Refúgio à beira-rio - leonard cohen

Publicado em musica por atol em 1 jun 2009 01:26 PM | 9 comentários

Leonard Cohen concerto

A fauna populacional no concerto de Leonard Cohen abrangia várias gerações, que ali se uniam com diferentes olhares e estímulos para o ver. Havia quem ali estivesse para ver um cantor de charme, estando prontos a entoar declarações de amor (totalmente subservientes) como "I'm your man", recordando momentos de sedução. Em relação a eles resta-nos a compaixão, pois dessas e outras canções, e dos momentos que estávamos prestes a assistir, havia tanto mais a retirar do que essa banalidade. Outros entravam agora, ainda de olhos meios fechados, na caverna de onde ecoavam as suas histórias.

O palco era imponente e negro, e no espírito luminoso daquele fim de tarde todos esperávamos a sua chegada. Cohen entrou palco adentro com a energia de um juvenil septuagenário, em trote. A energia que vinha de dentro dificilmente se traduzia em agilidade mas, para quem viveu atormentado, Cohen parecia ter finalmente encontrado o seu lugar. Tal como era o palco, vinha de negro, mas transbordava fulgor.

Depois da abertura com "Dance me till the end of Love" seguiram-se relatos de um mundo em declive: "I´ve seen the future, brother: It is murder". Ele fez futurismo para lá das portas trancadas. E nós orámos em reverência.

Fez-se acompanhar, derretido, por três jovens meninas, com vozes angelicais, que se ouviam suavemente por detrás da voz funda de Cohen, em quase todas as canções. Segundo Cohen eram elas quem entoava o mote da salvação: du ram dam dam du ram dam. Ele não se cansava de as incensar, tal como aos restantes membros da banda. Até na apresentação dos seus colaboradores a sua poesia se revelava. Um baterista, no mundo de Leonard Cohen, nunca poderia ser apenas isso, mas sim: um time keeper. Encontrou o refúgio nos pequenos deleites.

Leonard Cohen concerto

Apesar da grandeza do momento, por vezes, era difícil abstrair-me dos saxofones e guitarras exóticas que pareciam estragar a harmonia. E ficou a vontade de ouvir mais, e principalmente de o ouvir nos momentos em que foi mais genial. Ficaram de fora canções de amor e ódio. Restaram outras.

A generosidade revelada perante o público e os seus músicos fez conhecer um gigante cavalheiro, empunhando um chapéu que educadamente ia retirando a cada pausa, agradecendo infinitamente aos amigos que o tinham ido ver. Rendemo-nos. Para quem bastava vê-lo por breves momentos, e ouvi-lo proferir um verso sagrado, ficou uma missa inteira para recordar.

Agora podemos ouvir este mesmo espectáculo no CD/DVD ao vivo lançado pela Sony "Leonard Cohen - Live in London". Sem a magia proporcionada pela presença de Cohen as, por vezes incómodas, escolhas instrumentais pesam um pouco mais.

Inesperadamente, temos uma nova data para um concerto em Lisboa, desta vez no pavilhão atlântico, a 30 de Julho. À partida não será surpreendente, mas para quem não teve a oportunidade de estar no passeio marítimo de Algés o ano passado é com certeza a última oportunidade para ver Leonard Cohen.

Leonard Cohen concerto

Rita Cabral, Atol Magazine.

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9 comentários

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Adoro Leonard Cohen. Já está na minha lista de próximas compras ( o dvd ) lol

Gostei bastante da forma como está escrito. Obrigada por este momento bonito do meu dia.

Gala em 1 de junho de 2009 às 19h07

Na lista de cantores chatos e deprimentes, Leonard Cohen está, sem sombra de dúvida, no top.
David Fonseca segue-lhe as pegadas mas, sendo muito mais novo tem muito mais margem de progressão ao nível do deprimir.

Piadas à parte, muito bem escrito este artigo. Congrats.

Tiago DaCunha Caetano em 2 de junho de 2009 às 15h43

Obrigada pela descrição, Obvious. (Não tens nome por aqui, pois não?) Eu gosto imenso de Leonard Cohen. Já ouvi o seu disco Live in London, mas é como dizes, sem a sua presença perde um pouco.(Consigo imaginar isso, eu, que nunca o vi!)

Margaridaa em 10 de junho de 2009 às 08h37

Sem que isto queira dizer que não admiro alguns dos músicos que são notícia no OBVIOUS, não posso deixar de reparar que existe uma ausência de notícias da produção de música dos grandes compositores, principalmente dos vivos. Não existe notícias sobre os equivalentes a um Damien Hirst, um Picasso, um Max Ernst, etc. Adoro o OBVIOUS no que diz respeito às artes plásticas, arquitectura, design, fotografia, etc. Em relação à música só vejo notícias sobre a música popular. Porque não um artigo sobre John Corigliano, John Adams, Magnus Lindberg, Wolfgang Rihm, Philip Glass, Oliver Knussen, tantos outros e das mais diversas estéticas. Há para todos os gostos, entramos é noutro mundo! Fica a sugestão.

Jorge Salgueiro em 13 de junho de 2009 às 13h19

É uma excelente sugestão, Jorge, mas nem sempre temos colaboradores capazes de escrever sobre todos os temas, como compreende. Alguns têm saído e outros novos vão chegando... Faço-lhe outra sugestão: porque não nos envia alguns artigos sobre os músicos de que fala?

bjr em 13 de junho de 2009 às 23h56

é uma hipótese, mas confesso que não sei minimamente com quem estou a falar. bjr?

não é assunto que se trate na área de comentários.

Jorge Salgueiro em 14 de junho de 2009 às 14h19

desculpe-me senhor fonseca, mas comparar david fonseca a leonard cohen, é o mesmo que comparar cagalhões com bolos.

caminuysan em 14 de junho de 2009 às 20h14

Perfect!

flash em 6 de julho de 2009 às 17h54

Cohen é uma espécie de Bob Dylan de terno e gravata...um João Gilberto do folk

jose prado em 18 de setembro de 2009 às 14h16

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