kidults: crianças grandes e umas nostalgias nossas

Publicado em outros por prill em 31 mar 2009 | 11 comentários

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Tenho compartilhado através de alguns dos meus últimos artigos meu olhar fascinado sobre alguns projetos artísticos e afetivos que exploram a nostalgia da infância e como eles convivem de maneira inusitada com a visão que se tem ou tinha da chamada vida adulta. Os painéis de pixelArt, os colecionáveis cube-e-craft e mesmo as esculturas de bolo foram assuntos escolhidos que se tocam numa mesma motivação: tentar observar mais de perto que curiosa tendência é essa que tem trazido irreverência e leveza para dias tão cheios de engarrafamentos, low profile e objetividade.

O nome Kidults foi inventado pelos publicitários especializados em captar quais serão as futuras demandas do mercado, ou seja, caras contratados por grandes empresas e shopping centers para dizer o que vai ser pesadamente consumido daqui a não sei quantos meses. Esses profissionais perceberam, e foram logo seguidos por sociólogos e aparentados, que a primeira década do século XXI seria um período voltado para as lembranças de um tempo em que, parece, éramos infinitamente mais felizes do que hoje.

Lembro que, um pouco antes do fim dos anos 80, eu e minha família viajamos para São Paulo para assistir ao casamento de uma prima, e a coisa mais forte que me ficou daqueles dias não foi o burburinho das mulheres, nem a cerimônia, muito menos a febre me atacou durante dias pela falta de costume com o clima; inesquecível para mesmo foi a primeira vez que vi um vídeo game. O noivo, atualmente primo por tabela, não saída de junto do Atari nem para comer, nem para cumprimentar os parentes e muito menos para abrir presentes. Jogava Enduro incessantemente e minha prima ficava desesperada, as senhoras presentes balançavam a cabeça negativamente. Eu podia não ser nem um projeto de pessoa, mas aqueles carrinhos quadrados tinham um poder que mesmo eu não sendo nem um projeto de pessoa podia perceber. Então fui apresentada ao computador na escola e a coisa mais fascinante que ele fazia era ligar um ponto ao outro através de uma reta. Era lindo, eu mal dormia quando tinha aula de informática.

Pensávamos nos anos dois mil como se fosse um ponto inexistente no tempo, “só se for no ano 2000”, se dizia muito. A Guerra do Vietnã tinha acabado, veio o verão do amor, e a ditadura devastou o país feito uma necrose, mas então desaparecia como uma doença psicológica. O mundo vivia a expectativa de quem está convicto de não cometer o mesmo erro, jurávamos que a História servia para ensinar e tínhamos aprendido. Até Cuba havia conseguido se tornar um lugar bacana.

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Mas os anos dois mil chegaram e apesar do avanço tecnológicos, farmacêuticos e nas comunicações, a modernidade fez as malas no dia em que os mesmos erros cometidos derrubaram duas torres gigantes. Desde então a coisa de continuar com esperanças no futuro começaram a fazer pouco ou nenhum sentido porque estamos vivendo o futuro mas não voamos e nem somos estupidamente felizes como quando as Barbies tinham de se casar com o GI Joe por falta de opção melhor ou quando gravar fitas K7 ficou fácil depois do microsystem.

Os adultos do presente são filhos de pais que, em geral, são mais tolerantes ao diálogo e às liberdades sexuais. Pais que não vêem problemas nos filhos adiarem a saída de casa e eles realmente não saem, se possível, até que decidam formar uma nova família. Esses pós-adolescentes e adultos trabalham e empresas administradas por teorias não-mecanicistas, preferem a funcionalidade, a objetividade e a preservação da integridade individual de seus empregados, mesmo se eles forem operadores de call center. Toda boa companhia que se preze hoje tem de ser cool, tem ao menos de aparentar.

A liberdade para montar um espaço com fotografias, cantos de socialização entre os colegas, happy hours e satisfação profissional. Tudo isso concorre para que possamos e queiramos ser mais lúdico, aí, qual o problema em ter tudo da Hello Kitty? O que te impede comprar calotas Ferrari originais para a sua coleção de carrinhos? Em contribuição, há ainda um exército bem posicionado de designers e artistas plásticos debruçados sobre o tema, dispostos a extrair dele um impacto visual que comprove serem produtos infantis, mas só para maiores.

Longe de ser uma síndrome de Peter Pan, o fenômeno dos Kidults não nega as responsabilidades da vida adulta e trás novas conciliações para os papéis pai/mãe; na verdade, demonstra que esses conceitos mudaram muito: cabe agora alguma irreverência, algum colorido, criatividade e permissão para transitar entre tempos e idades onde seja possível repensar algum refúgio novo para liberdade e felicidade. Algum refúgio velho para diversão.

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11 comentários

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Muito bom texto ;)
Obrigado.

Século XXI. E não XIX.

Danilo Riot em 31 de março de 2009

A vida é feita de ciclos e acho que vamos regressar aos brinquedos mais simples pois as crianças começam a ficar saturadas das tecnologias.

João Pereira
www.planetalima.com
http://blogplanetalima.blogspot.com/

João Pereira em 31 de março de 2009

Acho mais que os Kidults são o reflexo de uma sociedade triste e insatisfeita, que precisa ainda de pessoas que pesquisem o que vai ser consumido desenfreadamente na próxima temporada e que dará a ilusão de satisfação e felicidade. E com tudo isso, mais uma vez alguns poucos enchem os bolsos de dinheiro e, garanto, não são os consumidores de brinquedos para adultos. E mais uma vez a máquina do sistema continua funcionando, com destruição das torres gêmeas e tudo. Foi triste, sim, mas acho que não foi uma quebra de paradigmas para a humanidade. E não creio que as pessoas no mundo mudaram a vida por causa deste fato. Todo mundo continua a consumir para ver se fica mais feliz.
Estou lendo um livro que tem bastante a ver com o que você escreveu, chamado O desaparecimento da infância, de Neil Postman. Ele fala da "adultização" das crianças e da infatilização dos adultos...
De qualquer forma gostei do tema do seu texto e de poder ter um espaço para a discussão.

juliana m. em 31 de março de 2009

É verdade, Pri: éramos infinitamente mais felizes do que agora e não é com objectos nostálgicos que voltamos a ser como antes. O que aconteceu connosco?

Rita em 31 de março de 2009

Belo texto. Mas ao contrário dos pessimistas de plantão, não penso que tal infantilização dos adultos será ruim para a sociedade, pelo contrário,prefiro ver como vc, pelo lado lúdico da coisa. Acho que nossa geração é muito mais feliz do que a de nossos pais. O sofrimento e a dor da vida continuam, mas pelo menos nos divertimos mais! Alguns podem chamar de consumismo. Ah, a velha visão retrógrada-reducionista marxista.

Léo em 1 de abril de 2009

Léo, quando chegou em meu email que havia mais um comentário sobre esse texto, comecei a ler o que você havia escrito animada, achando super legal as pessoas terem diferentes opiniões. Até a parte onde você estragou tudo ironizando a minha opinião com uma caricatura da "velha visão retrógrada-reducionista marxista". Tirando o fato de eu não ser pessimista, tampouco marxista, pensei em responder à você várias coisas sobre como não devemos julgar as pessoas sem conhecê-las. Para exercer o que penso, fui até o seu blog conferir suas idéias, de (inclusive) professor nas horas vagas, como eu. Depois de ler, achei que não valia a pena gastar meu tempo com mais texto além deste. Boa Sorte na vida.

juliana m. em 1 de abril de 2009

Me assusta menos a infantilização dos adultos do que a adultização das crianças.
É imprevisível saber que tipos de adultos se tornarão as crianças do século XXI. Tomara que sejam mais felizes do que nós.
Gostei do artigo, bom pra fazer a gente pensar e repensar muita coisa.

Loliv em 1 de abril de 2009

||Danilo,
obrigada pela correção, rapaz! é o que acontece quando só se lê coisas de mil oitocentos e antigamente.

||João,
sim, a vida é feita de ciclos, mas esse me parece inédito e não indica que as crianças vão se afastar da tecnologia; o caso delas é bem diferente.

||Juliana,
não acho que os kidults sejam fruto de uma sociedade triste, não no sentido que você fala. "desilusão" é uma palavra que se encaixa melhor do que "tristeza". sobre a sociedade de consumo, todo consumo depende de demanda, você acha que essa foi uma demanda criada? gostaria de saber o que você pensa a respeito.
realmente acredito que o 11 de setembro tenha sido uma quebra de paradigma. a cultura ocidental é o reflexo da cultura norte-americana e a desilusão deles, o fechar-se em torno de si deles, repercutiu em todos ao redor, em diversos níveis. gostaria de debater melhor as suas questões, mas é que já tomei bastante espaço. já já continuo

||Rita,
ao menos estamos tentando resgatar algo que imaginamos ter perdido. isso me anima a pensar que a maioria de nós deseja ser melhor e viver num mundo melhor.

||Léo,
já deu pra sacar que levo o fenômeno Kidult de uma forma bem otimista :) os brinquedos não são infantis, são reminicências infantis, mas não têm função de infantilizar; como "os simpsons" por exemplo. estamos nos dando mais abertura para nos divertirmos e para, e o que acho mais interessante, nos aproximarmos de forma mais sincera dos nossos filhos, sobrinhos etc.

||Loliv,
concordo contigo e, pensando agora, quem sabe a aproximação dos adultos com seu lado infantil não possa ajudar a frear esse processo? os dois mundos podem e devem se aproximar, imagino que esse diálogo possa fazer muito mais pela sociedade do que imaginamos.

prill em 3 de abril de 2009

Juliana, o que realmente me incomodou no seu texto foi a expressão: "Todo mundo continua a consumir para ver se fica mais feliz". Isto se assemelha muito a uma visão estrutural da sociedade em que a crítica ao capitalismo e ao consumismo são as tônica. Não disse em momento algum que a você ou qualquer pessoas eram marxistas, mas sim que apresentam uma "visão marxista", é bem diferente.

A crítica que vc faz é pertinente realmente, e foi bastante comum ao longo das décadas passadas, em que algumas pessoas buscavam sociedades alternativas e coisas do tipo. Mas acho que como a própria Priscilla colocou em seus comentários, seu texto não parte desta crítica, em tese pessimista (pois parte do princípio do vazio existencial do homem pós-moderno, que para se preencher tem que consumir para ser feliz), mas o texto fala mais da presença do lúdico na vida das pessoas, e apenas isto, ele não fala de vazio existencial, nem de consumismo exacerbado, isto é uma outra discussão.

No mais me desculpe se te ofendi de alguma forma, não era minha intenção.

Léo em 3 de abril de 2009

Adorei!

André Cardoso em 3 de abril de 2009

Eu vivi esta época, a liberação sexual estava quase explodindo mas eu não era tão politizado assim.

Eu poderia até criar uma perspectiva baseada em cinema e tecnologia, não fosse o aparecimento da AIDS, doença maldita que acabou com nosso grande sonho.

Dava para se prever a aproximação das pessoas, cds, dvds, hipertextos, livros eletrônicos, o que não dava para prever é que haveria uma globalização tão brutal, que as pessoas seriam tratadas de maneira pessoal, inclusive de menor poder aquisitivo.

O mercado comum europeu, o euro, isso nos faz pensar que talvez o sonho não tenha acabado. Talvez haja um interesse de sermos todos unidos, por mais impossível que isso possa parecer, o capitalismo poderá morrer e não precisaremos ficar refens do socialismo. Cada um poderá ir e vir de onde, e para onde, quiser, haverão tantos indexadores econômicos que será impossível esconder uma agulha num palheiro, quero dizer, na economia.

Janio da icommercepage em 10 de abril de 2009

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