almas são amnésicas, como não a do filósofo? Talvez seja pôr peso demais sobre os ombros de Platão, mas por que razão não levar a sério o fato de que ele é um homem a serviço do Estado, com todas as implicações que isso tem para a época?

Permita-me uma outra consideração, mais arriscada. Em Judá, cerca de 520-450, operou-se uma das maiores transformações programáticas de uma cultura. Sob o regime persa do controle dos povos submetidos por meio da ideologia religiosa dos próprios povos submetidos (Marduk, na Babilônia, Yahweh, em Judá etc.), o Templo suprimiu todos - absolutamente todos - os acessos da população ao "sagrado" (acabou com todos os deuses, exceto um, todas as imagens, todos os altares, todos os templos, todos os sacerdotes não-oficiais, todas as sacerdotizas e, finalmente, todos os profetas). Três instrumentos ideológicos foram empregados: narrativas de "história" ideológica, mitos e hinos. Naturalmente que tal programa contou não apenas com o apoio do Império Persa, mas com sua própria gestão. É Ciro quem Yahweh traz pela mão (Is 45,1), o que, em termos políticos, deve ser lido ao reverso - "Ciro" articula as ações de Yahweh.

Quando li Detienne, a leitura que ele faz de Platão, de "A República" e das "Leis", percebi que o que Detienne via, ponto a ponto, eu vira em Judá. Tudo. Ml 2,7 afirma que é da boca do sacerdote, e só dela, porque ele, e mais ninguém, é o mensageiro de Yahweh, o "iluminado", que sai o conhecimento - porque os profetas reclamaram, foram perseguidos e enxotados (acaba, aí, a profecia - Zc 13). Além disso, exatamente como Detienne assevera, com inúmeras citações, "A República" prevê a aplicação do "programa" por meio de logoi, mitoi e hinos, exatamente o mesmo que houve em Judá. O que Detine vê, como PROGRAMA, em "A República", eu vejo, APLICADO PELA PÉRSIA, em Judá, de 520 a 450. Sem tirar nem pôr - a diferença é que Platão manda chutar traseiros de poetas, enquanto o Templo, de profetas.

Moral da história. Não me surpreenderia se Platão tivesse simplesmente sistematizado os princípios da "gestão" mitopolítica da Pérsia, tendo acesso a ela por meio da guerra, notória, entre a Grécia e a Pérsia. Se eu estiver certo, não caberia em Platão a imagem de um arauto do saber desinteressado, do guardião das virtudes, antes, o mérito de ter sistematizado por escrito o que, por primeiro, a Pérsia fez: como controlar um povo por meio de mitos, narrativas e hinos.

Seja como for, Agostinho aprendeu bem, e, como na Cidade Bela, sua "Cidade de Deus" pode ser lida, pelo cristão engajado, como um modelo divino de perfeição programática. Bem, há controvérsias...

Um enorme prazer esse dedo de proza,

Osvaldo Luiz Ribeiro

Osvaldo Luiz Ribeiro em 10 de abril de 2009

Adoreeeeeeeeeiiiiiiii
Obrigada pelas informaçoês
pena Q NÂO SERVIRAM PRA NADA!!!!!!!

MIL BJOSSSSSSSS
AMIGA!!!!!

Carlota Joaquina em 17 de abril de 2009

Carlota, provavelmente você é "fake", com um nome desses... Não tem importância - todos temos o direito de nos encondermos. Não tenho a intenção de deter a verdade. São contrapontos. Válidos? O juízo crítico deve decidir. É assim que o conhecimento caminha. Saúde e paz para quem quer que você seja.
Osvaldo.

Osvaldo Luiz Ribeiro em 17 de abril de 2009

vocÊs teriam que falar coisas mais completas sobre os livros não esse monte de lixo

eliza em 29 de abril de 2009

Nada gentil de sua parte, eliza. Se, ao menos, apontasse concretamente para o que considera "lixo", talvez pudesse haver algum diálogo, não?

Osvaldo Luiz Ribeiro em 29 de abril de 2009

os comentarios são interessantissimos pois adoroo saber sobre a vida de socrates e nao da onde existem pessoas capazes de chamar algo tão importante para nos de "lixo" isso realmante é falta de sabedoria

ana paula em 22 de julho de 2009

ai que alivio pois aqui encontrei um trabalho quase pronto sobre platao .....


larissa em 26 de agosto de 2009

excelente artigo ! Salvou minha pele no trabalho de Filosofia .. uunf

parabéns !

Maria Eugênia em 8 de setembro de 2009

ADOREI O TEXTO, voltei a estudar aos 40 anos, e estou tendo aula de filosofia pela primeira vez, e estou apaixonada, sempre que posso estou a olhar a net para saber mais sobre estes filósofos magnificos.

josi em 27 de setembro de 2009

O que aconteceria se de repente, o Congresso Nacional, mas precisamente no legislativo fossem obrigados a legislar de acordo com a República de Platão, será que ficaria alguém por lá? Certamente que sim, uns dois ou três dentre aquela multidão de hienas devoradoras de verbas públicas.

Vicente de Paula Pinheiro em 29 de setembro de 2009

ameiiiiiiiiiiii

geovanna oliveira em 6 de outubro de 2009

Só para "situar". n`A República, Platão divide os cidadãos em tres níveis não-estanques e não-hereditários (não confundir com castas nem com classes sociais-econômicas): guardiões, guerreiros e artífices.
Os guardiões são os governantes que para tanto teriam que, por esforço próprio, mediante a educação, não estagnar-se no nível de artífice e nem no nível de guerreiros. Para Platão o governante teria que superar os limites do sensível (opinião) e ir até o inteligível "beber" diretamente na fonte do Bem (Idéia ou Forma Superior). Como? pela filosofia. Assim o governante é o guardião das Leis, da Constituição, é mais capaz, íntegro, infalível (porque tem o Conhecimento) é o filósofo.
Guardião= Governante=Filósofo.
No mais, é um bom texto, bons comentários.
Obrigado pela oportunidade de estudar cmvoces. Abraços! Ademir

Ademir em 19 de outubro de 2009

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