Philippe Petit e o crime artístico do século XX

Publicado em outros por tajana em 7 ago 2009 | 13 comentários

 Philippe Petit e o crime artístico do século XX

Quando os nova-iorquinos levantaram o olhar e conseguiram ver lá em cima, a uma altura de 417m, um homem que caminhava por entre a névoa e sobre o vazio, consta que uns o chamaram anjo, e outros, louco. Philippe Petit, o jovem de 24 anos que a 7 de Agosto de 1974 levou a cabo um dos passeios mais arriscados de que há memória, explicou o seu acto de uma forma simples: "Não há um porquê. Quando vejo um sítio bonito para estender a minha corda, não consigo resistir."

Petit, um francês que fazia números de equilibrismo e malabarismo, caminhou sobre um cabo de aço que unia as duas Torres Gémeas de Nova Iorque (em fase final de construção) durante quase uma hora. Sem rede, sem cordão de segurança que o prendesse à vida. De um lado a outro, várias vezes. Sentou-se, deitou-se, saltou sobre o cabo, acenou a quem o olhava lá de baixo - e até falou com pássaros que passavam perto dele.

O golpe, que ficou conhecido como "o crime artístico do século XX", levou seis anos a preparar. Philippe e alguns amigos estudaram o edifício para perceber onde e como poderiam estender o cabo, e quais os problemas com que iriam defrontar-se; afinal, não havia qualquer possibilidade de fazer um ensaio. A oscilação do cabo àquela altitude, devido ao vento, era uma questão fundamental. Petit usou cartões de identificação falsos para, repetidas vezes, poder entrar no edifício e estudá-lo detalhadamente, bem como aos obstáculos de vigilância com que iria deparar-se. Para estender o cabo, decidiu-se pela utilização do antiquíssimo e elegante método do arco com flecha.

Finalmente, na manhã acordada, subiu ao piso 106, estendeu o cabo, pegou na vara de 9m que iria ajudá-lo a equilibrar-se e partiu. Como seria de esperar, os nova-iorquinos e as autoridades aperceberam-se do que se passava - que nome dar àquela coisa que estava ali a acontecer? A polícia veio e esperou (já que não podia ir ter com ele) que Philippe Petit regressasse ao ponto de onde partira. O equilibrista foi preso, julgado e condenado, por fim, a uma pena simbólica: fazer um espectáculo gratuito num jardim, para as crianças da cidade. Afinal, como se podem aplicar as leis do direito a um acto destes? As reportagens da época dão conta do espanto que tomou conta da cidade. Ao ver o vídeo acima, gostei particularmente do assombro e admiração do polícia que assistiu ao "crime", e que diz ter sido o espectáculo mais excitante que poderia ver. E o passeio de Petit teve uma outra consequência na vida da cidade: a de criar um laço afectivo dos habitantes com as torres, até então uma obra polémica e mal amada.

Pode haver anjos loucos? Creio que Philippe provou que sim - ainda que não fizesse talvez mais que dar resposta a um instinto. O seu passeio desenhou no céu de Nova Iorque a linha mais simples e mais terrivelmente bela: aquela que une no mesmo acto, num desejo irrecusável, sem rede, todo o peso da vida, toda a leveza da morte.

Tajana Avatar Tajana é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz. Saiba como publicar um artigo no obvious.
Assine a newsletter 267354rssfeed.png enviar para o delicious Enviar para o StumbleUpon Facebook Twittar este artigo

artigos relacionados

13 comentários

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

Magnifico, porquê? porque está lá.

nuno pinheiro em 7 de agosto de 2009

Parabéns boa matéria, por isso sempre estou a me espelhar em seu blogger,imagem é tudo e aqui ela conta um pouco da história ,continue sempre assim um abraço

Felipe silva em 7 de agosto de 2009

Interessante.
Há também o caso de um equilibrista que em 1977 caminhou (ou seria equilibrou-se?) sobre o cabo do teleférico do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro.

borges em 7 de agosto de 2009

Que história fantástica!!! Este blog é ótimo...

Thaiana em 7 de agosto de 2009

É incrível como tem pessoas que amam o perigo, como brincam com a morte e sentem prazer em desafiá-la.
Seu blog é excelente. Parabéns!

Angela em 8 de agosto de 2009

Hoje em dia, seria condenado a anos de cadeia, tentativa de ataque terrorista e sabe-se lá que mais...
É para ver a "evolução" que temos tido. :/

Carlos Martins em 8 de agosto de 2009

Uma experiência quase metafísica: uma leveza no desafio da morte. Excelente matéria.

Maria João Dias em 8 de agosto de 2009

Muito bom!Notícias bem elaboradas assim valem a pena gastar o tempo para ler.Parabéns!

Lilly em 8 de agosto de 2009

já tinha visto isso e algum desenho, talvez em vários, mas não imaginava que poderia de fato ter acontecido.

muita goragem do equilibrista. é o poder da mente...

felipe mauricio em 8 de agosto de 2009

A palavra funâmbulo em inglês é Funambulist, que nasceu da junção das palavras Fool e Somnambulist :)

Aproveito para recomendar a todos o filme Man on Wire que conta esta história. O trailer está aqui:
http://aindapiorblog.blogspot.com/2009/08/funambulismo.html

AindaPiorBlog em 8 de agosto de 2009

gostei ;)
vi um documentario sobre um omem qe quis atravessar umas catarata mas o vento foi tao forte qe acabou por cair de la d cima do cabo

Pedro em 9 de agosto de 2009

Esse blog se destaca entre os que eu acompanho pela diversidade de temas e excelentes textos. Parabéns!

Babi em 9 de agosto de 2009

Muito interessante a matéria, e que coragem.
Vcs estão de parabéns o obvious é muito legal. Leio tudo que me mandam.

ruth gonçalves em 14 de agosto de 2009

deixe o seu comentário

Comentário

 

Seja cordial e educado. Comentários ofensivos ou pouco dignos serão apagados.


 

 

Site Meter site statistics PHP Scripts