Palavras para falar do mundo

Publicado em outros por tajana em 19 fev 2009 01:29 PM | 14 comentários

 Ideias Linguagem Metaforas Mundo Palavras
A Árvore da Vida, de Gustav Klimt

Precisamos de metáforas para comunicar ideias complexas. A arte, a religião e a ciência sabem-no desde há milhares de anos. Círculos, pirâmides, árvores, espirais, teias. Tive a oportunidade de me dar conta duma mudança na linguagem (diriam os adeptos não sei de que escola filosófica: no paradigma!) durante o tempo da minha vida, que não é ainda assim tão longa. Ver esta mudança nas palavras faz-me sentir que vivemos uma época que vai deixar alguma marca, e entusiasma-me, tal como me entusiasmou e surpreendeu ver a queda do muro de Berlim e a libertação de Nelson Mandela, já lá vão 20 anos.

Voltando ao uso das imagens e partindo para um exemplo concreto: durante o meu tempo de escola, a metáfora mais usada era a da árvore. Havia a estrutura em árvore da linguística; havia a estrutura em árvore das chaves dicotómicas da biologia; havia a árvore dos organigramas das empresas; havia, e ainda há, os directórios dos computadores pessoais e dos primeiros portais de Internet. Mas quando se vulgariza e multiplica a internet, começa a tornar-se comum uma nova metáfora, que se tem vindo a manifestar, mesmo a nível da conversa popular, noutras áreas: a rede, ou a teia.

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O primeiro esboço que Darwin fez da sua 'árvore da vida'

Gosto mais de teia, por ter uma ligação orgânica ao universo animal. Temos a rede/teia da world wide web; temos novos desenvolvimentos na biologia que tendem a flexibilizar a árvore da vida de Darwin para um modelo mais próximo da teia - no sentido em que não há um caminho único de A a B, e vários pontos se cruzam em vários nós, comunicando; temos as redes neuronais. Desconheço se a linguística já tem também um modelo que se assemelhe à teia para descrever o modo de funcionamento da linguagem.

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Não se trata apenas de substituir uma palavra por outra, mas sim de substituir uma visão do mundo e da sua complexidade por outra. O modelo da árvore é tendencialmente mais hierarquizado, o que corresponde também a uma visão política e a uma forma de organização e relacionamento social. É possível que seja mais funcional, de um ponto de vista pragmático. O modelo da teia reconhece a dificuldade de fazer representar toda a complexidade de um sistema vivo - e a internet, sendo feita de linguagem, é também um sistema vivo - através de relações unívocas. Por isso mesmo, é também menos tranquilizante, porque não tem um princípio e um fim, e muitas vezes nem tem um centro.

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Nuvem de tags

O que virá a seguir? Há dias pus-me a pensar no modelo das tags. Será uma outra versão da teia, ou uma nova metáfora: a da nuvem? Já temos, desde há décadas, as nuvens atómicas (as metáforas invadem diferentes áreas do conhecimento em épocas diferentes, e convivem). Se o modelo é o da nuvem, não é mais inquietante e mais solitário que a teia? Teremos de esperar que a ciência explore partículas ainda mais pequenas, na nossa tentativa de percebermos a estrutura do universo, para lhe pedirmos emprestada uma nova metáfora? Uma coisa é certa: não podemos estar atentos à natureza e mudanças do mundo sem estarmos atentos às palavras que usamos para o explicar.

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14 comentários

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Muito bom, Tajana. É das melhores coisas que já escreveste aqui.

Rufus em 19 de fevereiro de 2009 às 15h03

Mas, olha, enquanto na árvore pousam pássaros e voltam a voar, na rede caem insectos e lá se finam…

Já na/da nuvem podemos entrar por um lado e sair pelo outro.

sao em 19 de fevereiro de 2009 às 16h44

Começar um artigo com obra de Gustav Klint, impossível não lê-lo, te agradeço pelo comentário...
Mto bom !

dehy coutinho em 19 de fevereiro de 2009 às 20h38

Nunca tinha pensado nisso...muito bem observado :)

Plasticine em 19 de fevereiro de 2009 às 22h00

A não ser que seja uma nuvem daquelas de filme de terror, ho ho ho...

tajana em 19 de fevereiro de 2009 às 22h42

Amo as palavras e o enredo. Amo a teia fiada, amo a imagem que permite a palavra. Excelente o que escreveu aqui.
Um beijo

Maria Quitéria em 20 de fevereiro de 2009 às 04h32

Que beleza de artigo, Tajana. Sobre árvores, teias, nuvens e afins há um livro (filme também) de que gosto bastante: Ponto de Mutacao.

isabella em 25 de fevereiro de 2009 às 17h30

Obrigada (a todos). Isabella, não conheço, vou investigar.

tajana em 25 de fevereiro de 2009 às 23h19

Efeito Red é um sentimento que vem participar da nossa atenção
e dominar nossos sentidos, num sentido contundente.

Ele chega sem autorização, não traça planos, nem explica o motivo da sua ausência.

Também não anuncia se ficará por algum tempo ou se permanecerá para sempre. Nem onde.

É uma entidade infinitamente mais poderosa do que a nossa vida
e ditadora dos nossos passos.

Marcelo de Castro em 27 de fevereiro de 2009 às 01h17

Ponto de vista no mínimo inspirador! Confirma a forma curiosa como as observações mais simples tendem a ser as mais acertadas, menos sujeitas às armadilhas de nossa pretensão de "dar conta do recado" a qualquer custo.

Conrado Roel

Conrado Roel em 3 de março de 2009 às 02h23

Vc escreve muitíssimo bem. Seus artigos-crônicas são da melhor qualidade.
Li uma, depois li a segunda e terminei lendo quase todas. Achei realmente pertinente a observação de que as Tags nos deixam "no ar", já que são nuvens, rsrs. Adoro a idéia de que se modifiquem a partir da ação dos usuários e que não tenham centro ordenador.
É isso aí, viva a instabilidade do ser humano.

mila goudet em 13 de julho de 2009 às 13h58

Mila, obrigada, fico contente por gostar.

tajana em 14 de julho de 2009 às 00h34

Bem escrito e poético o artigo. Foi um prazer lê-lo e senti-lo.

Livia Costa em 22 de setembro de 2009 às 18h01

Penso que a árvore, a teia e a nuvem remetem mais que uma relação, mas uma força que nos projeta para a reflexão do que vivemos e sentimos, das tramas que traçamos, das sementes que plantamos e dos frutos que colhemos esperando por novos dias, novas perspectivas, as vezes com nuvens bem carregadas outras com a leveza que nos faz imaginar desenhos em suas plumas brancas...

Mônica Soares em 25 de outubro de 2009 às 22h11

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